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3. Assessment

3.3. Exposure data

No peregrinar em defesa da vida, os projetos diários são feitos e refeitos. Não é permitido cair na tentação do bem e tampouco manter-se na banalidade do mal. Não se pode abandonar as vítimas. E tampouco vitimizá-las. É preciso ver com um olhar descentrado.

Guardemos o sonho inicial, alimentemos a mística da solidariedade e da comunhão, com os oprimidos e marginalizados, saibamos defender a iminente dignidade do ponto de vista das vítimas. É o ponto de vista da vida e das transformações necessárias (BOFF, L.

1992, p. 35).

Enquanto muitos se perdem na busca de soluções idealistas, quase uma panacéia, os membros do Vicariato, inspirados na prática cotidiana e na memória da Nenuca da OAF, buscam afinar mundo e pessoa para que não se perca a comunidade concreta, elemento essencial de garantia de direitos humanos específicos.

Afirma Arendt: “Não a perda de direitos específicos, mas a perda de uma comunidade disposta e capaz de garantir qualquer direito, esta tem sido a calamidade que tem afetado um número cada vez maior de pessoas” (ARENDT, 1951, p. 294).

Sem a viva e necessária comunhão, vivida como compaixão e solidariedade operante, inspirada em utopia realista29, os pobres retornam à

submissão. Perde-se o arranjo sinfônico. Mas a compaixão, vivida em comunidade de direitos, sem a prática libertadora, torna o participante da Pastoral de Rua pessoa estéril e burocratizada, como constatei em algumas associações e grupos cooptados por projetos e convênios estatais.

O nome concreto da compaixão vivida como revolta dos pobres é comunidade ou solidariedade. A compaixão revela-se como concreta utopia histórica, como descreve Pablo Richard:

A utopia orienta a história e a utopia pode ser adiantada e celebrada

em experiências parciais no interior de nossa história. A utopia não é uma ilusão, mas um projeto orientador da humanidade e do cosmo. Esse caráter histórico da utopia não está em contradição com o caráter escatológico e transcendental de toda utopia (RICHARD,

2006, p. 106-107).

No mesmo sentido de utopia o morador de Rua, Paulo César dos Santos ratifica:

A Comunidade dos Sofredores de Rua tem uma importância muito grande na minha vida, desde que cheguei a São Paulo, vindo do Rio de Janeiro. Eu, através da comunidade, não só saí da Rua, como

29 Utopia aqui entendida como ‘tentativas intelectuais de controle sobre situações de crise,

tentativas de superação de divisões penosas experimentadas por indivíduos quando a situação social lhes parece absurda, tentativas de reconstrução da comunidade humana que no momento somente é possível no sonho’ (SZACHI, 1972, p. 129).

lutei para ter um trabalho e uma casa. Hoje tenho uma família, um casal de filhos, Paula e Paulinho, que é muito importante para mim

(Pastoral do Povo da Rua, 2003, p. 67).

Camus se exprimia:

Essa louca generosidade é a da revolta, que oferta sem hesitação sua força de amor, e recusa peremptoriamente a injustiça. Sua honra é de não calcular nada, distribuir tudo na vida presente, e aos seus irmãos vivos. Desta forma, ela é pródiga para os homens vindouros. A verdadeira generosidade em relação ao futuro consiste em dar tudo no presente (CAMUS, 1996, p. 348).

Não se trata de retroceder a uma concepção estática do indivíduo como identidade anterior às relações sociais, mas visão que nos recorde a necessidade de garantir que as necessárias transformações do simbólico não implicam em sua destruição, como o afirma em suas obras, Julia Kristeva.

Na defesa da vida dos pobres, superam-se rivalidades secundárias diante de outros atores históricos, forjando redes e vibrando interiormente com a causa dos pequenos, especialmente das mulheres, dos negros e crianças. Redes de movimentos sociais articulados.

Ainda que de forma hipotética, pode-se sugerir que as redes de movimentos que vêm se formando no Brasil apresentam algumas características em comum: busca de articulação de atores e movimentos sociais e culturais; transnacionalidade; pluralismo organizacional e ideológico; atuação nos campos cultural e político

(SCHERER-WARREN, 1993, p. 119).

O ser humano pode surpreender:

Que quimera, portanto, é o homem? Que novidade, que monstro, que caos, que sujeito de contradição, que prodígio! Juiz diante de todas as coisas, imbecil verme da terra; depositário do verdadeiro, cloaca

de incertezas e de erros; glória e refugo do universo (PASCAL, 1976,

p. 173).

Contradição entre vida e morte. Contradições nas lutas contra a morte diária e na resistência teimosa e por vezes, solitária.

A síntese do pão e da poesia passa pela integração da imaginação com seu mundo material. É uma obra de arte, um poiein permanente, uma tarefa histórica (CLARKE, 1992, p. 94).

A sede de infinito vivida pelas pessoas que têm fé no povo de Rua é tesouro que nos permitirá o inclinar-se diante do transcendente:

Toda a lei da existência humana consiste em poder sempre se inclinar diante do infinitamente grande. Tire dos homens a grandeza infinita, e eles cessarão de viver e morrerão no desespero. O imenso, o infinito é tão necessário ao homem, quanto o pequeno planeta sobre o qual ele habita (DOSTOIEVSKY, 1886, p. 347).

E projetar sonhos dentro de dilema fecundo que impede de cair no imobilismo conformista:

Os homens sonham com ‘asas’, os homens sonharam com ‘raízes’, às vezes os mesmos homens tiveram os dois sonhos, embora em situações e períodos diversos de sua vida. Deixando-nos levar pelo primeiro desses sonhos, cremos que nada nos prende ao mundo existente, ou ainda melhor, que não há laços que não possamos, que não devamos ou que não precisemos romper, já que diante de nós se abre a vasta extensão do ideal. Escolhendo o segundo sonho, voltamo-nos para a terra de que nascemos, nela buscamos a fonte de força, de certeza, de segurança e – se preciso for - de esperança. Mesmo duvidando de que o mundo dado sirva de modelo, é justamente nele que nos esforçamos por encontrar o prenúncio do futuro melhor (SZACHI, 1972, p. xxxvi, prefácio do autor à edição