A história utilizada para avaliarmos a evolução da aprendizagem da oralidade e da escrita de Rafael é A Bela e a Fera, pois, na produção escrita da terceira etapa, ele a escreveu de modo mais completo do que as demais histórias, considerando também o nível de complexidade do enredo desse conto.
Na primeira etapa, a criança demonstra saber o título da história. Nos dois turnos seguintes, tenciona narrar suas experiências, contar sobre algum brinquedo novo pelo qual parece interessado. Os três turnos são resultados da nossa mediação na atividade de reconto coletivo.
672: Rafael: A Bela e a Fera...
691:Rafael: ei... eu tenho uma bolinha de sabão... eu tenho... 695: Rafael: eu... a Fera... (Etapa 1 - 28/08/06).
Na segunda etapa da pesquisa, iniciamos a coleta de dados com o reconto coletivo. Vejamos alguns dos turnos de fala produzidos pelo Rafael, resultados da nossa mediação constante:
Rafael: e depois vai casar com a Bela... primeiro trazer uma flor rosa... primeiro começava o casamento e... e beijar e botar o anel...
Rafael: pegou no anel vera e acendeu o fogo tudim... aí depois o pai da Bela comeu a comida do... da Fera e depois ele foi deitar na cama da Fera... é...
Rafael: primeiro aquele monstro com a cara verde... primeiro a bruxa transformou numa Fera e não sei não...
Rafael: o pai tava doente e botou uma cama e um lençol e os personagens o pai... a mãe e as três filhas... e a vó e a bruxa...
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Rafael: tinha a Fera e a Fera dizia pro pai da Bela que tazisse ela pa que casar com a Fera depois o pai foi no imbora e depois o pai foi indo embora e a Fera ficou sozinha no castelo e ela ficou triste porque o pai foi para casa... só sei essa parte que ela perguntou...
Rafael: e depois a Fera morreu e depois pegou a Bela e depois se casou com ele... (Etapa 2 - 11/12/2008)
Em relação ao desenvolvimento da linguagem oral, percebemos que essa criança está mais evoluída, também porque há uma diferença de dois anos entre a primeira e a segunda etapas. Agora ela já tem cinco anos de idade. Ela se envolveu na “contação” e
“recontação” de histórias, entretanto, não participa de prática de reconto de histórias, pois a
escola particular de pequeno porte está empenhada em fazê-la aprender a ler e escrever e, pelo que constatamos, a Literatura Infantil não é uma aliada nesse processo. A criança demonstra capacidade de narrar a história, mas não consegue organizar o pensamento antes de falar.
Para que um texto se configure como de natureza narrativa, faz-se necessário a manutenção de uma estrutura mínima. O fato de sua produção de turnos resultar das perguntas da mediação de outrem já compromete o texto narrativo, que supõe um fio condutor, um começo que se encaminha para um fim, sem perda de elos causais. Desse modo, mesmo havendo contemplação dos aspectos narrativos, não havendo sequência temporal e causal dos acontecimentos, a estrutura narrativa é comprometida, não podendo o texto ser classificado como narrativo porquanto uma unidade narrativa deve “apresentar não apenas um
encadeamento cronológico, mas um encadeamento causal”. (ADAM, 1992, p. 3).
Na etapa 3, a criança inicia seu reconto pela Complicação. Narra o nó da intriga , quando o pai de Bela subtrai a rosa do jardim da Fera.
Na Resolução, menciona o beijo e a metamorfose da Fera em príncipe: “a Bela... deu um beijo e a Fera se transformou em um príncipe...”
Na Situação Final, menciona o casamento do príncipe com a princesa: “...e eles
dois se casaram...”
Vejamos na tabela a seguir:
Tabela 20 - Etapa 3 - A Bela e a Fera - 01/12/2009
(continua) ORIENTAÇÃO
COMPLICAÇÃO Rafael: (...) aí o pai... quando ele foi... ele apareceu o trovão e ele se perdeu pelo mato aí::: e aí:: ele encontrou um castelo... aí ele entrou e viu ( ) ele comeu a comida e se deitou na cama por que ele tava muito cansado... aí depois ele pegou a lo/// e a Fera disse...você come minha comida e se deita na minha cama e está pegando minhas flores... é só uma flor... a Bela pediu uma flor... aí a Fera disse... então venha... traga ela... e o pai foi lá trazer a Bela... em sete dias ele tinha que voltar e aí::: ele trouxe... e a Fera tocou uma música no piano aí depois ele ficava ( ) o pai foi embora... e a Bela ficou TRISte.... aí depois... aí depois... a Fera levava a Bela para passear na água e a Fera disse...
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Tabela 20 - Etapa 3 - A Bela e a Fera - 01/12/2009
(conclusão) Bela você me ama? não... e o ( ) também dizia... Bela você me ama? não .... RESOLUÇÃO Rafael: (...) e aí::: .... a Bela viu que::: a Fera ficou machucada que os ladrão
pegou ela e machucou ela estava quase morrendo ela... a Bela... deu um beijo e a Fera se transformou em um príncipe...
SITUAÇÃO FINAL Rafael: (...) e eles dois se casaram... CODA
Fonte: Produzida pela autora com base no reconto da criança pesquisada
Na quarta etapa, a produção oral de Rafael é bastante reduzida em quantidade de fala e detalhes da narrativa. Há presença de apenas dois elementos da trama narrada, mas com muitas elipses.
Na Resolução, apesar de a criança mencionar que a Fera se transformou em príncipe, não diz como nem o por que ocorre a transformação:
Rafael: a Bela foi visitar a Fera e viu que a Fera tava machucada e ela...ela botou ele e disse... Fera não morra... e aí a Fera disse que ia morrer... aí a Fera se transformou num príncipe... (Etapa 4 - 29/09/2010).
Em seguida apresenta a Situação Final de forma canônica: “....e eles viveram
felizes para sempre...” E a Coda, que se constitui no corpo da narrativa, é um elemento secundário: “...só sei isso...”
Tabela 21 - Etapa 4 - A Bela e a Fera - 29/09/2010 ORIENTAÇÃO
COMPLICAÇÃO
RESOLUÇÃO Rafael: a Bela foi visitar a Fera e viu que a Fera tava machucada e ela...ela botou ele e disse... Fera não morra... e aí a Fera disse que ia morrer... aí a Fera se transformou num príncipe...
SITUAÇÃO FINAL Rafael: ....e eles viveram felizes para sempre... CODA Rafael: ...só sei isso...
Fonte: Produzida pela autora com base no reconto da criança pesquisada
A maior produção de linguagem dessa criança foi registrada na segunda e na terceira etapas. Na segunda, apesar de não haver contemplação dos aspectos narrativos, a criança parecia disposta a falar, a responder as nossas indagações. Na terceira etapa, ela está disposta a falar e a narrar a história solicitada. Na quarta, ela não só parece retraída, como também economiza bastante seu vocabulário.
154 Em relação à reelaboração do texto narrativo formal, somente na terceira etapa foi registrada uma ocorrência. Apesar de Rafael suprimir a Orientação e iniciar seu reconto pela complicação, ele constrói um mundo narrativo com origem na personagem, ator sujeito de ações fundamentais para o desenvolvimento da trama, o pai da princesa, que indica a ação inicial de despedida e viagem:
C4S4E5: (...) aí o pai... quando ele foi... ele apareceu o trovão e ele se perdeu pelo mato aí::: e aí:: ele encontrou um castelo... aí ele entrou e viu ( ) ele comeu a comida e se deitou na cama por que ele tava muito cansado... aí depois ele pegou a lo/// e a Fera disse...você come minha comida e se deita na minha cama...
A sucessão de acontecimentos narrados segue um elo causal, pois que se encaminham para a retomada do equilíbrio inicial ou, nesse conto, superior, porque resolve o grande problema do príncipe, feito monstro pela quebra do feitiço em decorrência do beijo de amor incondicional da princesa.
Consideramos importante relatar que Rafael expressou, verbalmente, sua indisposição e desinteresse em continuar narrando esses contos. Ao retornarmos para concluir a pesquisa, ele nos perguntou se não tínhamos revistas de super-homens, ficção científica, porque não gostava mais desse gênero literário.
Com origem nesse dado e na análise das três primeiras etapas, pensamos que a redução na produção oral dessa criança relaciona-se não só ao fato de a escola não trabalhar com o texto literário, a não ser com os livros denominados de paradidáticos, que servem a extração de exercícios e matéria de prova, mas também pelo fato de a criança haver perdido o interesse por esse gênero que se caracteriza pela encantamento, pelo mágico, pelos finais felizes. As crianças de oito anos de idade, em decorrência da exposição à diversidade de produções de filmes, revistas de colagens e gibis de super-heróis, parecem se interessar e buscar identificação com heróis mais audaciosos do que aqueles dos Contos de Fadas.
Apesar de compreendermos a demanda de Rafael, o objetivo do nosso trabalho supunha continuarmos com as mesmas histórias. Desse modo, contávamos com essa redução de sua produção oral na quarta etapa. A terceira etapa, entretanto, nos indica que ele elaborou e conservou a estrutura narrativa mínima necessária para que seu texto seja considerado narrativo. Vejamos na figura a seguir a classificação de suas narrativas orais:
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Gráfico 2 - Evolução da estrutura narrativa oral - CASO 4 - S4E3/5 – RAFAEL
Fonte: Produzido pela autora