5.2 Resultatdiskusjon
5.2.1 Før gjennomføring av abort
Quando do reaparecimento da Esmeralda, em 1907, o Correio do Povo louvava o retorno do carnaval345, que reaparecia com a mesma aparência de antigamente, porém
com algumas particularidades. Segundo o jornal, “vinha Ele [o Carnaval], senão com a
mesma cara, com o mesmo aspecto de outrora”346. Porém, ao olhar mais detidamente,
345
Lembramos que, como foi explicitado no primeiro capítulo, havia outras formas de comemoração do período carnavalesco. No entanto, para boa parte da imprensa porto-alegrense, se não havia Esmeralda e Venezianos, não havia carnaval.
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reparava em “certas minudências”347: “o Carnaval reaparecia sob uma feição
acentuadamente feminina”348. Com espanto, observava que “não restava a menor dúvida: era a linda, a grácil Mulher porto-alegrense que fazia o Carnaval. Por isso vinha ele tão garboso, tão gentil e tão chic. Por isso tinha sido possível o milagre de sua
ressurreição”349 .
Que mudanças teriam ocorrido para que o jornal afirmasse que o carnaval vinha
com uma “feição acentuadamente feminina”? Era a mulher quem passara a fazer o
carnaval? Ao reaparecer, o carnaval vinha com um aspecto feminino, com traços finos e distintos, era chique, gentil e garboso. Este excerto é, para nós, de muita importância, pois ele claramente anuncia uma mudança na forma de se ver a participação das mulheres nesta festa, que, com o retorno das sociedades carnavalescas, passam a ter sua presença glorificada: agora sã elas o baluarte da moral e dos bons costumes, da regeneração do carnaval. Passados pouco mais de vinte anos, o carnaval reaparece com uma feição feminina: as mulheres são as líderes da ‘revolução’ que tiraria Porto Alegre da concupiscência em que se encontrava nos dias de folia. Tal discurso já havia sido proferido há trinta anos, como vimos anteriormente, contudo, com outros agentes: eram os heroicos e valentes esmeraldinos e venezianos que tinham tal missão.
Portanto, se, como vimos, a criação das sociedades havia sido um ‘ato heroico’ e
demandava atributos masculinos, como a valentia, a coragem e o heroísmo; no ressurgimento das sociedades, as qualidades ressaltadas eram outras: o carnaval reaparecera com feições femininas!!! Era garboso, gentil e possuidor de traços finos. A criação das sociedades fora um ato heroico, protagonizado pelos moços da elite da capital, enquanto que o “milagre da ressurreição” era de responsabilidade da grácil
“mulher porto-alegrense”. Entretanto, a despeito dessa ênfase na figura feminina, assim
como na primeira fase dessas tradicionais sociedades carnavalescas, a presidência das agremiações era ainda ocupada somente por homens. Do mesmo modo, como vimos no primeiro capítulo, apesar de se afirmar que o “milagre da ressurreição” das sociedades foi uma obra feminina, somente homens participaram das reuniões realizadas para planejar o ressurgimento das referidas agremiações.
Contudo, nesse momento, era em torno das mulheres que se centrava o brilho da festa: das rainhas, das diretoras, das sócias e, até mesmo, das expectadoras. Tanto é que,
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Correio do Povo, 17 de fevereiro de 1907. 348
Correio do Povo, 17 de fevereiro de 1907. 349
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como vimos, o jornal Correio do Povo afirmava que “era a grácil Mulher porto-
alegrense que fazia o carnaval”350
. Esta afirmativa é de máxima relevância, pois, apesar dos cargos de maior destaque dentro das sociedades carnavalescas ser ocupados por homens, a execução e o sucesso dos festejos será creditados às mulheres que perfaziam os quadros dessas agremiações. É preciso que se pontue que, na primeira fase, elas já ocupavam cargos de diretoria e faziam parte das comissões organizadoras dos festejos; no entanto, tal participação não era tão evidenciada, nem eram atribuídos a elas os êxitos do carnaval. O jornal A Federação, por exemplo, no carnaval de 1914, exaltava
“o belo sexo esmeraldino” ao afirmar que “quanto a essa parte só pode falar claro, alto e
em bom som, quem fez a distribuição pelos carros alegóricos do préstito e ora recebe as
inscrições para as carruagens ornamentadas do corso”351
. Esse periódico, portanto, ressaltava a atuante participação das mulheres na sociedade Esmeralda, na organização do préstito carnavalesco.
Os Venezianos, logo após sua reorganização em 1906, na reunião em que escolheram a nova diretoria, apresentou a seguinte lista de diretoras: Alice Schmitt, Alice Telles, Celia Torres, Olinda Totta352, Ida Araguão, Júlia Barreto, Judith Duval, Fantina Mariante, Arinda Canteiro, Rosita Ferreira, Lelia Gaudis Ferreira, Olga Kesller, Oxya Itaqui, Elmira Pacheco353, Regina Barreto Viana, Lavínia Candal, Golleta Coussirat354, Valesca Issler, Othylia Casado, Marília Barreto, Lili Primavera, Zizi Garcia, Brunehilda Fontoura355 e Adília Barreto Viana356.
350
Correio do Povo, 17 de fevereiro de 1907. 351
A Federação, 19 de fevereiro de 1914. 352
Olinda Totta era filha de Augusto Rodrigues Totta e de Emília Ribeiro de Andrade e Silva, irmã do médico e jornalista Mário Totta. MORAES, Adriana dos Santos. Em novela de 1897, uma imagem da
cidade em direção à modernidade. Estrychnina: na Porto Alegre do final do XIX, o moderno se envenena de desejo. Dissertação de Mestrado. PUCRS, Porto Alegre, 2006. Seu pai foi membro e segundo
secretário do Partenon Literário. Casou-se com Teófilo Borges de Barros. Sobre o Partenon Literário, ver: SILVEIRA, Cássia Daiane Macedo. Dois pra lá, dois pra cá: o Parthenon Litterario e as trocas entre
literatura e política na Porto Alegre do século XIX. Dissertação de Mestrado. Porto Alegre: 2008 353
Rainha da Sociedade Carnavalesca Os Venezianos em 1907. Jornal do Comércio, 10 de fevereiro de 1907.
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Coleta Cuissart era filha de Ladislau Cuissart e Dulce Cuissart. Nasceu em Porto Alegre em 25 de setembro de 1986. Casou-se com Emílio de Moraes Fernandes em 24 de setembro de 1918, era dona de casa e não tiveram filhos. Cf. Inventário de Emílio de Moraes Fernandes, n. 6804, 1954, Porto Alegre, APERS. Seu irmão, “Ladislau Coussirat Araújo, nasceu em 1889, era da turma de 1912 da Escola. Ingressou no quadro docente da instituição no ano seguinte, assumindo, em 1918, como Engenheiro- chefe do Instituto Astronômico e Meteorológico, setor que dirigiria até sua morte, em 1929; de 1925 a 1929, Coussirat Araújo acumularia também a direção do Departamento Central da Escola. Pioneiro da moderna meteorologia brasileira, participou de várias viagens, comissionado pela escola e pelas autoridades brasileiras, de estudo aos Estados Unidos, de onde trazia parte das inovações aplicadas no Instituto. Em 1921-1922, a convite do governo do estado de Minas Gerais, dirigiria os trabalhos de reorganização do serviço meteorológico daquele estado”. HEINZ, Flávio. Positivistas e republicanos: os
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Nesse ano, as duas sociedades, a fim de anunciar a escolha das mulheres que dirigiriam a organização dos bailes e dos desfiles, fizeram comissões para que fossem
percorridas as casas “das jovens aclamadas diretoras, a fim de convidá-las a aceitar a
inclusão dos respectivos nomes nas listas organizadas” 357. Aceito o cargo, diversas eram as reuniões efetuadas para que se organizassem o festejo. A comissão central diretora das festas da Esmeralda, por exemplo, convocou todas as diretoras a se reunirem na casa de sua rainha, Edith Ribeiro, na Rua Duque de Caxias, número 187, “a fim de tratar de assuntos atinentes ao baile burlesco e de gala a ao passeio” 358. De acordo com o jornal A Federação, essa reunião “esteve muito concorrida, compareceram muitas diretoras que, por não se acharem na capital ou por impedimento ocasional, não haviam podido estar presente na primeira” 359.
Eram, ainda, realizados bailes em homenagem às diretoras, para os quais eram convidadas apenas as famílias dos sócios. A fim de anunciar esses eventos, também havia comissões que percorriam as casas das jovens, como por exemplo, no dia 18 de
janeiro de 1907, quando, “às 3 horas da tarde, o Dr. Amaro Vilanova360
e o Sr. Alfredo
professores da Escola de Engenharia de Porto Alegre entre a atividade política e a administração pública (1896-1930). Revista Brasileira de História, vol. 29, nº 58.
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Brunehilde Fontoura era filha de Idelfonso Borges Toledo da Fontoura e Etelvina Carvalho. Nasceu em Santa Maria em 16 de novembro de 1891 e faleceu no Rio de Janeiro em 26 de fevereiro de 1969. Poetisa e pintora, casou-se com Waldemar José dos Anjos de Vasconcelos (promotor público, escritor e membro da Academia Sul Riograndense de Letras), em 11 de dezembro de 1918, na Catedral de Porto Alegre.Catedral Livro 14, folha 4, Arquivo da Cúria Metropolitana de Porto Alegre. SIMÕES LOPES, João Filho. A Família Escoto: dos Açores ao Brasil Meridional. Revista Gentree - Genealogia &
História. Ano I, no. 1, pgs 3-19. Associação Gentree Genealogia & História. São Paulo-SP, 2001. Seu pai
foi Coronel da Guarda Nacional, engenheiro geógrafo formado pela Escola Politécnica do Rio de Janeiro em 1886, chefe da Secretaria de Obras Públicas do RS em 1898 e de 1904 a 1906, chefe do Serviço de Repressão ao Contrabando do RS em 1899, Coronel Comandante da 26ª Brigada de Infantaria do RS em 1901, chefe do Plano Geral da Viação do RS em 1907, inspetor de 1ª Classe do Telégrafo Nacional em 1908, engenheiro chefe do telégrafo de 1909 a 1913, e inspetor federal das estradas a partir de julho de 1913. Segundo Heinz, estava entre os quatro “professores dos primeiros anos da Escola de Engenharia [que] eram positivistas religiosos e atuaram na administração pública no período. HEINZ, Flávio. Positivistas e republicanos: os professores da Escola de Engenharia de Porto Alegre entre a atividade política e a administração pública (1896-1930).Revista Brasileira de História, vol. 29, nº 58.
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Jornal do Comércio, 04 de março de 1906. Adília Barreto Viana era filha de Olavo Barreto Viana e Regina Martins Marques, sobrinha de Manuel Teófilo Barreto Viana, que foi presidente da Esmeralda em 1910 e 1911, bem como Regina Marques Barreto Viana, sua irmã, nascida em 03 de fevereiro de 1889. Casou-se em 29 de julho de 1908, com Luiz José Guedes, médico; catedrático de psiquiatria da UFRGS; poeta e professor. Registro de Batismo da Igreja de Nossa Senhora das Dores, Porto Alegre, Livro 8, folha 54, Arquivo Histórico da Cúria Metropolitana de Porto Alegre.
357 A Federação, 10 de março de 1906. 358 A Federação, 22 de fevereiro de 1907. 359 A Federação, 28 de janeiro de 1907. 360
Neste ano ele também arquitetou e dirigiu a confecção dos carros alegóricos do préstito. Jornal do
Comércio, 10 de fevereiro de 1907. Amaro de Azambuja Vilanova nasceu no Rio Grande do Sul, no dia
18 de abril de 1879. Fez carreira militar no Exército, e parte de um grupo de jo vens oficiais que estagiaram na Alemanha, entre os anos de 1906 e 1912. Segundo Cristina Luna, esse grupo “foi
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Torelly, membros da comissão central, visitar[am] as residências das diretoras
esmeraldinas, convidando para o baile burlesco”361
. Durante estas visitas, as comissões também tinham a incumbência de fazer-lhes a entrega dos “belos distintivos esmaltados
recebidos de Paris pela Esmeralda e que são a reprodução do respectivo estandarte”362 . Estes distintivos eram um belo sinal de distinção destes carnavalescos. Como abordamos no primeiro capítulo, o renascimento de Esmeralda e Venezianos atendeu a uma demanda de desencanto por parte de parcela da população que estava desiludida com os festejos que existiam naquele raiar do século XX. Eram comemorações de parcelas da população que não pertenciam às elites da capital. Ter um distintivo
produzido em Paris era uma forma de se distanciar e marcar sua situação de “elevação”
do restante da massa porto-alegrense, que neste modelo de festa, deveria apenas assisti- los. O distintivo virava um sinal de distinção daqueles que o exibiam, eram como signos distintivos, do qual nos falava Bourdieu.
O jornal A Federação, órgão do Partido Republicano Rio-Grandense (PRR)363, publicou, a pedido da diretoria da Esmeralda, uma nota anunciando a reunião desta
fortemente influenciado pela cultura, pela organização social e, principalmente, pela organização militar alemã”. Lutaram pela profissionalização dos militares e do aparelhamento do Exército, criando a “revista A Defesa Nacional, cujo formato inspirava-se na Militär Wochenblatt, de Berlim”. De acordo com a autora, essa revista, lançada em outubro de 1913, “se tornou o mais importante meio de divulgação das ideias dos oficiais reformadores, que se engajaram na defesa da ampliação do ensino militar nos estabelecimentos escolares de nível secundário e superior, na campanha pela modernização do Exército, principalmente a partir da vinda de uma missão militar alemã ao Brasil, e na luta para pôr em prática a lei que determinava o serviço militar obrigatório e o recrutamento militar através de sorteio (promulgada em 1908, mas inaplicada até 1916)”. LUNA, Cristina Monteiro de Andrada. Os “jovens turcos” no processo de desenvolvimento do Exército e da nação. ANPUH – Anais do XXIV Simpósio Nacional de História, São Leopoldo, 2007, p. 02. Amaro também foi comandante da 7ª Região Militar, sediada no Recife, conspirou contra o governador Carlos de Lima Cavalcanti, colaborando para a sua deposição. Foi designado interventor federal de Pernambuco, em 10 de novembro de 1937, passando o cargo a Agamenon Magalhães, no mês seguinte. Comandou a 7ª Brigada de Infantaria, a Infantaria Divisionária e a Artilharia Divisória da 7ª RM, todas sediadas no Recife, amigo íntimo de Getúlio Vargas. CAMARGO, Aspásia. et al. O golpe silencioso: as origens da república corporativa. Rio de Janeiro: Rio Fundo, 1989, p.222. 361 A Federação, 18 de janeiro de 1907. 362 A Federação, 19 de janeiro de 1907. 363
O jornal A Federação foi “fundado por Júlio de Castilhos para ser o baluarte de vitória e de manutenção do poder do Partido Republicano Rio-grandense, é de 1º de janeiro de 1884, depois de cuidadosamente planejado, já que experiências anteriores haviam fracassado. Durará até 1937, quando é extinto por ato censorial, ainda que já se encontrasse em decadência desde após a Revolução de 1930. HOHLFELDT, A.; RAUSCH, F. A imprensa sul-rio-grandense entre 1870 e 1937: Discussão sobre
critérios para uma periodização. NP de Jornalismo, do XXIX Congresso Brasileiro de Ciências da
Comunicação, Universidade de Brasília, Distrito Federal. A imprensa republicana já tivera antecedentes, no Rio Grande do Sul, com os jornais A democracia (1872-1874 ou 1875), A reação (1878), A imprensa (1880-1882) e A convenção (1883-1884), segundo RÜDIGER, Francisco Ricardo. A Federação e o processo político-ideológico rio-grandense (1884-1937). In: Comunicação & Cultura, Porto Alegre, Museu de Comunicação Social Hipólito José da Costa, 1984, nº 1, ps. 12 a 21.
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respectiva sociedade. Neste anúncio, “para governo das interessantes diretoras”364 ,
informava que “interessam-se vivamente pelo bom êxito desse rendez-vous as
comissões diretoras daquelas festas cujo maior esplendor consiste justamente na
graciosa colaboração das gentis senhoritas esmeraldinas”365
. O periódico creditava o sucesso dos desfiles e dos bailes da sociedade, enfim, do carnaval da Esmeralda, à participação e cooperação das moças que compunham esta associação, de tal forma que, era necessário que seus encontros, para a organização da festa, tivessem total sucesso. Crédito esse que não era dado somente pelo jornal, como também pela própria sociedade:
Logo após a entrada da rainha, acolhida entre palmas e aclamações, tomou a palavra o secretario da Esmeralda, nosso amigo Benjamim Flores que, agradecendo a graciosa assistência das diretoras, elucidou-as sobre os fins da reunião, afirmando-lhes que, constituindo elas o supremo encanto da sociedade, do interesse e esforço delas, dependia o brilho do festival esmeraldino no próximo carnaval366.
O secretário da Esmeralda, Benjamim Flores, cujo discurso foi descrito pelo A
Federação, também afirmava serem as mulheres a maior atração da respectiva
sociedade e que delas dependia o carnaval esmeraldino. Vemos, assim que, nessa nova
fase das sociedades, o “belo sexo” passara a ocupar uma posição destacada de
centralidade: organizava os préstitos, punha os carros alegóricos nas ruas e preparava os bailes. Mantinha-se o “belo sexo esmeraldino”, “sempre na vanguarda desse soberbo
movimento”367
, como ressaltava o jornal A Federação.
Do mesmo modo, a Venezianos também promovia reuniões de diretoras a fim de
“tomarem deliberações definitivas sobre os próximos festejos carnavalescos”368
. Como exemplo citamos o encontro, realizado no Clube Caixeiral, em janeiro de 1910, que além das diretoras também participou a soberana veneziana que “foi recebida com estrepitosa salva de palmas pelos membros da diretoria, gentis diretoras e pelo valente
grupo do Zé Pereira”369
. A reunião terminou em festa, com as danças prolongando-se
até às 11 horas. As “gentis diretoras da Esmeralda”370
também haviam convocado uma
364 A Federação, 09 de fevereiro de 1909. 365 A Federação, 09 de fevereiro de 1909. 366 A Federação, 11 de fevereiro de 1909. 367 A Federação, 22 de fevereiro de 1914. 368 A Federação, 24 de janeiro de 1910. 369 A Federação, 24 de janeiro de 1910. 370 A Federação, 24 de janeiro de 1910.
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reunião “para simples discretear sobre assuntos relativos ao próximo carnaval”371 , contudo, segundo o jornal A Federação, este encontro, acabou assumindo “proporções de animadíssimo baile pela extraordinária assistência de esmeraldinas e de moços do
nosso escol”372 .
A presença das mulheres passou mesmo a ser significativa. Ao que tudo indica, eram elas que faziam o carnaval acontecer. Várias são as vezes em que se menciona sua participação não só nas festas, mas como promotoras delas, como por exemplo, na transcrição abaixo:
Três dias de risos, de loucuras, de pilherias, de galhofas: depois, o arrastar contínuo do fardo da existência, com todos os seus espinhos.
Como a capital da Republica, Porto Alegre rende ao carnaval um culto todo especial, incluindo a parte mais seleta da nossa sociedade, como o demonstra o entusiasmo com que o belo sexo concorre aos bailes das sociedades e aos préstitos que elas põem na rua todos os anos373.
Carnaval era dia de loucura, pilherias e galhofas, para depois se retornar a vida ordinária, repleta de carga e espinhos, segundo o articulista do A Federação374. Tal momento extraordinário era promovido pelas mulheres, pois eram elas que colocavam os carros das sociedades nas ruas. Note-se que Porto Alegre rendia um culto todo especial ao carnaval, culto que incluía a parte mais seleta da sociedade, o que nos remete ao capítulo anterior, quando afirmamos que a imprensa da capital criticava os festejos promovidos no período da falência das sociedades, acusando-os de serem rudes em função da participação das classes populares.
371 A Federação, 24 de janeiro de 1910. 372 A Federação, 27 de janeiro de 1910. 373 A Federação, 24 de fevereiro de 1914.
374De acordo com Bakthin, “a festa é isenta de todo sentido utilitário (é um repouso, uma trégua, etc.). É a festa que, libertando de todo o utilitarismo, de toda finalidade prática, fornece o meio de entrar temporariamente num universo utópico”. BAKHTIN, Mikhail. A Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais. São Paulo: Hucitec; Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2008, p. 4. Assim, os ritos e espetáculos, como os festejos populares “ofereciam uma visão do mundo, do homem e das relações humanas totalmente diferente, deliberadamente não-oficial, exterior à Igreja e ao Estado; pareciam ter construído, ao lado do mundo oficial, um segundo mundo e uma segunda vida aos quais os homens da Idade Média pertenciam em maior ou menor proporção, e nos quais eles viviam em ocasiões determinadas”. BAKHTIN, Mikhail. A Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais. São Paulo: Hucitec; Brasília: Editora Universidade de
Brasília, 2008, p. 4. Segundo Ricardo de Souza, “a festa instala-se, portanto, a partir de um momento de ruptura em relação a um universo pautado pela obediência aos superiores e pela necessidade de sobrevivência, e é precisamente o fato de configurar-se como ruptura que a justifica, mas tal ruptura é, ela própria normatizada, e compreendermos como a ruptura se dá e quais normas a regem é fundamental para compreendermos o próprio cotidiano a partir do qual ela se define”. SOUZA, Ricardo Luiz de. Festa e cultura popular: A ruptura e a norma. Revista ANTHROPOLÓGICAS, ano 9, volume 16(2): 99-132 (2005), p. 102.
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Toda esta preparação e organização, da qual as mulheres participavam ativamente, era por si só uma própria festa (muitas reuniões das diretoras terminavam em bailes com a presença do Zé Pereira). Contudo, seu objetivo era preparar tudo para os quatro dias de folia, no qual haveria o corso carnavalesco e seus bailes de gala e burlesco. Desse modo, podemos afirmar que o ponto máximo de comemoração do carnaval era o préstito realizado pelas sociedades carnavalescas. Normalmente, o desfile saía do Parque ou Velódromo (atual Parque Farroupilha ou da Redenção). E para lá retornava ao findar do desfile. Após, os membros das sociedades dirigiam-se para o local em que ocorreria o baile de gala. Em 1907, por exemplo, a Esmeralda “saindo do
quadrilátero defronte ao Parque”375
, percorreria as seguintes ruas: Duque de Caxias, Marechal Floriano, Voluntários da Pátria, Dr. Flores, Andradas até o Arsenal376. Voltaria pela Andradas, passando pela Dr. Flores, Voluntários da Pátria, Marechal Floriano, Riachuelo até o ponto de partida377. Após iriam se reunir na Germânia para o baile de gala378.
Esse evento era narrado e descrito detalhadamente pela imprensa de Porto