01 Om øvingsforma
1.2 Føremålet med øvingsforma
A construção do caso clínico em psicanálise é a peça-chave na argumentação de seu método e no diálogo com a psicopatologia. É um instrumento que articula o caráter privado e sigiloso da psicanálise no que se refere à experiência de tratamento e na sua legitimidade científica. Um caso clínico pode resumir-se a uma composição de poucas linhas ou mesmo a um relato minucioso, como diz Dunker (2011). Em suas palavras,
Gostaria de admitir que o critério mais simples para que um relato seja utilizado como caso é que ele se inscreva em um determinado sistema de transmissão. É deste sistema de transmissão, como comunidade social de pesquisa, que caracteriza a psicanálise, que deveríamos extrair os critérios pragmáticos que definiriam um caso. Como em qualquer método, o caso clínico se presta a verificação, comparação e crítica dos fenômenos, conceitos e hipóteses sobre os quais é apresentado no quadro de uma comunidade de pesquisa. Ou seja, se é pelo o uso que um caso se caracteriza como tal, não será pelo delineamento de suas características formais (narrativas ou discursivas), temáticas (conceituais ou nocionais) e categorias (como os da escala Waelder) que se poderá chegar ao reconhecimento das condições que tornam uma peça de escrita um caso clínico (p. 538).
De acordo com Queiroz (2002), as pesquisas no campo psicopatológico falham à medida que dão ênfase aos sistemas classificatórios ante a singularidade da clínica. O saber psicanalítico não está no observador; está naquele sujeito que detém o sofrimento. Assim, a pesquisa deve estar inscrita no sujeito afetado pelo pathos, embora, de modo indireto, o pesquisador que padece com
o sofrimento do outro amplia o desejo de saber, o desejo de curar. Nesse sentido, a teorização do pathos tem implicação direta naquele que escuta. A forma como o discurso afeta o analista afetará a sua produção de pesquisa.
Não há como falar de uma metapsicologia freudiana sem situá-la (Queiroz 2002). O caso clínico aparece como amarração necessária à produção em pesquisa em metapsicologia. E o ato de escrever sobre a clínica esculpe um ato de transformar em teoria. O caso clínico transcende a escuta de desejos nunca revelados, as histórias da vida privada que são necessárias para a produção em metapsicologia e que apenas o caso pode revelar e inscrever (Queiroz, 2002).
O caso escrito para Queiroz (2002) manifesta uma relação transferencial metamorfoseada. O analista se torna sujeito encarregado de escrever a história clínica, e a transferência presenciada deixa de existir na letra. O que está escrito estimula o sujeito a considerá-la como o signo de algo que não está mais presente. Segundo Dunker (2011), o emprego desse modelo de classificação na perspectiva freudiana enfatiza a etiologia, e não as características descritivas.
Em pesquisa sobre o método do estudo de caso em psicanálise, Guimarães e Bento (2008) fazem uma revisão do assunto e apontam três questionamentos importantes: o que é estudo de caso em psicanálise? Qual é o objeto da teorização do estudo de caso em psicanálise? Como realizar um estudo de caso em psicanálise? Chegaram à conclusão de que a escrita analítica sobre o pathos é o estudo de caso em psicanálise que inclui sua descrição e sua teorização; e o objeto que deverá ser teorizado é a memória do inconsciente que passa por três momentos centrais para a construção do caso: pathos-doença; pathos-paixão-transferência; e escrita da análise e interpretação da narrativa da doença, da transferência e a construção metapsicológica.
O primeiro eixo para construção de um caso clínico é a história da doença com sua descrição e evolução — a inscrição do pathos-doença. Observa-se a queixa com relação à história do
sujeito. A inscrição pathos-paixão- transferência é o momento em que os processos inconscientes são reatualizados através da figura do analista, através das repetições e regressões das relações instauradas nas relações durante a infância. Através do influxo da transferência em que se inicia o tratamento em psicanálise, o sintoma deixa de ter tanta importância para o paciente na medida em que se instala a neurose de transferência. Assim, inicia-se o caminho para “liberdade” dos processos inconscientes, o que lhe aprisiona e causa sofrimento. Como consequência, os sintomas deixam de fazer sentido para a manutenção do sujeito. No terceiro eixo, a escrita à construção teórica e sua relação com o material clínico ligado ao campo teórico e à produção de uma metapsicologia (Guimarães, Bento, 2008).
Como se pode perceber, o estudo de caso tem relação forte com a experiência clínica. O atendimento clínico antecede a construção do caso clínico; e é após seu término que se inicia a elaboração do sentido, daquilo que aconteceu dentro do setting terapêutico. Desse momento em diante, é possível construir a teoria psicanalítica percorrendo o caminho do sofrimento dos pacientes.
Como a iniciou Freud, a pesquisa em psicanálise parte dos relatos de pacientes; o percurso que o analista deve percorrer está marcado pelo que é dito. Porém, o que determina a pesquisa em psicanálise serão os nãos ditos, o que está nas entrelinhas. Assim, o ensaio metapsicológico é o texto do analista que foi possível através da existência do paciente que, em dado momento, passou pelo processo de análise; e a construção da teoria foi possível porque o analista transformou a experiência analítica em escrita.
A clínica e a escrita em pesquisa não são considerados como idênticas, visto que uma antecede a outra. Ao se escrever a clínica, está se desenvolvendo uma metapsicologia, e não uma psicanálise no sentido clínico. Porém, definir a psicanálise como método de investigação e
tratamento significa dizer que a construção teórica é possível após o trabalho do tratamento da pessoa que passou pelo processo. Iribarry (1999, p. 53) esclarece o que seria caso clínico e o diferencia de estudo de caso:
O caso só é caso ao receber status de apresentação pública. O ensaio metapsicológico adquire sua cidadania ao ser apresentado publicamente, obtendo, desta maneira, o reconhecimento que lhe tornará aproveitável entre os que se ocupam das meditações freudianas.
Ao teorizar o objeto de estudo no estudo de caso que é de situar a descrição do pathos (sofrimento psíquico) e também a teorização da memória do inconsciente da análise do caso estudado. Caberia pensar que escrever a clínica seria refletir sobre o tratamento de um caso, na angústia, nos efeitos terapêuticos, no sofrimento. A escrita tem como sentido especificar a queixa do paciente e descrever, de maneira neutra, para entender quais são os processos inconscientes da pessoa atendida no contexto do sofrimento relacionado com a doença, da transferência e da construção teórica.
Com base nessas observações derivadas do pensamento de autores citados até aqui, na pesquisa em psicanálise a construção de um caso clínico é instrumento relevante. Embasa a avaliação de um processo de tratamento, a discussão da função diagnóstica de cada caso e o estudo da expressão singular dos sintomas e sua relação com a queixa. São procedimentos que ajudam a compreender, no discurso do paciente, a demanda do sujeito e o “lugar” de seu sofrimento. Com efeito, no texto “A construção do caso clínico em saúde mental”, Carlo Viganò (1999) escreve sobre esse tema e diz que a psiquiatria, no caso de Minas Gerais, estava em um processo de transição: então considerada doença, a “loucura” passa a ser tratada como saúde mental. Isso quer dizer que perde o significante de doença, faz pontuações pertinentes.