5 DIMENSJONERING FOR BRANN
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Como vimos os entrevistados referem-se freqüentemente à emigração como um fenômeno natural da cultura portuguesa. Durante a pesquisa, ouvi afirmações como: - O português é muito emigratório!113 Essa resposta tão natural nos levou a aprofundar um pouco mais o questionamento sobre as razões de emigrar e a tentar decifrar os mitos e ideologias presentes nessas falas, buscando compreender o que se esconde por baixo dessa obviedade. Nesse esforço, percebemos que a cultura da emigração foi difundida em Portugal, principalmente junto às populações das
112 O conceito de violência simbólica descreve o processo pelo qual a classe que domina economicamente impõe sua cultura aos dominados. Bourdieu, juntamente com o sociólogo Jean- Claude Passeron, partem do princípio de que a cultura, ou o sistema simbólico, é arbitrário, uma vez que não se assenta numa realidade dada como natural. O sistema simbólico de uma determinada cultura é uma construção social e sua manutenção é fundamental para a perpetuação de uma determinada sociedade, através da interiorização da cultura por todos os membros da mesma. A violência simbólica se expressa na imposição "legítima" e dissimulada, com a interiorização da cultura dominante, reproduzindo as relações do mundo do trabalho. O dominado não se opõe ao seu opressor, já que não se percebe como vítima deste processo: ao contrário, o oprimido considera a situação natural e inevitável.BOURDIEU, P. PASSERON, J. C. A reprodução: elementos para uma teoria do sistema de ensino.Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1975.
aldeias do Norte de Portugal. Essa constatação é um dado histórico já analisado por vários autores. Entretanto, examiná-la a partir dos discursos orais certamente contribuirá para a possibilidade de outras abordagens sobre essa questão.
Com o objetivo de verificar os interesses envolvidos no processo emigração/imigração nossas indagações se dirigiram para as políticas que determinaram a emigração dentro das diferentes sucessões. Ainda no século XIX, estudo de Pereira114 demonstra que embora não houvesse propriamente coincidência de interesses entre os dois países envolvidos (Brasil e Portugal) em seus objetivos eles se complementavam.
Do ponto de vista da emigração esta autora concluiu que a corrente emigratória contava com uma vasta engrenagem comercial concretizada por um sistema de leis que envolvia os dois países. Desde o final do século XIX, os emigrantes eram agenciados por verdadeiras redes de recrutamento que envolvia capitães de navios, párocos das igrejas que se incumbiam de propagar uma vasta difusão de oportunidades que teriam no Brasil.
Os capitães de navios entravam na organização da emigração clandestina – sem passaporte ou com passaporte falso. A obtenção de documentação falsa era mais uma das operações comerciais que envolviam os negócios da emigração. Para tanto contavam com a conivência da policia marítima que facilitava o embarque. Os capitães de navio abriam crédito aos clandestinos e estes, em porto brasileiro, eram oferecidos a engajadores para contratação de trabalho. Os imigrantes ficavam retidos nos navios até encontrar um patrão, um tempo que podia durar até 20 dias. Um exemplo de agências desse tipo foi a Casa Orey e Antunes, uma empresa brasileira de imigração fundada em 1924 que cooptava adultos, adolescentes e crianças a emigrar. Os capitães dos navios cobravam o dobro ou triplo do preço da passagem. Obviamente, não havia nenhuma proteção para os contratos de trabalho e, nessa ordem, pode-se imaginar porque o status social do trabalhador imigrante livre pouco se diferenciava do escravo115.
114 PEREIRA. M. H. A política portuguesa de Emigração.
No país de origem do imigrante, o processo emigratório, pode representar um fator de crescimento econômico. E já na primeira metade do século XX, o Estado português percebeu que a emigração rendia divisas para o país além de abrir mercados consumidores para suas mercadorias, principalmente, o vinho e o azeite.
Pesquisando o Jornal A Voz de Portugal, 116 este interesse ficou comprovado,
pois mostra as inúmeras oportunidades que a mídia propagava àqueles que queriam viajar. Desde parcelamento ou passagem mais barata, contratos de trabalho até a difusão da vida social dos portugueses que tiveram sucesso em seu projeto imigratório.
Sociedade Lusa Panaense LTDA
O rápido e confortável vapor “North King” sairá em 15 de agosto de Lisboa para o Rio e Santos
Passagens com abatimento – apenas Cr$ 14.o6o
Fonte: compilado de VOZ DE PORTUGAL,
Outro:
Sociedade Capitania Colonial de Navegação Vera Cruz Passagens para o Brasil e Portugal
Passagens em Baixa – sofreu sensível baixa em todas as classes. Principalmente na 3ª classe.
Fonte: compilado de VOZ DE PORTUGAL 07/08/1955
Ainda em 1955, esse jornal incentivava o processo e reafirmava que a emigração/imigração constituía um elemento de crescimento para a economia dos países envolvidos.
Empréstimos para compras de casas comerciais. Seção especial para portugueses.
VASQUEZ E Companhia
Fonte: compilado de VOZ DE PORTUGAL 07/08/1955
Dessa forma o destino do emigrante, construído como aventura e heroísmo, fora uma lógica apenas para os pobres. Para os ricos a emigração nunca foi estimulada e graças a essa ideologia voluntarista o país podia redimir sua consciência formada na moral cristã. As referências ao lugar de origem são, quase sempre idealizadas. Esse dado propicia pensar que a impossibilidade de racionalizar o passado é inerente ao próprio processo de desterritorialização, ou o processo sofrido pelos que perdem o seu meio cultural.