4.1 A NALYTIC F RAMEWORKS
4.1.3 External analysis
Não somos indivíduos ―terminados‖ ou herméticos. Nossos gostos, preferências,
valores, nossa comunicação, nossa cultura de forma geral, está em constante hibridação, como já dissemos. Tanto mudamos o meio, como sofremos influência dele, numa constante sem fim.
Vivemos numa realidade completamente diversa a todos os momentos de outrora, pois as tecnologias da informação firmaram-se como essenciais e tornaram progressivamente mais complexa a forma pela qual nos comunicamos, e nos identificamos com os diferentes espaços atribuindo-lhes valores que concordam com a cultura.
A atual conjuntura tecnológica direciona o sujeito a moldar-se à nova realidade, sob pena de não ser totalmente participante dela. Mas como tudo isso aconteceu? De antemão, é interessante ressaltar que o desenvolvimento progressivo das técnicas e a consequente introdução da velocidade na vida humana são as principais causas e fatores que contribuíram com isso. Em poucas palavras resumiríamos que existe estreita relação entre velocidade, tecnologia e cibercultura.
Iniciando pela técnica, temos que: ―toda relação do homem com a natureza é
portadora de técnica que se foram enriquecendo, diversificando e avolumando ao longo do
tempo‖. (SANTOS, 2008, p.62). A técnica sempre esteve presente no mundo humanizado, de
modo que ao mesmo tempo em que ele é humano, é também técnico, permanentemente em evolução.
Santos (2006) define a técnica como o conjunto de meios instrumentais e sociais que permitem o homem realizar sua vida, produzi-la, e ao mesmo tempo criar o espaço. A
partir dessa definição, o autor afirma que a técnica é ao mesmo tempo histórica (temporal) e geográfica (espacial).
Ou seja, ela revela temporalmente a criação e o uso dos instrumentos técnicos, levando em consideração uma idade científica em que ela foi pensada e concebida nos laboratórios, e uma idade histórica, ou o momento em que são incorporadas na vida social. As técnicas, nessa conjuntura, nos possibilitam empiricizar o tempo.
No que se refere à dimensão geográfica, conforme Santos8, pelas técnicas é possível qualificarmos a materialidade sobre a qual as sociedades humanas atuam produzindo o espaço. Nessa situação, a partir da técnica, o autor propõe uma periodização do meio geográfico em três: o Meio Natural, o Meio Técnico, e o Meio Técnico Científico Informacional.
No meio natural, temporalmente delimitado por Santos (2006) como o momento anterior às Revoluções Industriais, a natureza ainda comandava os processos social, e era a sociedade local quem criava as técnicas.
No meio técnico, por outro lado, o espaço encontra-se mecanizado, e sua efetivação é temporalmente delimitada entre as Revoluções Industriais. O domínio da natureza, por outro lado, é efetivado pelas relações sociais e a técnica representa a independência do homem em relação à natureza.
Por fim, conforme o autor, o meio Técnico Científico Informacional diz respeito à nossa conjuntura atual, tendo início com o término da Segunda Guerra Mundial. De modo geral, nessa conjuntura, técnica e ciência imbricaram-se num contexto cada vez mais veloz e difuso, determinando um novo modelo de sociedade, baseada, sobretudo, na interatividade.
Trivinho (2007), em contrapartida, mais preocupado em erigir as bases pelas quais a velocidade técnica e tecnológica9 tornaram-se partes integrantes da vida humana também
8
(Idem)
9
É interessante ressaltar a diferença entre técnica e tecnologia: Tomamos como referência para essa diferenciação a tese de doutoramento de Eládio Constantino CRAIA (2003), que de modo diretivo afirma que as técnicas se referem às formas mais arcaicas e/ou artesanais, enquanto que as tecnologias são formas de tecnização aperfeiçoadas pelas ciências surgidas na modernidade. Ou seja, ao serem ―acolhidas‖ pela ciência, as técnicas transformaram-se em tecnologias, elas são produtos da junção entre conhecimentos científicos e processos técnicos.
expõe essa periodização dada por Milton Santos, mas de maneira diferenciada. Por base em seus escritos é possível que entendamos a progressiva hibridização das culturas com a tecnologia.
Para tanto, ele fundamenta a primeira parte de sua obra em duas coordenadas: a primeira, mostrando como a velocidade numa constante evolução superou a superfície geográfica, e a segunda que ressalta os princípios e os procedimentos operacionais que agiram conjuntamente na esfera da produção e do tempo livre e que progressivamente complexizando consolidaram-se na vida dos sujeitos.
O ponto de partida para a superação da superfície geográfica, para o autor, primordialmente surge com o desenvolvimento dos veículos de descolamento e transportes, sendo o nomadismo tribal a primeira referência para isso.
Os sujeitos passaram a deslocar objetos e valores materiais e simbólicos no território, sendo precedido por vetores de locomoção cada vez mais eficazes, como os de navegação, os veículos terrestres e o surgimento dos meios de transporte aéreos. Ratificando isso, o autor afirma que:
(...) ao longo do processo histórico, sucedem-se, por sobreposição cumulativa e valorativa (isto e, sem dispersão e/ou eliminação do que resta preterido em importância) os vetores de processamento fenomenológico da velocidade. (...) a alta lentidão do desempenho motriz corporal, sobremaneira agrilhoado ao solo, o futuro democrático acenaria, com uma dissolução fatal e irreversível, mediante a chegada de vetores cada vez mais eficazes. (TRIVINHO 2007, p.53).
Assim, após a dominância trans-histórica do mar, da terra e do ar, e para além deles, ocorre no final do século XIX a inserção na cultura dos veículos de comunicação em tempo real, e isso sinaliza uma condição de não retorno, e progressiva dependência social10 a esses meios comunicativos em tempo real e de vitória cinética sobre o território geográfico.
Desencadeia-se, assim, um novo momento na história da comunicação e das
10 A proliferação comercial dos eletrônicos e dos meios de comunicação é o marco do não retorno e da dependência social a esses meios de comunicação em tempo real. Como síntese, tivemos como ponto de partida o telégrafo elétrico e seguindo-o, uma cadeia de meios de comunicação que progressivamente foram evoluindo como o telefone, o rádio, a TV, e mais atuais e mais sofisticados os microcomputadores e as redes interativas (internet, web, intranets, próprias do tempo online).
relações sociais, no qual o deslocamento dos bens imateriais se dá em tempo real. Ele
complementa que: ―os vetores de produção e movimento convencional cedem espaço aos de
transmissão e circulação de produtos simbólicos – imagem e informação, representativas ou
não de referentes concretos‖11 .
Ou seja, assim como o desenvolvimento dos transportes diminuíram as distâncias geográficas, trouxeram mudanças de cunho espacial no deslocamento constante de pessoas e coisas – materiais e simbólicas - o meio de transporte comunicacional trouxe mudanças nas relações simbólicas e comportamentais no plano das relações sociais, havendo uma espécie de liquidação do tempo e tornando a comunicação ao passo dos anos, cada vez mais difusa e congruente.
A segunda coordenada na qual o autor apoia-se para identificar a inoculação da velocidade na vida do sujeito moderno/contemporâneo foi o conjunto de princípios e procedimentos científicos que, acrescidos aos vetores anteriores atuaram na esfera da produção e do tempo livre.
Trivinho (2007) resume a história da aceleração sociotecnológica no mundo ocidental da seguinte forma:
(...) remonta, a rigor, ao final do século XVIII, berço revolucionário da modernidade industrial cujo projeto de civilização centrado no ideal de progresso cientifico e capitaneado pelo iluminismo Frances e pelo liberalismo anglo- saxônico, levaria apenas cerca de duzentos anos para redesenhar inteiramente a Europa e o mundo, aprumando-se em configurações urbanas, hierarquias e relações sociais, organização simbólica e de valores, processos de vida cotidiana, e, assim por diante (...) todos absoluta ou relativamente distintos dos de outras fases do desenvolvimento do capitalismo. (p.60)
Um dos relevantes princípios, ou metanarrativa responsáveis em fundamentar o saber científico na modernidade foi o principio da racionalização e da tecnização. Por eles, cultivava-se, a premência do desenvolvimento tecnológico e da aceleração dos processos de produção para o progresso da sociedade. Assim, legitimando a velocidade como inerente ao homem moderno, a ciência e a vida emergiram na velocidade.
11 (TRIVINHO, Idem, p.56).
A esfera da produção foi o ponto inicial de todo processo e a racionalização e a tecnização consolidaram-se entre os séculos XIX e XX de maneira expressiva com os modelos de produção Taylorista e Fordista, nos quais em linhas gerais, este primava, sobretudo, o gerenciamento e controle dos processos e aquele, a otimização e controle de desempenho da produção.
Por esses modelos, a noção de produtividade foi transposta nas relações sociais, havendo de modo significativo, uma maximização racional e técnica dos resultados de produção em larga escala na menor fração de tempo e esforço possível. É a partir dessas mudanças nos processos produtivos, que, afirma Trivinho (2007), ―a velocidade passou a
fazer parte de maneira imanente na vida humana.‖ Assim,
Mediante tal processo de racionalização tecnoburocrática e cientifica, os fundamentos das metanarrativas iluministas e liberal viram-se assim plenamente concretizados (...) instalando-se, de maneira imanente, nas estruturas materiais e operacionais da produção, e a partir delas, no compasso das décadas posteriores – em bases sociotécnicas, mais complexizadas – nas relações sociais em geral12.
Nessa conjuntura, o advento da comunicação em tempo real foi o resultado da velocidade transposta da produção para a esfera humana do tempo livre e do lazer. E isso resultou em mudanças também nas bases da sociedade.
Isso resultou na existência de um novo modelo de civilização que progressivamente transformou e tornou dominantes as formas de interação, outrora baseadas somente em contextos presenciais, pois elas passam a abranger um contexto baseado na virtualização, ou no não presencial.
A comunicação eletrônica representa a inoculação do espírito de produtividade no espaço cultural e perceptivo doméstico. A partir disso, as tecnologias da informação passaram a fazer parte do cotidiano. Por cotidiano, compartilhamos da compreensão de Castells (2009, p.97) afirmando ser:
12
O campo de práticas recorrentes e rotineiras nas experiências dos indivíduos (...) incluindo, o trabalho, a sociabilidade, o consumo, a saúde, os serviços sociais, a segurança, o entretenimento, e a construção de sentido através das percepções do meio sociocultural.
Sendo parte do cotidiano, tornam-se, progressivamente necessárias e comuns à
vida. Das mais ―simples‖ às mais ―sofisticadas‖, elas passaram a causar dependência no
homem, sendo elementar para o incremento da sociabilidade e do desenvolvimento geral das atividades dos deles13.
As tecnologias, portanto, das mais ―simples‖ às mais ―sofisticadas‖ foram diluídas
nas relações, tornando-se parte indissociável da vida, dando origem a um novo modelo de civilização e novas e híbridas culturas resignificadas pela tecnologia, desenvolve-se o que muitas teorias passaram a denominar de cibercultura.
Pierre Levy (2011, p.17) conceitua a cibercultura como: ―(...) o conjunto de
técnicas (materiais e intelectuais), de práticas, de atitudes, de modos de pensamentos e de
valores que se desenvolvem juntamente com o crescimento do ciberespaço.‖. André Lemos
(2002), bebendo da mesma concepção, afirma que a cibercultura é a nova relação entre a vida social e a técnica. É a cultura contemporânea associada às tecnologias digitais.
Quando se fala em cibercultura, é comum o entendimento de que estamos nos referindo somente ao espaço virtual, ou ciberespaço. Entretanto, ela não se restringe ao espaço virtual, mas é a cultura fortemente transformada pelas tecnologias introduzidas na vida. A cibercultura é o cotidiano imerso e transformado pelas tecnologias, sobretudo, da informação. Para Levy1414 o ciberespaço é a rede.
O novo meio de comunicação que surgiu com a interconexão mundial de
computadores. O autor deixa claro que ―o termo especifica não apenas a infraestrutura
13 Como exemplo prático dessa dependência, Castell desenvolve um estudo direcionado exclusivamente ao uso do telemóvel – do celular - mostrando a evolução e a progressiva utilização e dependência desse aparelho no cotidiano dos sujeitos. Sobre a utilização do aparelho celular que, segundo ele: ―(...) tem vindo a integrar-se nas atividades quotidianas dos indivíduos por todo o mundo e , por sua praticidade e por ser elemento rotineiro diário ― (2009 p.98). Conforme o trabalho que o autor desenvolve, o telemóvel foi um dos primeiros passos tecnológicos que integrou a vida humana, e que o possibilitou ter uma espécie de telepresença, no qual, independente do local em que se encontre, ele pode ter o controle sobre sua família, seus negócios, e ainda utilizá-lo como forma de lazer, aproveitando os momentos vagos para se fazer ―presente‖ em diversos ambientes.‖
14
material da comunicação digital, mas também o universo oceânico de informações que ele
abriga, assim como os seres humanos que navegam e alimentam esse universo‖.
Ou seja, da Cibercultura podemos tirar algumas características fundamentais: como a abundância de informação, pelo compartilhamento de dados a partir das redes, a criação de novos gostos, novos gestos, novas linguagens, tudo entrelaçado e compartilhado pela comunicação eletrônica, sofrendo diariamente modificações e sendo parte do nosso cotidiano numa constante mutação veloz e sem fim.
Os resultados dessa nova conjuntura são sentidos em todas as esferas da vida contemporânea, atingindo inclusive as instituições, seja a família, seja a Escola. Ela traz a necessidade de questionarmos os padrões estabelecidos e concretizados nos espaços escolares, como exemplo. Assim, a atual conjuntura obriga os profissionais a repensarem suas práticas, e repensarem também os lugares educativos.
Alguns autores usam o termo ―impacto‖ ao se referirem às novas tecnologias da informação, entretanto, assim como Levy (2009), entendemos que na verdade não se trata de um impacto como se com isso estivéssemos afirmando que vivemos à beira de um caos total.
Na verdade, não é conveniente falar-se de impacto das novas tecnologias, pois a técnica sempre foi e continuará sendo humana. Cabendo, portanto, ao homem a sensibilidade de readaptação às épocas e aos tempos, de maneira que potencialize múltiplos desenvolvimentos dos sujeitos, a ponto de se recriar a realidade cotidianamente. Cabalmente concordando com o posicionamento do autor afirma-se que:
Nem a salvação nem a perdição residem na técnica. Sempre ambivalentes, as técnicas projetam no mundo material nossas emoções, intenções e projetos. Os instrumentos que construímos nos dão poderes, mas coletivamente responsáveis, a escolha está em nossas mãos. (p.17)
É importante demonstrar a evolução e o relacionamento do homem, em constante mutação, com os suportes que lhes são disponíveis, bem como esclarecer que a metamorfose ocorre em via de mão dupla, pois a velocidade da informação nasce a partir das necessidades humanas. Esses fatores serão abordados a seguir.