O Plúton Caxexa e Rochas
Plutônicas Associadas
Capítulo 4
Mapeamento Geológico e
Litoestratigrafia
CAPÍTULO 4
MAPEAMENTO GEOLÓGICO
E LITOESTRATIGRAFIA
4.1 - Introdução e Metodologia.As unidades litológicas mapeadas foram individualizadas por meio de critérios de intrusão/inclusão (presença de apófises e xenólitos) e características estruturais (foliações e lineações), originadas em diferentes épocas. O mapeamento envolveu o reconhecimento preliminar dos litotipos estudados, tanto para o Plúton Caxexa e demais rochas plutônicas, como também suas encaixantes (anexo 3), sendo então estabelecida uma seqüência cronológica, caracterizada por três unidades litoestratigráficas principais, representadas da base para o topo por: c complexo gnáissico-migmatítico (compondo o substrato regional), por vezes intensamente migmatizado; d unidade metassedimentar (essencialmente micaxistos granadíferos); e e rochas plutônicas, nestas incluindo álcali feldspato granito (Plúton Caxexa), anfibólio biotita granito (Plúton Cabeçudo), biotita microgranito, gabronorito a monzonito (suíte básica a intermediária) e granitóide aluminoso (tipo-S).
Dados geocronológicos foram obtidos através dos métodos Rb/Sr (rocha total) e Sm/Nd (rocha total + mineral) para o Plúton Caxexa (rochas alcalinas) e o granitóide aluminoso. A seleção das amostras analisadas levou em conta fatores como: aspecto homogêneo, ausência de alteração superficial, distância de pegmatitos e veios, e variações petrográficas encontradas em cada litologia. A preparação mecânica das amostras, incluindo britagem, moagem e separação dos minerais (clinopiroxênio, biotita e granada), foi realizada nos laboratórios do DG/UFRN (setores de moagem, separador Frantz e microscopia). A preparação química das alíquotas Rb/Sr e Sm/Nd foi executada, em parte, no Laboratório Intermediário de Geocronologia da UFRN, bem como no Laboratório de Geocronologia da Universidade de Brasília (UnB), com posterior dosagem realizada neste último laboratório e no Centro de Pesquisas Geocronológicas do IG/USP (CPGeo). As leituras das alíquotas de Sr natural (SrN), como ainda de todas as alíquotas de Sm e Nd, foram realizadas na UnB, no espectômetro de massa MAT-262. Já as amostras que necessitaram de diluição isotópica (DI), nas quais utilizou-se
spike combinado Rb/Sr (Sales 1997), tiveram suas leituras efetuadas no espectômetro de massa
VG-354 do CPGeo. As técnicas utilizadas neste último laboratório são descritas em Kawashita et
al. (1974), enquanto que as do laboratório da UnB são referidas a Gioia & Pimentel (1997).
Foram utilizados os programas Pisog (Vlach 1989) e Isoplot (Ludwig 1990) para a confecção de diagramas isocrônicos Rb/Sr e Sm/Nd. Os cálculos das idades para os métodos Rb/Sr e Sm/Nd foram feitos de acordo com o proposto por Williamson (1968) e DePaolo (1988), com as
constantes de desintegração 1,42 x 10-11 anos-1 e 6,54 x 10-12 anos -1 (Steiger & Jäger 1977). Os dados isotópicos de Sr e Nd encontram-se no capítulo de aspectos petrogenéticos (cap. 9).
4.2 - Arcabouço Litoestratigráfico.
A litoestratigrafia da área pesquisada está sintetizada na legenda do anexo 3. O substrato regional é representado por um complexo gnáissico-migmatítico caracterizado por conter estruturas antigas (deformação D1), além de correlações com dados da literatura. Ele é formado por rochas intensamente gnaissificadas, em geral migmatizadas, de composição granodiorítica a tonalítica. Micaxistos com lentes de calciossilicáticas capeiam aquele substrato. As deformações D2 e D3 estão presentes em ambas as unidades. O corpo alcalino Caxexa, principal alvo desta dissertação, encontra-se ao longo da interface milonítica (D3) entre os micaxistos e o substrato gnáissico, exibindo feições do evento D3. Enxame de diques de microgranitos estão alojados nas ortoderivadas do substrato gnáissico, e, em menor quantidade, nos micaxistos. Na porção centro-sul da área, identifica-se um corpo granítico de textura grossa, porfirítica, variavelmente deformado, com xenólitos de ortognaisses, o Plúton Cabeçudo. Rochas básicas a intermediárias ocorrem como um grande corpo elíptico, na porção centro-leste da área, representas por gabronoritos a monzonitos. Bordejando essas rochas, notam-se efeitos térmicos nos contatos dos micaxistos, cuja fusão parcial origina granitóides aluminosos (tipo-S). Finalmente, veios de quartzo e pegmatitos tardios em relação a D3 estão alojados nas unidades anteriores.
4.2.1 - Complexo Gnáissico-Migmatítico.
Corresponde a unidade mais antiga da área, representada por rochas metaplutônicas granodioríticas a tonalíticas, variavelmente gnaissificadas e migmatizadas. Injeções pegmatíticas e/ou efeitos de zonas miloníticas contribuem para o aspecto bandado desses gnaisses (foto 4.1). Padrões estruturais (deformações D1 e D2) contribuem para a sua definição como a unidade mais antiga. Ocorrem nas porções norte, NE, leste e SE da área mapeada.
Em regiões de menor strain é possível reconhecer um bandamento gnáissico milimétrico a centimétrico (S1) de alto grau, marcado por alternâncias de bandas máficas (biotita+anfibólio) e félsicas (quartzo+plagioclásio), em geral retrabalhado pela foliação S2. A superposição dessas duas fases de deformação gera uma trama plano-linear composta (S1+S2). Essa estruturação, denominada D2, é reconhecida nos ortognaisses através da re-orientação de anfibólio+biotita e quartzo+plagioclásio recristalizados. A foliação S1+S2, em geral, possui direção NNE-SSW com caimento moderado para NNW (30-65q). Associado a essa foliação, desenvolve-se uma forte lineação de estiramento e/ou mineral (LX2), dada pela orientação de
(22-30q) com caimento para WNW. A paragênese orientada segundo a foliação S2 é formada por plagioclásio+anfibólio+titanita indicando a atuação da fácies anfibolito, o que é corroborado pelo teor de anortita do plagioclásio (An23-27).
Nas proximidades do contato com os micaxistos e o granito porfirítico (região de alto
strain), as estruturas anteriores (S1+S2) encontram-se paralelizadas a uma estrutura gerada no decorrer de uma tectônica extensional brasiliana (S3), demonstrada por intensas faixas miloníticas. São encontrados diques de pegmatitos e granitos brasilianos (em especial, os microgranitos) estirados na direção da foliação S3/C3, por vezes boudinados, devido a intensa deformação. Feições de migmatização também são freqüentes, relacionadas à deformação D3. Critérios cinemáticos desenvolvidos em alta temperatura são identificados nas rochas miloníticas, revelando movimentação extensional, com topo para SSW, caracterizado por assimetria dos augen de feldspatos nos ortognaisses. A paragênese anfibólio + plagioclásio (An24-26), recristalizada na fase D3, indica que esta atingiu no mínimo a fácies anfibolito. A presença de mobilizados quartzo-feldspáticos (foto 4.1) pode indicar também (mesmo que localmente), um aumento na temperatura, ultrapassando a curva da anatexia. Isso deve-se, provavelmente, à percolação de fluidos segundo os planos de cisalhamento D3. Um evento retrometamórfico é sugerido pela presença de clorita + epídoto granular + mica branca nos ortognaisses, caracterizado podendo relacionar-se ao aporte de fluidos relativamente mais frios, ocorrido após o pico metamórfico de M3.
4.2.2 - Unidade Metassedimentar.
É representada por micaxistos, com raras lentes de calciossilicáticas. Constitui uma faixa de metassedimentos posicionada sobre os ortognaisses do complexo gnáissico-migmatítico. Alguns autores sugerem que essa faixa representaria uma fatia alóctone de micaxistos da Faixa Seridó, tendo sido transportada e colocada sobre os ortognaisses (Trindade et al. 1993; Jardim de Sá et al. 1993).
Os micaxistos possuem proporções variadas de biotita, quartzo e plagioclásio. Encontram-se, localmente, concentrações de porfiroblastos de granada e estaurolita, além de cordierita e andaluzita. Exibem uma xistosidade bandada (S2) paralela a uma estrutura mais antiga (acamamento S0) (foto 4.2), principalmente na porção oeste da área (região de baixo
strain). Nesta região, a foliação S2 é de baixo ângulo (subhorizontal), paralelizada a S3, assumindo mergulhos fortes quando aproxima-se do contato milonítico (45-60q), também envolvendo o Plúton Caxexa e os ortognaisses. Diversos critérios cinemáticos sugerem cinemática extensional para essa faixa de micaxistos, exemplificadas por foliação S-C, boudins sigmoidais (foto 4.3) e mobilizados quartzo-feldspáticos, onde a lineação LX3 encontra-se subhorizontalizada (0-17q), com caimento para SSW. O contato com as ortoderivadas é marcado por zonas miloníticas (anexo 3).
Na porção leste da área, também se observam micaxistos, entretanto eles estão fortemente migmatizados, gerando granitóides anatéxicos de difícil separação, em mapa, dos seus protólitos metapelíticos (anexo 3).
4.2.3 - Plutonismo Brasiliano.
A área é palco de um intenso e variado magmatismo, separado por critérios de campo e composicionais em cinco tipos distintos: c álcali-feldspato granito (Plúton Caxexa), d anfibólio-biotita granito (Plúton Cabeçudo), e biotita microgranito, f gabronorito a monzonito (suíte básica a intermediária) e g granitóide aluminoso (tipo-S). Essas rochas plutônicas truncam foliações pretéritas (S1+S2), além do próprio contato milonítico entre os micaxistos e os gnaisses (em especial, o Plúton Caxexa), todavia exibindo os efeitos dessa deformação, o que corrobora o seu alojamento sintectônico ao evento D3.
4.2.3.1 - Álcali-feldspato granito (Plúton Caxexa).
Ocorre como um corpo de geometria ímpar, tabular, alongado segundo orientação N- S, com pequena inflexão para NE na porção norte do plúton (anexo 3). São rochas hololeucocráticas, homogêneas, destacando-se fácies com fenocristais de granada (foto 4.4) e clinopiroxênio visíveis a olho nu. Possui aproximadamente 50 km2 de área aflorante, correspondendo à elevação topográfica da Serra da Caxexa (ou de Santa Luzia). Xenólitos angulosos, de dimensões decimétricas a métricas, de micaxistos (especialmente nas partes SW e sul do plúton) e ortognaisses (na parte NE), bem como soleiras e diques de álcali-feldspato granito em micaxistos, a SE, e em ortognaisses, a leste, são freqüentes, comprovando o seu caráter intrusivo. Na extremidade sul do corpo, o contato é realizado com os micaxistos, porém no setor norte este contato se dá com ortognaisses do Complexo Gnáissico-Migmatítico. Embora não muito proeminentes, efeitos de contato são marcados na diminuição de granulação de micaxistos do contato oeste/SW e variação na atitude de estruturas planares pré-Brasiliana (S2) de micaxistos, que se amoldam à geometria do corpo.
O plúton em tela apresenta tramas magmáticas plano-lineares definidas por orientação de feldspato alcalino, quartzo e clinopiroxênio, as quais são concordantes com tramas similares, referidas como D3 (S3, L3), do substrato gnáissico-migmatítico e do pacote metapelítico. Por vezes é possível reconhecer um acamamento magmático nessas rochas (foto 4.5). Em linhas gerais, as tramas plano-lineares têm direção aproximada N-S, vergando para NNE-SSW no domínio NE do maciço (anexo 3). A trama planar SJ mostra vergências para leste, com mergulhos moderados a subverticais para oeste, as últimas na zona de cisalhamento sinistrógira do contato oeste. A trama linear (LJ) possui direção N-S, exceto na
porção NE do corpo, e mergulhos subhorizontais. Fraturas e veios tardios de pegmatito e quartzo são encontrados por todo o corpo granítico.
O regime extensional, acoplado à transcorrência sinistrógira, provavelmente controlaram o alojamento deste plúton. A criação de espaço para a sua colocação pode ser explicada através da geometria extensional a NW da Zona de Cisalhamento Remígio-Pocinhos (ZCRP), que originou cavidades em forma de cunha na interface entre os micaxistos e o substrato gnáissico (M.A.L. Nascimento 1998; Jardim de Sá et al. 1999). O posicionamento do plúton entre o substrato gnáissico e os micaxistos, bem como a imposição da trama D3 Neoproterozóica no maciço granítico, são argumentos sugestivos de intrusão sintectônica. Veios de quartzo com mergulhos moderados, representando atividades hidrotermais tardias, sugerem que a fase final de resfriamento do plúton envolveu episódios tangenciais, extensionais, com topo para sul e NW, respectivamente nas porções sul e norte do plúton.
Resultados geocronológicos foram obtidos para o Plúton Caxexa com os métodos Rb/Sr e Sm/Nd. Para o primeiro, foram analisadas seis amostras de rocha total representativas do corpo alcalino (tabela 4.1). As variações nas razões Rb/Sr entre 0,09 e 0,53, proporcionaram uma boa dispersão dos pontos, favorecendo a obtenção de um alinhamento (fig. 4.1a), definindo uma idade de 460r3 Ma e razão inicial (ISr) de 0,70792 r 0,00004, porém com elevado MSWD (=147,5). A exclusão da amostra MA-12 proporcionou um melhor ajuste dos pontos (MSWD = 0,48), com idade de 536r4 Ma e ISr de 0,70746 r 0,00004 (fig. 4.1b). O fato de a amostra MA-12 ter sido coletada próxima a veios de pegmatitos sugere que o seu desequilíbrio isotópico pode ter sido provocado por fluidos magmáticos tardios.
Em princípio, o valor de 536r4 Ma é interpretado como a idade mínima para a intrusão do Plúton Caxexa. Esta idade, em conjunto com a do Plúton Serra do Algodão (529r54 Ma; R.S.C. Nascimento 1998), posiciona o magmatismo alcalino situado no MSJC com tendo ocorrido no final do ciclo Brasiliano. Assim, é possível considerar que as rochas de natureza alcalina do MSJC representam o limite geocronológico inferior para o magmatismo neste maciço, ou alternativamente, reflitam o fechamento do sistema Rb/Sr após a cristalização das mesmas.
Tabela 4.1 - Dados analíticos Rb/Sr em rocha total para o álcali-feldspato granito ( Plúton Caxexa). Amostras Rb (ppm) Sr (ppm) Rb/Sr 87Sr/86Sr erro 87Rb/86Sr erro
MA-01* 146,5 1002,0 0,146 0,713255 0,000071 0,75940 0,00280 MA-12 76,0 143,0 0,531 0,717250 0,000050 1,53910 0,00020 MA-12A* 120,5 969,9 0,124 0,710024 0,000036 0,33920 0,00110 MA-21* 135,9 918,7 0,148 0,710141 0,000071 0,35020 0,00150 MA-23A 149,0 345,0 0,432 0,717014 0,000050 1,25070 0,00020 MA-166* 126,0 1407,3 0,090 0,709440 0,000064 0,25120 0,00080
Figura 4.1 - Isócronas Rb/Sr para as rochas alcalinas do Plúton Caxexa, com todas as 6 amostras em (a) e sem a amostra MA-12 em (b).
Dados isotópicos Sm/Nd da amostra MA-01, incluindo rocha total, clinopiroxênio e granada estão na tabela 4.2. Inicialmente, construiu-se uma isócrona Sm/Nd plotando apenas a rocha total e o clinopiroxênio, obtendo-se a idade de 574r44 Ma. Uma maior dispersão da razão147Sm/144Nd (0,119-0,586) é observada na isócrona feita com rocha total e granada (que é texturalmente posterior ao clinopiroxênio), mas a idade calculada não difere da anterior (577r26 Ma). Juntando os pontos correspondentes a rocha total, clinopiroxênio e granada, obtém-se a idade de 578r14 Ma e MSWD=0,37 (fig. 4.2).
A idade do conjunto rocha total + cpx + granada (fig. 4.2) de 578r14 Ma pode ser interpretada como a estimativa mais adequada para o final da cristalização, ainda a altas temperaturas (650-700qC), do Plúton Caxexa. Isto é corroborado pela textura poiquilítica da granada e os mosaicos poligonais de feldspatos. Assim, a idade obtida pelo método Rb/Sr representa, na verdade, a idade de fechamento isotópico deste sistema nas rochas alcalinas.
Tabela 4.2 - Dados analíticos Sm/Nd, em rocha total e mineral, para o álcali-feldspato granito (Plúton Caxexa). Gran = granada; Cpx = clinopiroxênio.
Amostras Sm
(ppm) (ppm)Nd 147Sm/144Nd erro 143Nd/144Nd erro (Ga)TDM (578 Ma) HNd
MA-01 RT 1,19 6,05 0,119600 0,0150 0,511271 0,0030 2,90 -21,03
MA-01 Gran 84,60 152,22 0,335970 0,0150 0,512090 0,0030 - -
MA-01 Cpx 39,60 97,20 0,247500 0,0150 0,511753 0,0030 - -
Figura 4.2 - Diagrama isocrônico Sm/Nd com rocha total e mineral (clinopiroxênio + granada) para o Plúton Caxexa.
4.2.3.2 - Anfibólio-biotita granito (Plúton Cabeçudo).
Na porção centro-sul da área, observam-se rochas com textura grossa, porfirítica, com fenocristais de K-feldspato e plagioclásio, representando o Plúton Cabeçudo. Rochas porfiríticas similares são encontradas no extremo sul da área, às vezes como pequenos diques. Esse plúton apresenta menos de 10 km2 de rochas aflorantes, estando alojado próximo ao contato milonítico entre os micaxistos e os ortognaisses (anexo 3). Compreende rochas fortemente deformadas, com direção da foliação predominantemente NNE-SSW, mergulhando forte para WSE (60-70q). A lineação de estiramento tem baixo rake (15-20q), com caimento para NNE. Todavia, próximo ao contato milonítico com os micaxistos, apresenta-se com forte caimento (60-65q) para NW, e o mergulho da foliação muda para o quadrante NW.
Podem ter xenólitos de ortognaisses bastante deformados, com foliação prévia (S1+S2), bem como diques e soleiras de biotita microgranitos. Enclaves máficos de composição diorítica ocorrem como corpos alongados elípticos ou circulares (foto 4.6). O contato dos enclaves com o granito porfirítico é difuso, podendo em alguns locais incorporar mecanicamente fenocristais de K-feldspato, estabelecendo textura do tipo mingling. Essa feição sugere contrastes de viscosidade e de temperatura entres esses dois tipos de magmas (básico e porfirítico). Suas rochas apresentam variação na trama do tipo PFC (pre-full cristalization) para SPD (subsolidus
plastic deformation) (Hutton 1988), demonstrada através da orientação preferencial de
minerais tabulares (K-feldspato) até estiramento e/ou sombras de pressão em quartzo e K- feldspato.
4.2.3.3 - Biotita microgranito.
Ocorre como diques e soleiras, de espessura decimétrica, alojados principalmente nas ortoderivadas (foto 4.7) e com menor freqüênci a nos metassedimentos (foto 4.8), seguindo o plano axial de dobras F3. Encontram-se distribuídos na porção central da área (anexo 3) e subordinadamente na parte leste. Seu posicionamento tardio com relação às demais plutônicas é evidenciado pela sua ocorrência como diques nos plútons Caxexa e Cabeçudo. Em alguns afloramentos, todavia, reporta-se o caráter intrusivo de álcali-feldspato granito em microgranito porfirítico (MA-249), sugerindo a existência de uma geração volumetricamente subordinada de microgranito prévia com respeito ao Plúton Caxexa. Outra alternativa igualmente possível é que este tipo microporfirítico representa uma fácies precoce do próprio Plúton Caxexa.
Os microgranitos possuem uma forte orientação definida por estiramento de K-feldspato e quartzo, refletida numa lineação subhorizontal direcionada E-W. Esses diques e soleiras estão sempre orientados segundo a direção NNE, e tal como no Plúton Caxexa, os microgranitos também são cortados por veios de pegmatito e quartzo. Essas rochas exibem tramas do tipo SPD (Hutton 1988), denotada por estiramento de quartzo e K-feldspato. Entretanto, é possível identificar texturas magmáticas (tipo PFC), evidenciada pela natureza globular de fenocristais de quartzo.
4.2.3.4 - Gabronorito a monzonito (Suíte básica a intermediária).
As rochas dessa suíte ocorrem como um grande corpo elíptico na porção leste da área (anexo 3), com eixo maior de 9 km, enquanto que o eixo menor possui aproximadamente 3 km, perfazendo 27 km2 de área. Uma das feições marcantes é a sua ampla variação composicional, incluindo termos que vão de gabronoritos a monzonitos. Entretanto, o predomínio maior são das rochas mais diferenciadas (monzonitos). Estas apresentam textura equigranular média a grossa (foto 4.9), contendo cristais de K-feldspato dispersos em uma matriz rica em piroxênios (orto e clino), biotita e raro anfibólio. Os termos menos evoluídos são de textura fina, ocorrendo como enclaves elípticos nas fácies mais diferenciadas. Xenólitos arredondados de micaxistos são freqüent es nas bordas do plúton em lide.
Em geral, são rochas isotrópicas, porém é possível notar na porção central do corpo um acamamento magmático, cuja foliação tem direção NE-SW e caimento moderado (45q) para NW (anexo 3). Apesar da ampla distribuição espacial, as rochas aqui estudadas não estão associadas aos anfibólio-biotita granitos nem aos álcali-feldspato granitos, dificultando a correlação entre elas. Pelo menos o seu caráter intrusivo em micaxistos é comprovado pela presença de megaxenólitos ou soleiras de gabronoritos (anexo 3).
4.2.3.5 - Granitóide Aluminoso (Tipo-S).
Bordejando a suíte básica a intermediária, encontram-se micaxistos fortemente migmatizados, delineados por diversos corpos seguindo o contorno do plúton básico a intermediário (anexo 3). A fusão parcial in situ dos micaxistos origina granitóides aluminosos, contendo granada, andaluzita, biotita e muscovita. Esses granitóides anatéxicos podem preservar restitos de micaxisto (foto 4.10), por vezes com bandas de calciossilicáticas intactas. Em geral, são rochas leucocráticas a mesocráticas. Em vários locais, é possível distinguir uma fácies rica em granada e andaluzita e pobre em quartzo + feldspatos, e outra com menos granada.
Uma isócrona mineral foi obtida usando-se granada e biotita da amostra MA-212 (tabela 4.3). O resultado indica uma idade de 574 r 67 Ma e MSWD de 2,69 (fig. 4.3). Esse valor pode ser considerado como a idade do evento metamórfico que afetou os micaxistos, ou alternativamente, o momento da intrusão da suíte básica a intermediária. A idade aqui obtida é semelhante às de rochas metapelíticas de alto grau e granitos anatéxicos na região, com idades calculadas de 578r25 Ma e 574r2 Ma (U/Th/Pb em monazitas e Sm/Nd em granada, respectivamente; Z.S. Souza inédito), o que caracteriza uma ampla extensão geográfica do evento metamórfico de alta temperatura e provável magmatismo cronocorrelato.
Tabela 4.3 - Dados analíticos Sm/Nd em rocha total e mineral da amostra MA-212 no granitóide aluminoso. RT = rocha total, Gran = granada e Biot = biotita.
Amostras Sm
(ppm) (ppm)Nd 147Sm/144Nd erro 143Nd/144Nd erro (Ga)TDM (574 Ma) HNd
MA-212 RT 5,73 27,24 0,116952 0,0150 0,512308 0,0030 1,23 -0,76
MA-212 Gran 6,47 19,70 0,198400 0,0150 0,512634 0,0030 - -
MA-212 Biot 15,13 83,24 0,109878 0,0150 0,512317 0,0030 - -
Figura 4.3 - Diagrama isocrônico Sm/Nd com rocha total e mineral (biotita + granada) para a amostra MA-212 (granitóide aluminoso).
Capítulo 5
Aspectos Petrográficos e
Texturais das Rochas
CAPÍTULO 5
ASPECTOS PETROGRÁFICOS E
TEXTURAIS DAS ROCHAS PLUTÔNICAS
5.1 - Introdução.Este capítulo enfoca as características petrográficas das rochas plutônicas, tanto com relação aos seus aspectos macroscópicos, considerando texturas e estruturas, como também aspectos microscópicos, feições mineralógicas e microtexturais. Para a caracterização de propriedades óticas, identificação mineral e de microtexturas, foram utilizados os textos básicos de Phillips (1980), Deer et al. (1966, 1982, 1996), Roubault (1982) e Hibbard (1995).
Na classificação petrográfica, foi empregada a terminologia proposta por Streckeisen (1976), com o plote dos valores modais de quartzo, feldspato alcalino e plagioclásio no diagrama Q-A-P. Para uma melhor identificação das possíveis fácies e/ou subfácies, usou-se o diagrama Q-(A+P)-M do mesmo autor. Esses valores modais (tabela 5.1 a 5.5) foram obtidos a partir da contagem de pontos (em média 1000 pontos por seção), com o auxílio do contador de pontos tipo Swift modelo F. Para uma melhor identificação das litologias, os minerais máficos, quando presentes em quantidade superior a 5%, aparecem na ordem crescente de abundância, precedendo o nome da rocha. De acordo com os diferentes padrões texturais encontrados nas fases minerais, adotou-se uma seqüência numérica (1, 2, 3 etc.) para diferenciar esses minerais. As simbologias NX e N//, encontradas nas fotomicrografias, representam nicóis cruzados e paralelos, respectivamente.
5.2- Aspectos Gerais e Nomenclatura.
O estudo petrográfico das rochas plutônicas foi efetuado a partir de um total de 53 seções delgadas, sendo 16 para o álcali-feldspato granito (Plúton Caxexa), 8 para o anfibólio- biotita granito (Plúton Cabeçudo), 14 para o biotita microgranito, 9 para as rochas básicas a intermediárias e 6 para o granitóide aluminoso. Para a nomenclatura das rochas plutônicas, utilizaram-se as terminologias propostas por Streckeisen (1976) e Le Maitre (1989).
De acordo com o diagrama da figura 5.1, as rochas do Plúton Caxexa são representadas exclusivamente por álcali-feldspato granitos, em virtude do caráter albítico (An0- 2) do plagioclásio. Observa-se que a mineralogia máfica nunca ultrapassa os 10% modais, classificando essas rochas como hololeucocráticas. Essa composição é praticamente idêntica a de rochas alcalinas associadas à Zona de Cisalhamento Remígio-Pocinhos (ZCRP), descritas