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A Escola Maria Joana pertence à Rede Municipal e localiza-se numa comunidade da zona rural. Trata-se de um lugarejo situado em área afastada do centro da cidade onde a principal atividade econômica é a agricultura. Em meio à escassez de alguns bens materiais, como transporte, telefone, internet e água tratada, a comunidade se caracteriza pela simplicidade e boa receptividade bastante comuns no ambiente do campo. Boa parte das pessoas tem residência própria e a maioria se conhece. O sistema educacional é bastante precário, pois na comunidade há apenas a Escola Maria Joana, que oferece turmas até o quinto ano do ensino fundamental. Para cursar séries posteriores, os adolescentes têm de se deslocar para o centro da cidade ou para alguma outra localidade onde haja as séries finais do ensino fundamental e o ensino médio.

Na Escola Maria Joana funciona apenas três turmas de educação infantil: duas pela manhã (Maternal e Jardim I) e uma à tarde (Jardim II). Além delas, funcionam ainda algumas turmas de ensino fundamental: primeiro e terceiro ano pela manha e o segundo, quarto e quinto anos à tarde.

A estrutura física da escola é bastante ampla. As salas são grandes, há uma quadra de esportes e o terreno da escola é ainda espaçoso. No entanto, esse espaço amplo ainda não atende adequadamente as necessidades e desejos das crianças pequenas. Nos dois banheiros

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A Diretora Andrea e o Professor Arnaldo narraram várias vezes em conversas informais históricos de crianças inseridas em contextos familiares com essas dificuldades.

para as crianças (masculino e feminino), por exemplo, as pias e os vasos sanitários são altos e inviabilizam o uso autônomo pelas crianças menores. Existe outro para os funcionários, junto à sala da secretaria. Existe ainda um laboratório de informática onde as crianças do ensino fundamental têm aulas de noções básicas de informática, com uma instrutora, e utilizam em alguns momentos para realizar pesquisas na web.

Essa escola conta com profissionais concursados e outros com contratos temporários, geralmente por indicação política e quatro vigilantes (dois diurnos e dois noturnos).

TABELA 4 – Profissionais da Escola Maria Joana

FUNÇÃO QUANTIDADE HOMEM MULHER

Diretora 01 - 01 Coordenadora Pedagógica 01 - 01 Docentes 07 03 04 Secretaria 01 - 01 Serviço de cozinha 02 - 02 Serviços gerais 02 - 02 Vigilância 04 04 -

Todos os docentes dessa escola possuem nível superior, a maioria é concursada da Rede Municipal e alguns têm contrato temporário. Há duas vagas de docentes na educação infantil ocupadas por duas professoras. No entanto, uma delas se encontra de licença prêmio e por essa razão o professor André está temporariamente substituindo a professora do Jardim I e Jardim II. A professora do Maternal é uma senhora com mais de vinte anos na docência, conseguiu recentemente a redução de sua carga horária e está a poucos anos de se aposentar.

O cotidiano da educação infantil nessa escola se caracteriza pelo momento da acolhida, quando fazem oração, cantam algumas canções e conversam sobre o que será feito naquele dia; depois realizam alguma tarefa no livro didático. Às vezes, as atividades são intercaladas por alguma atividade de contação de histórias ou brincadeira voltada para o desenvolvimento da psicomotricidade. O professor André, do Jardim I e II, geralmente realiza alguma brincadeira através das quais pretende ensinar letras ou números, como por exemplo, boliche das letras ou números.

Finalmente, é possível elaborar uma síntese da educação infantil, tanto no CEI Mundo da Fantasia como na Escola Maria Joana, focalizando o ingresso e a trajetória de dois homens nessas instituições, que conformam elementos comuns e aspectos díspares

influenciadores das representações sociais dos sujeitos que compõem esse mosaico44 no qual se entrecruzam atitudes, sentimentos, concepções e valores em torno da presença masculina na educação das crianças pequenas.

Dois professores em duas realidades

Os dois professores investigados vivem e trabalham em contextos bastante distintos, como também o é seu ingresso na educação infantil. O professor Arnaldo reside num bairro urbano-periférico onde vive desde que nasceu. É também bastante conhecido na comunidade pelo seu envolvimento em movimentos políticos e religiosos. O Professor André mora numa comunidade da zona rural, na qual se localiza a Escola Maria Joana e onde vive desde pequeno, quando veio de outra cidade, com a sua família. Ali cresceu, estudou e foi, paulatinamente, tornando-se referência intelectual na comunidade. Assim, o modo como cada um se relaciona com a sua comunidade escolar e desenvolve sua prática pedagógica carrega marcas e das suas histórias dos contextos distintos.

Na zona urbana, talvez pela numerosa população e pelo fato de as famílias estarem mais dispersas em um bairro de periferia onde há certo desordenamento imobiliário45, fica difícil uma relação mais próxima entre o professor Arnaldo e as famílias das crianças. Muitos o conhecem mais a partir dos comentários que ouvem, de outras escolas. O professor tem relação mais próxima com algumas famílias, por algum tipo de parentesco ou por já se conhecerem de longas datas. Um de seus alunos (Jarbas) do Jardim II, por exemplo, é seu afiliado46.

Na comunidade rural, no entanto, as aproximações entre as pessoas são mais fortes. O professor André é conhecido praticamente por todos. Alguns, inclusive já foram seus alunos na Educação de Jovens e Adultos (EJA). Há uma relação de bastante empatia entre o professor, a comunidade escolar e as famílias das crianças. A simplicidade do lugar, que possui apenas uma escola e uma pequena praça sem grandes ornamentos, converge para a

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A utilização do termo mosaico refere-se de forma metafórica ao contexto de educação infantil, especialmente nas duas instituições investigadas. É um termo apropriado para indicar que as representações sociais que circulam e são produzidas não são totalmente heterogêneas nem homogêneas. Pelo contrário são atravessadas por similaridades e heterogeneidades semelhantemente mesmo a um mosaico.

45 Pude constatar esse fato ao caminhar por diversas ruas do bairro a procura das famílias das crianças para a

realização de entrevistas e solicitar autorização para entrevistar as crianças. Ao caminhar pelo bairro depara-se com inúmeras ruas, becos que ainda não são registradas e vários terrenos cuja ocupação está se dando sem uma ordenamento contribuindo para a formação de áreas de vulnerabilidade social.

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O Professor Arnaldo professa a religião católica e é padrinho de Jarbas, uma criança do Jardim II, cujo pai morreu quando ele ainda era bebê.

postura receptiva e hospitaleira da população, cujo acesso aos conhecimentos historicamente acumulados pela humanidade ainda se dá de forma tímida e lenta.

Essas duas instituições onde trabalham os professores Arnaldo e André constituem o lócus da pesquisa, cuja questão principal diz respeito a como se dá o ingresso e a trajetória de um homem como professor numa instituição de educação infantil. Ali circulam e são produzidas representações sociais que podem contribuir para elucidar o problema proposto. Ali foram realizados procedimentos de observação e escuta dos sujeitos que têm condições de fornecer pistas para a compreensão do ingresso e da trajetória dos dois professores.

CAPÍTULO 5

INGRESSO E TRAJETÓRIA DE HOMENS PROFESSORES EM DUAS INSTITUIÇÕES DE EDUCAÇÃO INFANTIL: REPRESENTAÇÕES SOCIAIS DA

COMUNIDADE ESCOLAR

O objetivo deste capítulo é discutir as percepções dos professores Arnaldo e André a cerca de sua trajetória nas instituições em que cada um trabalha, bem como as percepções, atitudes, crenças, valores etc. (as representações sociais) da comunidade escolar em torno do ingresso e da trajetória desses professores. O capítulo será dividido em duas seções. Na primeira será discutido o ingresso e a trajetória do professor Arnaldo no CEI Mundo da Fantasia. Na segunda seção a discussão será sobre o ingresso e a trajetória do professor André na Escola Maria Joana.