As crianças “de rua” em Luanda residem durante uma grande parte do tempo nas ruas, isto é, as ruas duma cidade que faz parte do contexto onde as crianças criam as suas culturas infantis. Por isso, queria colocar o foco no que a rua faz em relação às culturas das crianças.
Hoje em dia, a rua contemporânea tornou-se na sociedade um não-lugar: passou a ser espaço por onde a sociedade passa e não frequenta mais, onde impera a violência e a intolerância impedindo o homem de ser feliz e ter prazer (Pires, 2006). Isto, em conjunto com uma modernidade em que todos temos que ser felizes, a rua é um lugar para passar e não para ficar. Aqueles que permanecem nas ruas como as crianças nesta investigação são as desviantes da sociedade. Mas, podemos interrogar-nos se a rua em si mesmo é um lugar tão mau como esta sociedade nos provoca. Quando estudamos as vidas das crianças vimos certamente os aspectos “maus” da rua, como a droga, o roubo e a violência mas, quando analisamos mais profundamente as culturas das crianças podemos constatar que a rua também traz muito desenvolvimento para as suas culturas e para elas próprias. Então, a rua tem que ter certas características boas que ajudam a desenvolver as crianças e as suas culturas. Estas características são encontradas na expressão sobre a rua:
“Ela expressa, pela sua natureza e diversidade, a pluralidade de aparências, de encontros, de trocas, de lazeres, de brincadeiras, de ludicidade, de congraçamentos, de expressões, de emoções, brincadeiras, conversas, paqueras, discussões e de prazeres. É justamente em função dessas características que nós devemos (re)ocupá-la como campo da produção de uma cidadania activa (Pires, 2006, p. 69)
Quando comparamos os elementos que encontramos nas culturas infantis, (o imaginário infantil, a interactividade, a ludicidade e a reiteração) com os elementos que são naturais da rua podemos entender o facto porque é que a rua é um lugar tão importante para a criança de rua, mas nem só para a criança “de rua” na medida em que é para qualquer criança um lugar onde há todos os “ingredientes” para as suas culturas infantis.
É lógico que as crianças gostam de ficar nas ruas, elas têm acesso a tudo o que precisam, estão inseridas nos “ingredientes” da própria cultura e, é claro, que na rua elas fazem com estes ingredientes novas culturas de pares (amizades), novos jogos, brincadeiras e recebem novas experiências que inserem logo nas suas expressões culturais. As crianças usam, portanto, as ruas na sua grande variedade e maneiras (Glauser, 1997), elas sabem usar melhor a rua do que qualquer actor “normal”, o que
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pode ser visto como uma capacidade delas. Embora isto, como Pires refere sobre as características da rua, seja o campo da produção de uma cidadania activa, para as crianças, isto é um facto essencial. Como elas estão muitas vezes excluídas da sociedade, na rua, elas conseguem participar em vários aspectos, no trabalho, nas conversas, nas brincadeiras, nas danças e em tudo o que a rua oferece, constituindo momentos em que parece que estão incluídas. Isto não significa que na rua não existam sinais contra elas que indicam a sua exclusão mas, na rua, pelo menos podem participar. O facto de as crianças poderem “participar” nas ruas tem a ver com a lei da igualdade que marca as ruas, pois todos são tratados da mesma maneira já que é um lugar público (Pires, 2006).
Em Luanda, um aspecto visível e audível nas ruas é o calão, a língua da rua que também está desenvolvida nas ruas e implica um papel fundamental na cultura da infância “de rua” porque é esta língua que elas usam nas suas expressões. Podemos sugerir que quanto mais perto um actor está da rua tanto mais ele usa o próprio calão, ou seja: quanto mais um actor social usa a rua de várias maneiras, como as crianças deste estudo fazem, tanto mais usa o calão e também o (re)cria. O calão pertence aos mesmos actores sociais que têm as ruas como escola e a oralidade como forma padronizada (Ribeiro, 2008). Assim, as crianças, com as suas culturas infantis de oralidade e as situações em que várias vezes não conseguem frequentar uma escola formal, tornam-se totalmente nestes actores que dominam o calão. Na cultura da criança “de rua” encontramos o calão no quotidiano mas sublinhe-se que o calão tem um papel mais profundo no estilo de música que se chama Kuduro. O Kuduro é expressado pelas crianças nas suas danças mas também nas canções, em que elas escrevem os próprios textos deste estilo de música em que o calão é a base.
O último aspecto que quero abordar nas influências da cidade na cultura da criança é o papel da capacidade da imaginação infantil. Temos que reparar que “viver” nas ruas em Luanda implica enfrentar todos os aspectos da cidade, o lado bom da natureza da rua, como fazer amigos, participar em jogos, criar novas danças, encontrar comida, novas roupas, divertimento e trabalho (que gera o poder económico) mas também o lado “mau” da rua como: a droga, a agressividade, o alcoolismo, a sedução do consumo e a exploração pelos outros actores. Para lidar com estas experiências as crianças precisam das suas culturas infantis, com a imaginação e o poder de transmitir as experiências através das expressões culturais, como jogos, danças e textos. Elas conseguem processar tudo o que a cidade lhes traz de bom e de mau e, além disso, conseguem dar as suas
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opiniões sobre estas experiências e, de forma mais abrangente, sobre a sociedade. Porque normalmente não podem dar as suas opiniões ou não são ouvidas, através das suas expressões criadas com asua imaginação, conseguem mostrar a sua voz. O papel da imaginação da criança é fundamental para transmitir estas experiências por via das suas expressões culturais. É o elo entre a experiência real e o mundo em que as experiências podem ser transformadas. Refiro no sentido da definição de Matos (2005) no texto de Teixeira (2006):
“O termo imaginação designa grosseiramente a faculdade pela qual o homem é capaz de reproduzir - em si mesmo ou projectando fora de si - as imagens armazenadas em sua memória (imaginação dita “reprodutora”), e de criar as imagens novas que se materializam ou não) nas palavras, nos textos, nos gestos, nos objectos, nas obras, etc.” (Jean, 1991, apud Matos, 2005, p. 25)