3.3 Research Activities
3.3.3 Expert Interview and Questionnaire
José Francisco Diana não teve a mesma sorte que seu conterrâneo Ávila. Nascido em 1841, era filho de Paulo Francisco Diana e Maria Teodora Terra Diana e tinha apenas uma irmã, Maria Delfina Diana Terra. Essa era uma família com poucas posses e, ao que tudo indica, que não desfrutava de muito reconhecimento perante os demais habitantes do município.
O pai de Diana era emigrado da Itália, como fica atestado em seu inventário no qual é feita menção a bens que ele recebeu na Itália por morte de seu pai, mas que os membros da família Terra Diana não inventariaram, deixando aos sobrinhos do falecido que ainda viviam na Itália, por haver Paulo Diana manifestado ser essa sua vontade113.
O inventário de Paulo Diana, aberto em 1881, não apresenta nenhum imóvel rural, animais ou escravos. Os únicos bens que possuía eram um terreno e algumas casas na cidade, onde poderiam exercer alguma atividade comercial ou ainda viver do aluguel desses imóveis. Entretanto, a ausência de dívidas de qualquer tipo, tanto dívidas a serem cobradas, quanto a serem pagas, não nos permitem ter confirmação sobre as origens da renda dessa família. Podemos ter certeza apenas que José Diana nasceu em uma família cujo patrimônio constituído apenas por imóveis urbanos que somavam em torno de 2600 libras esterlinas e nem de longe remete ao perfil da elite econômica de Jaguarão estudada no capítulo anterior.
Apesar de fortemente hierarquizada e com uma elite pouco propensa a integração de novos membros, essa não era uma sociedade que vetava totalmente as possibilidades de ascensão social e o casamento de José Diana foi uma evidência disso. O enlace matrimonial com Amélia Leopoldina Correia representou um ponto de
112 VARGAS, Jonas. As duas faces do Coronel Valença: família, poder local e mediação política em
Santa Maria (1850-1870). In.: WEBER, Beatriz e RIBEIRO, José Iran (Org.). Nova História de Santa Maria: contribuições recentes. 2010.
da sua família.
A esposa de Diana era filha de João Faustino Correia, o segundo mais rico estancieiro de Jaguarão ao longo dos últimos 30 anos do período imperial, com propriedades que se estendiam desde a costa do Arroio Candiota114, próximo ao município de Bagé, até o Uruguai, onde ele chegou a possuir duas estâncias em um dado momento de sua vida.
Diante dessa descrição, fica difícil compreender porque um dos homens mais ricos de Jaguarão escolheu Diana, um jovem sem fortuna ou status para agregar à sua família, para casar com sua filha, uma vez que “[...] os pais, se não decidiam por si mesmos a escolha dos cônjuges para seus filhos, ao menos deveriam aprova-los, dentro de um campo de “cônjuges aceitáveis”” 115. Contudo, o casamento entre eles ocorreu em 1868, ano em que o jovem Diana retornou para Jaguarão após formar-se bacharel em Direito pela Academia de São Paulo. O diploma era seu bem, sua riqueza e sua fonte de influência.
As academia de direito eram privilégio de alguns poucos jovens detentores de algum atributo que os fizesse capaz de alcançar esses ambientes. No caso de José Diana, que, como vimos, era membro de uma família desprovida de grandes posses, não ficam claro os meios pelos quais o jovem obteve os recursos necessários para cursar a faculdade de direito em São Paulo. Uma das possibilidades que podemos entrever é que o pai e o sogro de Diana já nutrissem algum laço anterior ao casamento de seus filhos, haja vista que ambos eram membros da irmandade da Santa Casa de Caridade de Jaguarão116. Sendo assim, tanto poderia ele Faustino Correia, que foi inclusive provedor da Santa Casa, ter investido na formação do futuro genro, quanto poderia a Santa Casa ter financiado os estudos do rapaz.
Esse não seria o único exemplo dentro da elite política provincial de como as relações sociais eram tão importantes quanto um vultoso patrimônio material. Florêncio de Abreu e Silva, que foi deputado geral e senador pelo Partido Liberal rio-grandense,
114 Inventário de Faustino João Corrêa a Maria Leopoldina Corrêa. Processo 658. Ano 1877. Cartório de
Órfãos e Ausentes. APERS.
115 FARINATTI, 2010, op. cit., p. 265.
116 SOARES, Eduardo Alvares de Souza. A Santa Casa de Caridade de Jaguarão. Armazém Literário,
também nasceu em uma família sem significativas posses. Apesar disso, Florêncio de Abreu formou-se bacharel em direito em São Paulo, após ter os estudos financiados pelo governo da província do Rio Grande do Sul.
Investigando a família de Abreu e Silva, Vargas percebeu a importâncias das relações que seu irmão mais velho, João Vespúcio de Abreu e Silva, mantinha nos círculos intelectuais da capital da província. João Vespúcio era relacionado com os literatos da revista O Guaíba, onde conheceu pessoas influentes como João Capistrano Filho, filho de João Capistrano de Miranda e Castro
“respeitado cidadão na província e que acumulou um currículo invejável: foi juiz municipal, advogado, deputado provincial, presidente da Província, mas talvez os principais cargos tenham sido o de diretor da Fazenda Provincial (por longos trinta anos) e secretário de Governo, ou seja, Miranda e Castro era o especialista das finanças da Província e nada passava pela Fazenda Provincial sem lhe ser consultado” 117.
Assim, nem todos que tornavam-se bacharéis em direito tinham nascido no seio de famílias abastadas da província, mas os que conseguiram apesar dessa ausência estavam relacionados com essas famílias. As relações sociais figuravam, desse modo, como um fator estruturante dessa sociedade, tanto quanto a riqueza material.
Por isso, mesmo aquelas famílias que não precisavam recorrer ao seu capital relacional para atingir certos objetivos, sabiam da importância de reiterar seus laços relacionais e ampliar seu capital social e mesmo econômico para manter-se como elite. Como apontou Vargas em relação a elite política rio-grandense, “se nem todos os membros desta reduzida elite eram de famílias ricas, todos, no entanto, eram muito bem relacionados com elas”118. Nesse sentido, os matrimônios configuravam um momento importante para as famílias. A prática de beneficiar-se das uniões matrimoniais para obter prestígio, poder e riqueza já era utilizada estrategicamente pelas famílias da elite sulina desde o século XVIII, como demonstrou Kühn119.
Assim, é um elemento comum e importante na trajetória desses mediadores o fato de que fazia parte, direta ou indiretamente, da elite econômica do município. No inventário do casal Faustino Correa e Maria Carolina Correa, realizado em 1877 pelo genro José Diana, consta uma fortuna de 43.021 libras esterlinas, muito superior ao
117 VARGAS, 2010, op. cit. p. 71. 118 VARGAS, 2010, op.cit. p. 70. 119 KÜHN, 2006, op. cit.
mil libras120.
Essas semelhanças entre as trajetórias dos mediadores não devem obscurecer uma peculiaridade importante: embora ambos nutrissem relações com famílias da elite jaguarense, apenas um deles nasceu em uma dessas famílias. A estrutura social do Império estava organizada de forma a vetar a possibilidade da educação superior àqueles que não fossem membros de famílias de elite. Por algum meio que não é possível afirmar de forma precisa, José Diana mudou sua trajetória aproveitando uma possibilidade que a ele se apresentou e disso decorre o sucesso de sua carreira.
Outra diferença ainda merece ser destacada. Henrique d’Ávila ocupou postos na política e na administração que José Diana jamais conquistou. Contudo, é prudente não cedermos à tentação das explicações mecanicistas e causais. A origem de Diana pode ter sido uma sombra sobre seu destino, mas temos que considerar que os atores históricos tomam decisões baseados em variados motivos, aos quais o historiador em tempo algum terá acesso. Portanto, não podemos atribuir um significado de derrota ou incompletude à trajetória de Diana. Ademais, ainda que não tenha sido Senador ou presidente de