Embora a tecnologia de VANTs venha se difundindo de forma rápida, alguns fatores tendem a mitigar esse movimento centrífugo. Muitos países podem desenvolver VANTs, mas poucos detêm o conhecimento e a base industrial para construir modelos capazes de permanecer no ar por tempo dilatado, voar além do horizonte de visão, controlar-se autonomamente ou usar mísseis. Para além de barreiras tecnológicas, há ainda o custo de oportunidade ao adquirir esses sistemas, questões diplomáticas e restrições jurídico-políticas. Ao considerar esses fatores, conclui-se que, como já acontece, muitos Estados terão acesso à tecnologia de VANTs, mas poucos poderão dispor de equipamentos mais sofisticados, com capacidade de atuação realmente global.
3.1.2.1 Complexidade tecnológica
Embora VANTs rudimentares possam facilmente ser adquiridos no mercado, produzir
um sistema aéreo não tripulado com capacidade de voar a distâncias superiores ao campo de visão da base (aprox. 300 km) e de capturar e transmitir imagens não é tarefa simples. A operação de um VANT pressupõe um sistema de comunicações avançado, acesso a banda satelital, sensores modernos, entre outros equipamentos sensíveis de difícil aquisição. Poucos países podem dispor desses recursos. Não menos importante, poucos têm a capacidade de integrar esses distintos equipamentos, assegurando a compatibilidade, a interação e a maximização do desempenho de cada um deles. Assim, conquanto a tecnologia para manter VANTs como o Heron, o Predator e o Shadow no ar não seja especialmente complexa, os equipamentos que tornam possível que eles exerçam impacto no teatro de batalha são avançados e de difícil acesso, a exemplo dos designadores a laser, dos radares de abertura sintética e dos mísseis de precisão.
À medida que aumenta a importância tática e estratégica dos VANTs, bem como sua presença em conflitos modernos, também aumentam os esforços para desenvolver novas armas e técnicas para eliminá-los – como já fazem a China, o Irã, a Alemanha e mesmo os Estados Unidos (HUAYI, 2013; HOENIG, 2014). Em consequência, novos VANTs vêm sendo equipados com tecnologia stealth e com mecanismos de proteção a contramedidas eletrônicas, o que deverá aumentar ainda mais a discrepância entre VANTs simples, de baixa altitude e curto alcance, e VANTs sofisticados, com maiores capacidades ofensivas. Futuras gerações de VANTs serão mais versáteis, mas também mais caras e complexas do que as atuais. Se já são poucos os países que podem desenvolver sistemas apenas para vigilância e sem qualquer proteção, o número daqueles capazes de produzir a próxima geração de VANTs será ainda mais reduzido (GILLI; GILLI, 2013).
Não se pode perder de vista, igualmente, a importância do GPS para o controle de VANTs que voam além do horizonte de visão da base terrestre. Esse sistema de posicionamento foi desenvolvido e é controlado exclusivamente pelo Departamento de Defesa dos Estados Unidos, que pode, a qualquer momento, impor restrições a seu uso. Com efeito, até o ano 2000 ele impunha uma "disponibilidade seletiva" ao GPS, determinando que aparelhos de uso civil ou de outras forças armadas não operassem com precisão em escala inferior a 90 metros. Nada garante que o serviço continue a funcionar durante eventual guerra, de modo que a falta de controle sobre o sistema de localização representa grande vulnerabilidade àqueles países que se utilizam do GPS para operar seus VANTs – que,
atualmente, constituem a virtual totalidade dos casos. Apenas a Rússia possui um sistema de posicionalmente satelital com abrangência global distinto – o GLONASS, que apresenta grau de precisão semelhante ao GPS, mas confiabilidade muito inferior, de forma que ainda requer aperfeiçoamentos. A União Europeia e a China também estão desenvolvendo sistemas próprios – o Galileo e o Beidou, respectivamente –, porém eles não deverão entrar em operação antes de 2020.
3.1.2.2 Custo de oportunidade
VANTs, apesar de amiúde apresentarem custos menores em relação aos caças tripulados mais modernos, podem ser muito caros. Em contexto de restrições orçamentárias, muitas forças armadas terão dificuldade em desenvolver e em adquirir esses sistemas. Além disso, VANTs ainda são alvos fáceis para artilharias antiaéreas e caças de combate, de modo que eles são mais atraentes àqueles países que podem impor superioridade aérea, sendo de uso limitado para aqueles que não podem protegê-los durante as missões. Embora já existam VANTs com qualidade stealth, como o X-47B, essa tecnologia é tão sofisticada que poucos países terão capacidade de desenvolvê-la – atualmente, apenas os Estados Unidos detêm VANTs operacionais com essa capacidade. Dessa forma, a tecnologia de VANTs deverá difundir-se, pelo menos em um primeiro momento, naqueles Estados com preocupações de segurança que podem ser melhor atendidas pelas capacidades desses sistemas.
3.1.2.3 Alianças externas
A realização de operações com VANTs em países não fronteiriços, como fazem os Estados Unidos, requer aliança militar com terceiros Estados, seja para garantir direitos de sobrevoo, seja para instalar bases militares para pouso e decolagem. Por exemplo, para realizar ataques na Somália e no Iêmen, os Estados Unidos podem precisar cruzar o espaço aéreo do Djibuti, da Etiópia, da Arábia Saudita e de Seicheles, com os quais estabeleceram acordos na área de segurança (KREPS, ZENKO, 2014c; GILLI; GILLI, 2013). Poucos países possuem recursos e influência para criar uma rede de alianças tão vasta. Por essa razão, potências médias detentoras de sistemas aéreos não tripulados tenderão a empregá-los precipuamente em seu entorno regional. De todo modo, as preocupações de segurança dessa categoria de países dificilmente transcendem os limites regionais.
A tecnologia para decolagem e controle de VANTs com base em navios-aeródromos está em fase de testes, mas deverá ser disponibilizada ainda nesta década. A possibilidade de lançar VANTs a partir desses navios diminuirá, em muitos casos, a necessidade de acordos para sobrevoo e para a instalação de infraestruturas terrestres, mas não a eliminará. A quantidade de países que pode suportar os altos custos para adquirir e manter um navio- aeródromo, todavia, deverá continuar reduzida – atualmente, apenas 9 países possuem esses equipamentos em operação.
3.1.2.4 Restrições da legislação interna ao desenvolvimento e uso de VANTs armados
Em 25 de fevereiro de 2014, o Parlamento Europeu votou projeto de resolução que expressa séria preocupação com o uso VANTs armados, opõe-se à prática de assassinatos seletivos extrajudiciais, e bane o desenvolvimento, produção e uso de armamentos completamente autônomos. A resolução 2014/2567 foi aprovada por 534 votos a 49, o que evidencia rechaço social e político de países europeus com relação ao uso de VANTs armados em conflitos – em contraste com os Estados Unidos, onde 75% da população aprovam o emprego de VANTs pelas forças armadas (ZENKO, 2013). O contexto europeu sociopolítico tem-se mostrado desfavorável à implementação de projetos de desenvolvimento de VANTs, bem como à aquisição desses sistemas, o que talvez explique o relativo atraso dos países europeus e os escassos recursos alocados na área, apesar de possuírem avançada capacidade tecnológica.