7.4 Carbon Fiber Reinforcement in Abaqus
7.4.2 Modeling of CFRP in Solid model
Antes que se possa negar sumariamente a existência de um sistema que estruture esta narrativa, o que existe, enquanto estética da ressalva, é a dúvida como sistema. Partindo do preceito cartesiano da desconfiança reflexiva como reasserção do sujeito, o protagonista beckettiano colocará à prova também a noção de indivíduo. O cogito cartesiano9 pode ser entendido como o próprio pensamento; é o duvidar da representação; é uma avaliação crítica. Assim, o herói beckettiano, entre a cruz e a espada (melhor dizendo, entre a representação e a realidade), insurgirá com seu espírito analítico interiorizado enquanto um elemento do caos: ele é a desrazão lógica e, para negar a razão, ele a utiliza, dobra-a e faz a razão ajoelhar-se diante do nada.
Levantaremos algumas questões no sentido de tentar compreender a dinâmica narrativa de Molloy. Qual é a baliza filosófica da obra de Samuel Beckett? Como sua linguagem se organiza filosoficamente? Como se deu a crise dessa organização? Qual é a pergunta proposta pelo narrador? Na impessoalidade da voz narrativa o herói beckettiano irá falar sobre o que não se pode, não se consegue, exprimir, falar, e responderá a nossa pergunta, replicando “Agora onde? Agora quando? Agora quem?”. O método beckettiano consiste na impossibilidade de encontrar o próprio método e de encontrar a si mesmo. A narrativa parte da problematização da consciência. Para que surja o método é necessária a solidão, onde surgirão as ideias. E estas serão postas em ação junto a experiências sem regras com o mundo. Para Descartes, a dúvida é redentora, a dúvida é uma chance, e o ser consistirá na certeza de não ser, na dúvida. Molloy parte da solidão cartesiana e realiza a tragédia do cogito no corpo alquebrado da linguagem. Todo seu discurso advém da perda e da perda de
9 Em suas Meditações metafísicas, Descartes apresenta os argumentos que fundamentam sua própria existência: “Suponho, portanto, que todas as coisas que vejo são falsas; persuado–me de que jamais existiu de tudo quanto minha memória referta de mentiras me representa; penso não possuir nenhum sentido; creio que o corpo, a figura, a extensão, o movimento e o lugar são apenas fições do meu espírito. O que poderá, pois, ser considerado verdadeiro? Talvez nenhuma outra coisa a não ser que nada há no mundo de certo [...] Mas há algum, não sei qual, enganador mui poderoso e mui ardiloso que emprega toda a sua indústria em enganar-me sempre. Não há, pois, dúvida alguma de que sou, se ele me engana; e, por mais que me engane, não poderá jamais fazer com que eu nada seja, enquanto eu pensar ser alguma coisa. De sorte que, após ter pensado bastante nisto e ter examinado cuidadosamente todas as coisas, cumpre enfim concluir e ter por constante que esta proposição, eu sou, eu existo, é necessariamente verdadeira todas as vezes que a anuncio ou que a concebo em meu espírito” (DESCARTES, 2005, p. 42-43).
memória. A desconfiança cartesiana do cogito é salutar, na medida em que toma uma afirmação e parte da constatação de seu contrário. Assim, é possível compreender a filosofia e seus filósofos através dos objetos de investigação, sobretudo através do “combate” de seus contrários. Numa irresolução instigante, o personagem-narrador de Beckett é cartesiano e é o seu contrário, pois ele utilizará a potência absurda do mínimo antes que este beire a extinção, como a incapacidade de transmitir experiências, fazendo da pobreza de comunicação a sua força.
A relação do narrador com o outro é bastante peculiar. Este representa o perigo da perda da autonomia do eu. Além de evidenciar sua fraqueza, o narrador é incapaz de possuir o outro, suas histórias, além de não conseguir se certificar de suas experiências. A perda de sua autonomia é materializada no outro como uma espécie de contrapartida à espiral narrativa que se dá no enredo e, “à posse de uma voz própria, apenas se desdobra em outros. Impinge ao outro o fracasso que lhe pertence” (SOUZA, 2006, p. 110).
É como se a escrita de Beckett forçasse o vômito existencialista do sujeito narrador e fingisse ignorar a urgência escatológica de o que fazer? Como fazer? O que são o tempo e o espaço? O que é a realidade? Quem sou eu? Questões que vêm ora rugidas, ora murmuradas, camufladas por entre experimentações linguísticas na frouxidão de um talvez. Tais perguntas tiveram como berço Murphy (1938), primeiro romance de Beckett, cuja agudeza ressoará por narradores e personagens até o fim de sua carreira. A singularidade dos personagens beckettianos está no fato de que eles estão determinados a dar uma resposta para o questionamento que eles mesmos levantaram, não nos termos de um misticismo facilitador do tipo “pegar-ou-largar”, mas nos termos de um coerente racionalismo no qual, falando estreitamente, nega a eles o direito até mesmo de formularem tais questões, cuja validade enquanto método é irrevogavelmente aniquilada na própria busca pelas respostas.
Ao negar a realidade, Beckett coloca-se, e a sua literatura, numa dimensão mais alta e universalizadora, pois há nela a penetração de um problema essencial do homem. A literatura, enquanto arte, desvela um cuidado sobre o próprio texto, mas, antes de fechar-se em si mesma, ela se coloca enquanto uma resposta a um apelo feito pelas inquietudes humanas. O escritor será o porta-voz deste apelo que inquire quanto à significação da própria existência humana. A obra literária atinge sua dimensão universal e espiritual quando é capaz de evocar com criatividade artística, seja movida por um impulso afirmativo ou negativo, este apelo murmurado pelas vozes da humanidade:
Há nela [na obra] uma densidade metafísica – e a chamamos metafísica porque envolve a significação mesma da existência humana, o sentido mais profundo de nosso destino. A direção de toda obra humana, finita e perecível, como o homem, só pode ser o humano. No humano residem os interesses primordiais da obra literária. E a plena altura do humano só é atingida no sangue de seus problemas de ser finito num mundo (MACIEL, 1959, p. 108).
A obra literária tem seu exterior desenhado pelas camadas de ordem social, econômica e psicológica. Uma obra que reduza seus conflitos a essas partes é igualmente exterior: superficial. O que importa nela são suas revelações sobre a condição humana, e esse é o retrato que temos em Molloy.