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Como já mencionamos, todas as substâncias são boas, e a única coisa que poderia ser má seria o não-ser absoluto das substâncias ou sua inexistência, como a não existência não é uma substância, poderíamos chamar de mal a causa que conduz as substâncias à inexistência, e a causa que degrada as substâncias até conduzi-las ao não-ser é a corrupção86. Como esclarece Agostinho:

Por isso, antes de perguntar de onde provém o mal, há de se investigar qual é a sua natureza. Ora, o mal não é senão a corrupção ou do modo, ou da espécie, ou da ordem naturais. A natureza má é, portanto, a que está corrompida, porque a que não está corrompida é boa. Porém, ainda quando corrompida, a natureza, enquanto natureza, não deixa de ser boa, quando corrompida, é má (De nat. boni., 4).

Quer dizer, como todas as criaturas possuem os três atributos ontológicos: “modo, espécie e ordem”, são boas, e o mal consiste na degradação desses três atributos ontológicos, portanto, qualquer natureza por mais corrompida que esteja, na medida em que existe, ainda possui os três atributos, sendo, portanto, um bem. Ao se degradarem por completo tais atributos, a natureza passa a não existência, não sendo, portanto, possível a existência do mal só, como natureza, mas apenas unido a uma natureza, que enquanto portadora dos três atributos é naturalmente boa.

Ao defender essa tese, um argumento que Agostinho utiliza é o da dor, pois, até mesmo ela que todos consideram como um mal, só acomete o que existe, quer dizer, até a dor para existir só existe em uma matéria boa. A dor só pode incomodar ao que não está totalmente putrefato, pois, algo ao estar totalmente putrefato já não é passível de dor, mas, também já não existe, pois, passou ao não ser, como comenta nosso Pensador:

86 Acerca disso confirma Régis Jolivetμ “[έέέ] Agostinho havia descoberto em θlotino os princípios que ajudariam

a resolver o problema do mal. O mal não é uma substância mas uma simples negação, a negação de um bem maior. Não há de ser buscar para o mal, uma causa especial [...] já que o mal é, em nós, uma deficiência, um não ser, o problema se reduz a buscar a razão desse não ser” (1932, p. 149). Cf. SCIACCA, 1956, p. 14, 15; COSTA, 2002, p. 269, 270.

Igualmente, tratando-se do corpo, é melhor a ferida com dor que a putrefação sem dor, que propriamente se chama corrupção [...]. Mas também a mesma putrefação, que propriamente é chamada corrupção, se ainda lhe resta algo por consumir no interior, aumenta à medida que diminui o bem. Se este for de todo destruído, assim como não restará nenhum bem, assim tampouco restará natureza alguma, porque já não haverá nada que possa sofrer corrupção, razão por que já nem sequer haverá corrupção, dado faltar o ser em que se dar (De nat. boni., 20).

Portanto, a dor que as naturezas sofrem quando se corrompem é uma eloqüente declaração de que essa natureza existe, e se existe ela é um bem, pois, ainda existe algo nela que se possa corromper e diminuir. Santo Agostinho dando um exemplo prático encontrado na natureza da bondade ontológica das criaturas, utiliza o corpo do macaco. Pois, o corpo do macaco é caracterizado como feio, imperfeito, disforme e mal, quando comparado com o corpo humano, mas mesmo com a clara inferioridade do corpo do macaco com relação ao humano, é claro o fato de que é passível de corrupção, e se é passível de corrupção é porque possui algum bem, e se possui algum bem é porque tem os três atributos ontológicos, mesmo sendo eles ordenados hierarquicamente inferiores ao homem. Vejamos a perícope supra comentada:

[...] e para que os pertinazes que se obstinam em negar a evidência da verdade se vejam obrigados a confessá-la, perguntamos-lhe se a corrupção pode afetar o corpo do macaco. Se o pode, de modo que o faça mais disforme, que é o que nele diminui senão o bem da beleza? Mas ainda haverá alguma beleza, enquanto subsista a natureza corporal. Logo, como a natureza é destruída ao desaparecer o bem, força é concluir que a natureza é em si um bem (De nat. boni., 15).

Sendo assim, embora seja notória a privação de beleza e algumas perfeições quando comparamos o macaco e o homem, esta privação de bem do referido animal, na medida em que foi criado por Deus para manter o equilíbrio e a beleza do cosmos é na verdade um bem, pois, o que seria da luz sem as trevas, e da rapidez sem a lentidão. Quer dizer, existe espaço para cada coisa que possui ausência de algum bem nesse universo projetado e criado por Deus. Agostinho afirma que a beleza que é uma das várias formas que expressam o bem no cosmos, também é ontológica, como afirma Karel Svoboda (1958, p. 233)μ “ζa obra De natura boni (405), a propósito do bem, trata Agostinho algumas vezes do belo. Não distingue em termos precisos ambos os conceitos, porém, geralmente subordina o belo ao bom”έ δogo, qualquer criatura por mais despida de beleza que possa parecer aos olhos humanos, tem sua beleza própria, visto que a deteriorização pode torná-la ainda menos bela, e se isso é possível o que diminui nesse ente senão a sua beleza. É claro que a beleza não é a única expressão do bem no cosmos, pois, o próprio equilíbrio em que cada criatura causa a

natureza ao fazer o que lhe é próprio, também é um bem. Mas por outro lado, quando cada ente faz o que lhe é próprio também é belo, existindo assim íntima sintonia entre o bem e o belo no cosmos de Santo Agostinho.

Portanto, segundo o Hiponense não existe natureza má, mas o mal é conceituado por ele como corrupção do bem presente em alguma natureza, como assevera nas Confissões:

E se não fossem boas, nada haveria a corromper. A corrupção de fato é um mal, porém, não seria nociva se não diminuísse um bem real. Portanto, ou a corrupção não é um mal, o que é impossível, ou – e isto é certo – tudo aquilo que se corrompe sofre uma diminuição de bem. Mas privadas de todo bem, deixariam inteiramente de existir (Conf., VII, 12, 18)87.

Todavia, mesmo a corrupção que todos consideram como um mal no cosmos, não existe por si mesma, mas apenas em uma substância. Logo, a corrupção não é uma substância, mas apenas existe enquanto defecção das substâncias, e embora seja ela má, não é uma substância má, e está mantida a tese de que não existe o mal substancial no cosmos criado por Deus, conforme diz no Contra a Epístola que os Maniqueus chamam Fundamento88:

Contudo, é fácil ver que a corrupção não é nada, senão enquanto destrói o estado natural das coisas, e que, portanto, ela não é uma natureza, senão algo contra a natureza. Logo, não se encontra nas coisas outro mal que não a corrupção e a corrupção, não é uma natureza, ou nenhuma natureza é verdadeiramente o mal (Contra ep.Fund., 35).

Como vemos no fragmento supra, o Hiponense enfatiza a idéia de que a corrupção não possui consistência ontológica, contra o risco de entrar em contradição, pois, se ela fosse um ser, e Deus é a fonte de todos os seres, ele seria o criador de um ser mal. Mesmo assim, ao assumir a tese de que a corrupção seja um mal, o risco de contradição ainda não está plenamente extinto, visto que as criaturas da natureza são necessariamente corruptíveis por

87 Agostinho também trabalha essa temática no diálogo Sobre o Livre-Arbítrioμ “Toda natureza que pode tornar-

se menos boa, todavia, é boa. De fato, ou bem a corrupção não lhe é nociva, e nesse caso ela é corruptível; o bem, a corrupção atinge-a e então ela é corruptível. Vem a perder a sua perfeição e tornar-se menos boa. Caso a corrupção a privar totalmente de todo bem, o que dela restará não poderá mais se corromper, não tendo mais bem algum cuja corrupção a possa atingir e, assim, prejudicá-la. Por outro lado, aquilo que a corrupção não pode prejudicar também não pode se corromper, e assim esse ser será incorruptível [...]. Por isso se diz, com absoluta verdade, que toda natureza enquanto tal é boa. Mas se ela for incorruptível será melhor do que o corruptível. E se ela for corruptível – já que a corrupção não pode atingi-la senão tornando-a menos boa, ela é indubitavelmente boa. Ora, toda natureza ou é corruptível ou incorruptívelέ θortanto, toda natureza é boa” (De lib. arb., III, 13, 36b.). Ou seja, toda natureza é boa, tanto a corruptível com a não corruptível, a única natureza incorruptível é Deus, a suma bondade, e todas as outras naturezas são corruptíveis, porém, também são boas, pois, possuem algo a corromper-se.

88 Nessa obra Agostinho se debruça sobre a epístola chamada Fundamento, possivelmente escrita pelo próprio

Mani, com a intenção de refutá-la. Embora o Hiponense combata as doutrinas e críticas dos Maniqueus ao Antigo, Novo Testamento e fé cristã católica, nesse escrito se propõe a refutar diretamente um documento εaniqueu, como diz θio de δuiz comentando acerca dessa obraμ “ζesse sentido a obra significa uma novidade, pois, até então nunca havia se ocupado diretamente de um escrito de Mani. Havia refutado sua doutrina [...], mas nunca um escrito concreto” (1λ86, volέ XXX, pέ 381)έ

terem sido criadas ex nihilo e não da substância de Deus89. Logo, Deus as criou em estado de corruptibilidade, e somente devido a essa natureza corruptível é que existe a corrupção. Portanto, Deus ao criar seres corruptíveis por natureza, criou a condição de possibilidade da corrupção, e se ela é o mal ele criou a condição de possibilidade do mal.

Assim sendo, embora chamamos de mal a corrupção, ela mesma tem seu papel a cumprir no conjunto que constitui o cosmos, e o próprio Filósofo afirma na última citação que ela não é nada. Além disso, devemos lembrar que em todas as vezes que Agostinho chama a corrupção de má, não é intencionando buscar a natureza do mal, mas, defender a bondade das naturezas, pois, qualquer natureza enquanto possua algo a corromper é um bem. O que está em questão aqui não é a corrupção como causa do mal, mas a afirmação da bondade das naturezas, contra um grupo que considerava tanto a natureza como a corrupção como males.

Em suma, o mal no cosmos com o pleno peso conceitual do termo só mesmo o não-ser, e como esse último não existe, o cosmos como um todo e em suas mínimas partes é bom.