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Før romsondenes tid

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- Dá para viver sem leitura? - Na minha profissão acho que não é importante saber ler, o importante é saber engraxar bem! (Engraxate anônimo)4

O que faz um adulto, inserido no contexto letrado do espaço urbano, acreditar que, na sua profissão, não há necessidade de saber ler, mas apenas engraxar bem? Se a leitura, considerada uma das capacidades básicas de comunicação do ser humano no meio urbano atual, não é vista por esse engraxate como uma necessidade, é possível afirmar que o seu depoimento traduz uma opção pelo analfabetismo? Octávio Paz, citado por Machado (2000), entende que a liberdade consiste na escolha da necessidade. Cabe assim, questionar, se a ação desse ator social anônimo reflete uma escolha ou a limitação do rol de necessidades, socialmente construída, que se impõe a certos segmentos da sociedade, e se representa uma posição individual ou compartilhada pelo grupo social ao qual pertence.

O potencial latente oferecido pela cultura e pela língua é ilustrado por Ginzburg (2002) por meio da metáfora de uma jaula flexível e invisível, dentro da qual se exercita a liberdade condicionada de cada um. Entende-se por essa metáfora que possibilidades oferecidas pela cultura e pela língua estão condicionadas pelo entrelaçamento de fatores individuais e sociais, que impõem limitações ao ser humano, mas limitações elásticas. Logo, é preciso analisar em que medida afirmações como as do engraxate, ou manifestações do senso comum como as que culpabilizam o indivíduo por sua condição de analfabeto, caracterizam-se como produtos de uma elaboração social.

Se a nossa liberdade encontra-se limitada pela jaula da cultura, certamente será inadequado analisar de um lado o sujeito não-alfabetizado e, de outro, a sociedade, mas há que se compreender a porosidade entre essas instâncias. Como menciona Sá (1995), é importante entender não apenas a influência unidirecional dos fatos sociais sobre os processos individuais, mas, ainda, a participação destes na realidade social.

Aprofundar esta discussão pressupõe abordar o analfabetismo na perspectiva da relação indivíduo e sociedade, um dos eixos centrais e unificadores do debate contemporâneo das

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Diálogo extraído do vídeo “Palavra do Leitor”. Produção Fundação para o Desenvolvimento da Educação – FDE/GLB. Direção de Celso Maldos. São Paulo: Governo do Estado de S.Paulo, 1990

ciências sociais e psicológicas. Nesse sentido, a teoria das representações sociais se apresenta como possibilidade de superar abordagens dicotômicas, coletivistas ou individualistas, da relação indivíduo e sociedade. As primeiras propõem a anterioridade e determinação da ordem social sobre os atos individuais; as últimas, que os padrões sociais são produzidos a partir das ações individuais. Assim, a afirmação do engraxate anônimo, à luz das teorias coletivistas, direcionaria o foco de uma pesquisa para o contexto social em busca de explicações para a posição do engraxate. Já as teorias individualistas conduziriam para uma análise psicológica ou para a compreensão da história individual do sujeito como fontes explicativas de sua ação.

Elias (1994) entende que é preciso romper com essas antinomias teóricas e desconstruir a dicotomia indivíduo e sociedade, fundante do pensamento ocidental moderno. Haverá avanço efetivo na compreensão da complexa rede de relações humanas quando for possível por fim às divisões, decorrentes das especializações, e se viabilizar uma concepção interdisciplinar de investigação da realidade. Pare ele, um importante passo foi dado com a constatação de Durkheim de que a sociedade não é uma mera soma de indivíduos, assim como uma pilha de tijolos não constitui uma casa. Mas ainda é preciso evitar a hierarquização entre indivíduo e sociedade, o que pressupõe compreender que essas instâncias isoladas são desprovidas de objetivos. Uma não existe sem a outra.

No campo de investigação da Psicologia Social, Vala (1993) aponta outra dicotomia como princípio orientador das teorias, que também envolve pressupostos sobre o ser humano e o comportamento humano. Diz respeito, especificamente, a posicionamentos opostos sobre a relação entre conhecimento e ação. Para ilustrar um dos lados, o autor utiliza a imagem do sujeito-agente, que pressupõe um sujeito autônomo, capaz de conhecer, desejar e sentir, logo a cognição segue a ação. Do lado contrário o pensamento comanda a ação, o que é retratado pela imagem do sujeito-ator, cujas capacidades deixam de ser explicativas para serem explicadas.

Após articular as relações entre indivíduo/sociedade e conhecimento/ação, analisando os paradigmas daí decorrentes, Vala situou a teoria das representações sociais no contexto de um novo paradigma, que rompeu com as concepções binárias anteriores. Para ele, este referencial é ternário, pois pressupõe que a relação entre indivíduo ou grupo com o objeto é sempre mediada por outro, indivíduo ou grupo. O ser humano é concebido como sujeito de conhecimento, que não pode ser apartado de seus laços sociais, e o conhecimento é tomado como uma atividade coletiva, pois o sujeito está ligado a outros indivíduos e grupos. Pressupõe, ainda, uma sociedade

pensante, que constrói e reconstrói conhecimentos a partir da comunicação e interação social, por sua vez, nutridas por estímulos, objetos, ideologias e experiências.

Assim, pensar o analfabetismo na perspectiva da teoria das representações sociais implica refutar o determinismo sociocultural e a visão de ser humano como sujeito passivo, tomando como premissa a existência de sujeitos ativos de conhecimento, no contexto de uma sociedade pensante. Significa, ainda, compreender como um grupo de pessoas não-alfabetizadas representa o analfabetismo e se percebe no contexto de uma ordem social injusta que naturaliza diferenças sociais e hierarquiza indivíduos e grupos. Logo, impõe valorizar esse saber.

Moscovici (1978) esclarece que representar algo não é somente reproduzi-lo, mas remodelá-lo, modificar-lhe o texto a partir do contexto, dos valores, noções e regras. Em outras palavras, representar implica em ação sobre o conhecimento pelos sujeitos, que atuam como “sábios amadores”, na concepção do autor. Dessa forma, se o depoimento do engraxate não deve ser considerado exclusivamente como fruto de uma determinação social, tampouco seria possível afirmar que traduz uma opção particular pelo analfabetismo, advinda de limitações pessoais, pois, como esclarece Moscovici, toda ordem de conhecimento pressupõe uma prática, ou seja, envolve uma atmosfera que lhe é própria e que lha dá forma, assim como a interação de sujeitos pensantes. Logo, de algum modo, a ação dos sujeitos está interligada a uma ordem social.

Assim como toda prática social, o analfabetismo e a alfabetização estão inseridos numa ordem social mais ampla que marca o lugar dos alfabetizados e não-alfabetizados, ou seja, essas práticas participam da formação da identidade social das pessoas. Para Rama (1995), ao adotar essa identidade social, as pessoas naturalizam e atualizam relações de nomeação e poder contidas na língua, que refletem, também, os efeitos sociais e cognitivos que dão sustentação à construção de significados e à atribuição de sentidos em sua enunciação. Isto é, as práticas sociais, culturais, políticas e discursivas que resultam da complexidade estrutural das sociedades modernas geram, por sua vez, modelos de letramento diferenciados. .

Portanto, contar com o suporte da teoria das representações sociais para interpretar a fala das pessoas não-alfabetizadas sobre a sua condição e os diferentes modos como vivem o analfabetismo parece adequado, uma vez que as representações sociais se manifestam em palavras, sentimentos e condutas e se institucionalizam, podendo ser analisadas pela compreensão das estruturas e comportamentos, embora sua mediação privilegiada seja a linguagem, tomada como forma de conhecimento e interação social (Minayo, 1999:108).

Enfim, a teoria das representações sociais vem se firmando como um corpo de conhecimentos voltado à compreensão de como se constituem os fatos e fenômenos da vida cotidiana e à gênese de explicações ou afirmações expressas pelas pessoas. Busca explicar como as pessoas conhecem, significam e vivem o mundo. Logo, o referencial teórico das representações sociais contribuirá, não só para ampliação dos conhecimentos sobre o analfabetismo, como para analisá-lo de forma articulada com outros fenômenos, como as desigualdades sociais e educacionais, a pobreza e a exclusão.

Sendo uma construção teórica relativamente nova, torna-se necessário, portanto, abordar alguns aspectos de sua trajetória e aplicabilidade, bem como as perspectivas que apresentam à pesquisa no campo da educação. Esta discussão terá início com uma análise dos fundamentos históricos dessa teoria, a partir dos questionamentos que levaram Moscovi a transformar o conceito de representação coletiva em representação social.

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