• No results found

6 Variables

6.2 Explanatory variables

Além deste caráter delicado das possibilidades de distorção do vivido, podemos citar quatro características da memória de longo prazo:

a) O sentido tem primazia sobre os atributos físicos — a memorização é facilitada pela repetição de conexões semânticas e não por repetições de atributos físicos;

b) Lembramos melhor do que viemos ou do que nos diz respeito (efeito de auto- referência);

c) A ordem hierárquica dos conhecimentos é uma facilitadora na codificação; d) A memória é sensível ao contexto – lembramos melhor quando codificamos de

forma semelhante à necessária na recuperação. e) O humor interfere na codificação

f) A desinformação deforma a recuperação: a interferência retroativa

Estas características são extremamente importantes em relação à construção de conhecimento.

4.3.2.4.1 A primazia do sentido: compreendo, logo existo

A ampliação da codificação pela multiplicação de conexões semânticas pode ser aplicada à busca de informação, explorando informações quando se inicia a compreender um

tema novo para poder encontrar material útil à pesquisa, fazemos o que alguns pesquisados chamaram de mapeamento do tema, outros, como Kuhlthau (2010) conhecimento da estrutura hierárquica do conhecimento. Pelo contato e geração de conexões a ideia do tema se esclarece e se firma. Também pode ser aplicado à leitura em relação a temas em que se faz o primeiro contato e temas em que já se tem certa profundidade facilitando a compreensão at av sàdoàe i ue i e toàdoàsig ifi adoà oàha adoàdi logoào àoàauto .à

Acontece ainda na escrita, enquanto oportunidade de estruturação da ideia. Como já propunha Vygotsky (1984) a fala é um instrumento do pensamento, ela não só o expressa, mas reapresenta e reelabora, é um instrumento da organização das funções psicológicas superiores, sendo a fala um instrumento de solução de problemas. Obviamente, a escrita é u àtipoàdeàfala,àaàfalaàes itaàe àu à dialeto à ie tífi o,à oà asoàdesteàestudo.àáoàes eve ,à revemos e revisamos não só a expressão da ideia, mas a ideia em si.

Nos estudos sobre material verbal se destaca o significado como o principal veículo da memória. Os níveis profundos de processamento incentivam a lembrança por causa de dois fatores: a inconfundibilidade e a elaboração.

A inconfundibilidade [...]à efe e-se ao modo como o estímulo difere de todos os outros traços de memória. [...] àMATLIN, 2004, p. 76). A Teoria da Aprendizagem significativa vai denominar este processo de diferenciação.

Se, por um lado, a inconfundibilidade se ocupa com os detalhes, a elaboração se ocupa da síntese das características e das semelhanças. A elaboração

[...] exige um processamento em termos de significado [...] [este tipo de processamento] é útil ao aprimoramento da memória quando queremos realçar semelhanças e relações entre os itens. Em outras palavras, a elaboração ajuda-nos a sintetizar informações. (MATLIN, 2004, p. 76

Quanto nos dedicamos a um tema, mais fortalecemos a rede neural que o sustenta e fortalecemos a retenção e a recuperação dele.

Há uma exceção à eficácia do processamento profundo em relação ao superficial, que é lamentável:

De fato, o processamento superficial pode algumas vezes ser mais eficaz do que o processamento profundo quando a tarefa de recuperação enfatizar as informações superficiais. [...] o processamento semântico profundo pode não ser o ideal, a menos que as condições de recuperação também enfatizem esses aspectos mais profundos e significativos. (MATLIN, 2004, p. 82)

Ou seja, se a escola testa a memorização de conteúdo, o estudante que aprende o significado terá menos vantagens no desempenho escolar do que o que utiliza o processamento superficial.

4.3.2.4.2 O melhor lugar da memória é onde estou: o efeito de auto-referência

Outra característica da memória semântica é o fato de lembramos mais daquilo que está relacionado a nós. Este aspecto é denominado efeito de auto-referência. Este efeito é o auxiliador mais bem sucedido no aumento da profundidade do processamento e da retenção. A explicação de MATLIN (2004, p. 78), é a seguinte:

[...] o eu (self) é tratado como um conjunto especialmente rico de pistas internas com as quais a informação pode ser associada. Podemos criar com facilidade pistas associadas ao eu e podemos facilmente ligar estas pistas com a nova informação durante a etapa de codificação.

Quando referenciamos uma informação a nós mesmos, a maioria das pistas desta relação está disponível imediatamente em nossa vivência. Imagine que lembrar de quanto pagou no quilo do feijão é bem mais próximo do que compreender a alta do preço por causa das chuvas no Sul e da seca no Nordeste... Além disso, a imagética mental está bem mais disponível em relação a fatos relacionados conosco. Em resumo, quando quisermos lembrar de um item devemos aplica-lo à nossa própria experiência, quando quisermos que alguém lembre de algo, vamos aplicá-lo à experiência dele. Podemos pensar nesse princípio ao presentear as pessoas, ao ministrar conteúdos, seja qual for o conteúdo.

4.3.2.4.3 A ordem domina o caos: a hierarquia do conhecimento

Outra questão importante acerca das características da memória semântica é que a codificação é apoiada quando os itens são armazenados em uma estrutura bem organizada, tanto em termos de quantidade, como de qualidade. Quando utilizamos sempre a inconfundibilidade e a elaboração, as relações hierárquicas já estão pré-processadas, nesse caso, adia ta do àoàt a alhoàog itivo de organização (MATLIN, 2004, p. 79).

4.3.2.4.4 A memória situada: entre o contexto e o lembrar

Chama-se situado ou situada um fenômeno que é sensível ao contexto. O princípio da espe ifi idadeàdaà odifi aç oàafi aà ueà [...]àaàle a çaà à elho àseàoà o textoàdaà

e upe aç oàfo àse elha teàaoà o textoàdaà odifi aç o àMATLIN, 2004, p. 80). Aquilo que procuramos apreender deve ser semelhante à forma como será realizada a evocação. Se alguém precisa elaborar textos no teste, deveria estudar elaborando textos; se a prova é oral, por apresentação de um trabalho, deveria preparar-se para este tipo de evocação e assim sucessivamente. Ao que parece, não conhecer o estilo de prova de um professor pode ser realmente prejudicial no desempenho nas avaliações.

4.3.2.4.5 O humor na codificação

O humor tem status de mais permanente ou contínuo do que a emoção. A memória, por sua vez, é dependente do humor: os itens agradáveis são muitas vezes mais bem evo adosàdoà ueàosàdesag ad veisàouàosà eut os,àe àespe ialàseàoài te valoàfo àlo go à (MATLIN, 2004, p. 83) e os conhecimentos agradáveis são evocados com maior exatidão do que os desagradáveis. Este princípio é denomiando de Princípio de Poliana. Mais uma vez, atua o princípio de que, de uma maneira geral, as informações positivas são processadas de maneira mais eficaz do que as negativas.

A raiva também é um desmotivador e uma distração bastante prejudicial à aquisição e retenção de conhecimento. MATLIN (2004, p. 83) relata um estudo a respeito do efeito sobre a memória de filmes violentos para comerciais, que os comerciais entre filmes violentos eram menos lembrados.

A raiva como elemento de prejuízo na compreensão de informações foi notada nos estudos da nossa dissertação (MELO, 2008) e se repetem agora, nos dados desta pesquisa, onde participantes relatam o bloqueio de compreensão na leitura em temas apresentados por professores com quem não se identificam e outros exemplos.

Oàhu o àta ài te fe eà oà o e toàdaàevo aç oà [...] uma pessoa que estivesse de bom humor deveria lembrar melhor do material agradável do que do desagradável, ao passo que uma que estivesse de mau humor deveria lembrar melhor o material desagradável. (MATLIN, 2004, p. 83). Este princípio se chama Princípio de Congruência do

Humor. Isso é extremamente importante no caso das pessoas deprimidas ou com autoestima baixa, que tendem a evocar material negativo.

4.3.2.4.6 Efeito da desinformação: a interferência retroativa

Por estranho que pareça, nós podemos mudar a visão sobre algo que presenciamos caso recebamos uma nova informação enganosa. Esta interferência no conhecimento armazenado é chamada de interferência retroativa. [...] as pessoas primeiro veem um evento, e depois recebem informações enganosas sobre ele; mais tarde, evocam erradamente asài fo aç esàe ga osasàe àvezàdoàeve toà ueàeal e teàvi a à[...] àMáTLIN,à ,àp.à )

Esta dificuldade aumenta quando as novas informações são logicamente possíveis. Por isso, uma testemunha ocular confiante pode não ser necessariamente uma testemunha ocular exata (acrescente-se o que já vimos a respeito no estudo da memória de trabalho) (MATLIN, 2004).

Nós frisamos aqui as possíveis distorções e limites de recuperação da Memória de longo prazo com o intuito de deixar claro o quanto de subjetividade aquilo que é recuperado da memória carrega, quer seja uma situação vivida diretamente ou não. Não há uma exatidão matemática naquilo que recuperamos da memória.

RELATERTE DOKUMENTER