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3 Introduksjon til markedet

3.6 Exploration & Production

x Alunos: Diante do que foi analisado em sala de aula (aproximadamente 40 alunos), notou-se um desinteresse destes adolescentes pelo universo escolar. A educação atingiu um nível que não se sustenta – não mais gera estímulo para o estudo. É fato que todos anseiam por um bom emprego. Contudo, estes jovens sabem que há um árduo caminho pela frente, cujo êxito não será obtido unicamente com um diploma do Ensino Médio. Há outras etapas, sendo a faculdade a primeira delas. Mas estes adolescentes incorporam a crença de que não foram preparados para ingressar na universidade pública, e não possuem condições financeiras de cursarem uma universidade particular. Esta constatação remete à discussão realizada por Erving Goffman (2005), a qual demonstra que a sociedade cria “senso de lugar”, levando os indivíduos não apenas a aceitar a sua condição, como também afirmar: “isso não é

para mim”. Em uma linguagem de Bourdieu (1998) trata-se da eficácia máxima da violência simbólica. Dando continuidade aos dados alcançados no trabalho de campo, afirmamos que os adolescentes dão seguimento aos seus estudos sem convicção alguma de que a rotina escolar que os perseguem pela infância e adolescência trará algum êxito ao seu final. Diante deste fato, acabam se estendendo por uma escolaridade que acreditam não ter futuro perante sua vida – sobretudo no que se refere ao mercado de trabalho.

A indisciplina também é outra forte marca verificada em sala de aula. Não há uma relação de respeito do aluno com o professor, e as expressões de desdém aparecem através do passeio em sala durante a aula, ou do uso do celular com o intuito de ouvir músicas, acessar internet, ou enviar SMS (Short Message Service). Estas são algumas, das muitas expressões de indisciplinas verificadas em sala (serão demonstradas de formas mais pontuais em relatórios sobre as aulas).

Outro ponto a ser ressaltado é a respeito dos alunos desta sala que trabalham em período extra-aula – parcela da sala escolhida para a análise sistemática e aplicação de questionários. A partir da observação e diálogos, nota-se que, apesar de uma porcentagem bem pequena trabalhar por necessidade decorrente da situação financeira familiar, a maior parte destes jovens trabalha em função de possuírem dinheiro para consumir – consumo atrelado àquilo que vai além do que as necessidades básicas exigem. Fazem parte de uma lógica de mercado que os impulsionam ao abandono do tempo extraescolar que normalmente possuíam para a prática dos estudos, em troca de um emprego que proporcionará o consumo. Assim, partem em busca, precocemente, do mercado de trabalho para se inserirem no mercado de consumo. Com isso, o capital econômico se sobrepõe ao capital cultural, aparecendo como distinção entre o grupo de amigos.

x Professores: Nota-se o mesmo sentimento verificado nos alunos de certa tarefa

“vazia”. O docente entra em sala de aula, e em seu semblante podemos notar um

desânimo que se estende por quase toda a aula, e que tende a aumentar à medida que os alunos vão se mostrando cada vez mais indisciplinados. A indisciplina nem sempre tenta ser contida – é como se o professor tivesse “desistido” de tentar instalar o respeito em sala de aula, ou como se considerasse não mais valer a pena “brigar” para tentar manter a ordem e ensinar seus conteúdos de maneira tranquila.

Em alguns momentos até tenta resgatar seu papel naquele ambiente, proferindo um discurso repreensor com frases do tipo:

“Estudem, ou nunca se tornarão ‘alguém na vida’”; “Essa foi a educação que seus pais lhes deram”?;

“Eu não preciso aprender esse conteúdo, pois eu já sei. Então, o problema é seu caso não queira prestar atenção”.

E, por fim, sempre desistem: “Vou sentar e não vou explicar mais nada, já que vocês

insistem em continuar com tamanha indisciplina”.

Estas são algumas das mais expressivas reações dos professores em sala de aula perante os adolescentes, e que nos trazem a dimensão de certo descaso docente decorrente do desânimo perante toda a situação de desinteresse dos alunos. Ou então, sugere-se também que os professores adentram à sala de aula com o sentimento de que as práticas escolares não mais fazem sentido diante de um conturbado contexto atual marcado pela indisciplina, violência, desemprego, dentre tantas outras coisas decorrentes de um fragmentado contexto contemporâneo.

x Família: Na escola em questão, o que se percebe através dos diálogos com os alunos, professores e, por vezes, com a coordenação e direção é que há um desinteresse proveniente das famílias. Contudo, tal desinteresse se encontra não em função de um descaso, mas sim de uma falta de conhecimento dos pais no que se refere ao valor da educação. Assim, não significa que estes sejam displicentes com relação à trajetória escolar de seus filhos, mas sim que em sua classificação mental - aparato cognitivo em uma linguagem bourdiana - não se encontra a importância do conhecimento para a vida dos mesmos.

Para alguns pais, os filhos frequentam a escola por ser uma obrigação estatal; para outros, os filhos frequentam por considerarem ser a prática que os levará a uma melhor posição econômica e social. Mas pelo que se percebe, nenhum destes pais atribui importância ao conhecimento que o jovem irá adquirir em sala de aula, em função de um ideal humanizador e que trará condições propicias para a vida cidadã exercida em sociedade. Neste sentido, é improvável que para aqueles pais cujo valor simbólico daquilo que representa a educação não esteja pautado na importância do conhecimento dispensem tempo se preocupando com as dimensões necessárias da relação entre aluno e instituição escolar.

x Lazer: Fora da escola ou do trabalho os adolescentes consomem seu tempo, sobretudo, navegando na internet. O encontro com os amigos acontece, geralmente, aos sábados à noite. Nos demais dias, o tempo ocioso que seria dedicado ao lazer é direcionado a assistir televisão e, na maior parte do tempo, utilizar a internet.

Normalmente, não há passeios com a família ou reuniões familiares para conversar ou assistir a filmes. Assim, os jovens permanecem atrelados ao mundo da internet ou da televisão e, com isso, deixam de interagir com os laços familiares ou de amizades, fundamentais para a vida em sociedade (DURKHEIM, 1978).

x Mercado de trabalho: A ânsia pela aquisição de um bom emprego que vá trazer prestígio econômico e social é recorrente entre os alunos – mais do que a aspiração ao ingresso em uma universidade. Certa ocasião, em sala de aula, a professora realizou para cada um dos alunos a seguinte pergunta: “Qual o seu objetivo na vida”? E a

resposta foi unânime: “Conseguir um bom emprego e ter muito dinheiro”.

Assim, percebe-se que o alcance de um emprego está como ponto principal na pauta destes estudantes. Em contrapartida, a variável que aparece como principal meta destes alunos acaba sendo a mesma que gera preocupação sobre a percepção que os adolescentes desenvolvem de não mais ser a escola eficiente para o a alcance de emprego. Ou seja, aquilo que eles almejam é o mesmo que incomoda diante da possibilidade do desemprego – ou de um emprego com baixa remuneração – ao término do Ensino Médio. Com isso, a escola vai se tornando vazia, à medida que não cumpre com os objetivos sociais até então pronunciados pelos pais e professores. Aqui, mais uma vez, temos a violência simbólica; os dominados incorporam a dominação, tornando-se cúmplices de formas de manutenção da ordem social.

x Mercado de consumo: O mercado de consumo está estritamente relacionado ao mercado de trabalho. Em outras palavras, o consumo aparece enquanto a justificativa, mesmo que inconsciente, para a preocupação extremada em adquirir um emprego de prestígio. E o consumo aqui não aparece enquanto bens essenciais, mas sim como bens que podem ser considerados supérfluos, a exemplo da tecnologia que com uma velocidade impressionante se torna ultrapassada e instiga os jovens a adquirirem

sempre um “aparelho novo”, seja ele de celular, iphone, ipad, tablet, dentre outros. Roupas e calçados “de marca” também estão na lista dos objetos com a pretensão de

se remete ao outro dizendo: “Cara, agora que estou trabalhando, comprei um tênis ‘da hora’ e paguei R$ 400,00”. Ou então: “Veja só o meu celular novo, é muito moderno.

Custou caro, mas paguei parcelado. Agora que estou trabalhando posso comprar”. Assim, a variável mercado de consumo se configura como essencial para se entender o quão o consumo está atrelado ao contexto referente às salas de aulas. Negando estudos que afirmam que a classe baixa não consome, esta pesquisa sinaliza em outra direção. Não só consome, como têm a ânsia de consumir produtos também consumidos pela classe que se posiciona superior à sua na hierarquia social (BOURDIEU, 2007).

x Mídia: Seja no que se refere à internet ou à televisão, a mídia aparece como importante variável na relação entre aluno / escola. A internet, com suas redes sociais, dita os níveis de amizade dentro e fora da sala de aula. Já não mais se é amigo só em decorrência de situações presenciais. Os adolescentes, em sala de aula, comentam a todo o momento sobre o Facebook13 (rede social de amplo alcance), relatando situações deste site como se fizessem parte de momentos reais. Nota-se que até as conversas pessoais são guiadas por assuntos relacionados à rede. Assim, há uma mistura entre mundo virtual e mundo real, que impede os jovens de vivenciarem suas relações na escola de maneira completa, e com a possibilidade de assimilarem o sentimento de amizade e cooperação que o convívio escolar poderia proporcionar. Os alunos das classes populares demonstram estar completamente inseridos na contemporaneidade. Portanto, atentamos aqui sobre o destaque que as redes ganham em relação ao mundo real. A nosso ver, não se trata de uma variável de classe, mas geracional.

E os trabalhos e provas exigidos pelos professores também estão atrelados à internet. Isto porque a rede, sobretudo através da utilização do Google14 (site de buscas), se tornou o principal ponto de apoio para pesquisas dos estudantes. Os livros foram abandonados, e as bibliotecas praticamente nunca são frequentadas pelos adolescentes. Ao verificar, em diversas ocasiões, os textos entregues em decorrência do pedido de entrega de um trabalho pelo professor, por exemplo, o resultado é expressivo: cópias

13

Facebook é um site e serviço de rede social. Foi lançada em fevereiro de 2004, operado e de propriedade

privada da Facebook Inc. Em outubro de 2012, atingiu a marca de 1 bilhão de usuários ativos. Em média 316.455 pessoas se cadastram, por dia, no Facebook.

14

Google é uma empresa multinacional de serviços online e software dos Estados Unidos. O Google hospeda e desenvolve uma série de serviços e produtos baseados na internet e gera lucro principalmente através da publicidade pela Wikipédia.

fieis de textos da internet, sobretudo aqueles que se referem à Wikipedia15. Isso ocasiona uma espécie de redução da capacidade do aluno de escrever seus próprios textos, já que todo o conteúdo necessário é encontrado pronto na internet.

Quanto à televisão, esta influencia de maneira acentuada, sobretudo no que se refere ao consumo. Os aparelhos eletrônicos com mais funções, as roupas e tênis “da moda”

– muitas vezes ditados por personagens das novelas e filmes - dentre outros objetos de

consumo que são veiculados pela televisão como sendo essenciais e portadores de uma

espécie de “felicidade”.

Em síntese, tanto a internet como a televisão não transmitem o princípio de que aprender é importante. O importante, para a internet, é a exposição da vida pessoal, é o compartilhamento de falsos sentimentos, dentre outras coisas que, na maioria das vezes, nem precisam ser redigidos diante das normas gramaticais. Não há censura, não há limites. Sendo assim, por que na sala de aula haveria de ter? Para a televisão, o importante é acompanhar os programas e consumir. Não é preciso ter conhecimento para tais atitudes. Apenas tempo e dinheiro.