5 Experiments
5.3 Experimental Setup
A beleza e o desejo que se junta ou que se escolhe de entre as migalhas que brilham na enxurrada do tempo entram na ficção para forçar de propósito a lógica da realidade (JORGE, Apud. FERREIRA, 2009, p.45).
A escritora portuguesa, Lídia Jorge, nasceu em 1946, no Algarve, região sul de Portugal. Estudou Filologia Românica, foi professora do ensino secundário, morou por alguns anos em Angola e Moçambique antes de se fixar em Lisboa, tornando a cultura e o povo africanos recorrentes em suas criações literárias. Detentora de uma vasta obra, Lídia Jorge já escreveu ensaios, contos, poemas, literatura infantil e peça de teatro, além de dez romances (até 2013), alcançando êxito junto ao público e a crítica. Dedica-se a escrever narrativas de alcance universal cujo enredo apresenta em sua grande maioria as consequências da colonização e pós-colonização portuguesa na África; bem como expõe de forma artística o aniquilamento do indivíduo na sociedade contemporânea. Sendo assim, a atividade estética de Lídia Jorge, vem reforçar o que postulou Bakhtin sobre o assunto. Para ele:
A atividade estética não cria uma realidade inteiramente nova. Diferentemente do conhecimento e do ato, que criam a natureza e a humanidade social, a arte celebra, orna, evoca essa realidade preexistente do conhecimento e do ato – a natureza e a humanidade social – enriquece-as e completa-as, e sobretudo ela cria a unidade concreta e intuitiva desses dois mundos, coloca o homem na natureza, compreendida como seu ambiente estético, humaniza a natureza e naturaliza o homem (1992, p. 33).
Nas obras de Lídia Jorge, são constantes as questões referentes aos a gi alizados , ou aos e -cêntricos. Como a própria escritora afirma, uma das faces da beleza é a justiça e a literatura é o meio de buscá-la. No entanto, isso não implica dizer que a obra de Lídia Jorge tenha um tom panfletário, o valor estético de seus textos não é subjugado a questões ideológicas (REAL, 2001). Outro tema constante da obra de Lídia Jorge é a solidão feminina. Ela busca em seus romances descrever histórias de mulheres fortes e lutadoras que abdicam, muitas vezes, de se realizarem amorosamente
em função de uma vida de liberdade, buscas e de conquistas que as afastam dos companheiros. Isso pode ser exemplificado em quase todos os seus romances.
A narrativa de Lídia Jorge se apresenta muitas vezes fragmentada e repleta de experimentalismos; observa-se que em seus primeiros romances há uma valorização da linguagem imagética, o que se dilui depois de algumas publicações, quando ela põe em prática uma linguagem mais direta, como faz no romance O vento assobiando nas gruas, objeto desse estudo. No romance em questão a escritora usa menos o recurso alegórico e traz um relato com tom mais realístico. Não se pode deixar de afirmar que esta realidade buscada é somente uma forma de apresentar um relato, assim como definiu Oliveira:
[...] é característico da ficção jorgiana, a narrativa não se apresenta o o u elato e dadei o , i o test el, as, isto si , o o u a das possibilidades de leitura dos fatos, um modo de olhar, que deixa espaço para a revisão e o questionamento, numa maneira provisória e relativa de apresentar o mundo criado na ficção (OLIVEIRA, 2011, p.114).
Exemplo disso é o romance A costa dos murmúrios quando a personagem Eva Lopo, em um momento da narrativa diz a seu interlocutor:
Aconselho-o, porém, a que não se preocupe com a verdade que se não reconstitui, nem com a verossimilhança que é uma ilusão dos sentidos. Preocupe-se com a correspondência. Ou acredita noutra verdade que não seja a que se consegue a partir da correspondência? (JORGE, 2004, p. 42).
Essa fala da personagem de um dos romances de Lídia Jorge, vem reforçar a complexidade sobre o real histórico; ou sobre o que é verdadeiro ou semelhante em um fato real posteriormente narrado.
Reverenciada em Portugal, respeitada e traduzida em muitos países da Europa, a escritora já recebeu vários prêmios como: Prémio Literário Cidade de Lisboa (1982 e 1984); Prémio Dom Dinis, Fundação Casa de Mateus (1998); Prémio Bordallo de Literatura da Casa da Imprensa (1998); Prémio Máxima Literatura (1998); Prémio de Ficção do P.E.N. Clube Português (1998); Prémio Jean Monet de Literatura Europeia, Escritor Europeu do Ano (2000); Grande Prémio da Associação Portuguesa de Escritores
(2002); Grande prêmio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores ; p io Co e tes d Es itas ; p io de Lite atu a da Fu daç o Gü te Grass (2005), na Alemanha; prêmio do Público (2005), no Salão de Literatura Europeia, em Cognac, na França. Além de ter tido o romance A costa dos murmúrios adaptado para o cinema em 2004, por Margarida Cardoso.
Suas obras listadas em ordem de gênero e cronológica são, romances: O dia dos
prodígios (1980), O cais das merendas (1982), Notícia da cidade silvestre (1984), A costa dos murmúrios (1988), A última dona (1992), O Jardim sem limites (1995), O vale da paixão (1998) depois publicado, no Brasil, como A manta do soldado, O Vento assobiando nas gruas (2002), Combateremos a sombra (2007), A Noite das mulheres cantoras (2011); Contos: A instrumentalina (1992), O Conto do nadador (1992), Marido e outros Contos (1997), O belo adormecido (2004); Literatura Infantil: O grande voo do pardal (2007), Romance do grande gatão (2010); Ensaio: Contrato sentimental (2009);
Teatro: A Maçon (1997).
No e saio Lídia Jo ge: te it io da pai o e da es ita , José Luís Giovanoni Fornos afirma que a obra da escritora transita entre um Portugal rural pré- revolucionário e um Portugal pós-revolucionário perdido entre a tradição e a modernidade:
Os romances de Lídia Jorge são manifestações simbólicas e alegóricas de um Portugal em transformação. Os diferentes espaços – históricos, sociais e geográficos –, mediados pela escrita, carregam consigo a tensão das relações sócioafetivas, ensejando encontros ou desencontros familiares e amorosos (FORNOS, 2009, p. 69).
Para o crítico:
[...] a romancista escreve sob o signo das territorialidades identitárias em transição, testadas na experiência viva do cotidiano, trazida à consciência dos sujeitos através da memória e da palavra. Os conflitos entre permanência e mudança, pressionados pelo entrecruzamento político-cultural, presentes na sua narrativa, encerram-se em torno de marcos históricos que balizam o romance português contemporâneo: o salazarismo, a guerra colonial e a Revolução dos Cravos. Lídia Jorge apresenta-os sob olhares múltiplos, delegando, em mais de uma ocasião, à visão da mulher os dramas da nacionalidade, revistos com ironia e emoção (FORNOS, 2009, p. 70).
A narrativa de Lídia Jorge, por vezes, se reporta à revolução de 25 de abril, mesmo isso não estando explícito nos romances, como em O vento assobiando nas
gruas, pois a questão está implícita nos reflexos sociais e culturais representados na
obra. Boa parte dos estudos sobre a obra de Lídia Jorge circundam em torno da questão da identidade cultural e étnica, pautada num antigo país de raízes sólidas que se desestrutura após a revolução de 74. Com a imigração africana o bloco cultural português se fragmenta e o sujeito se perde em busca de sua identidade.
A escritora não cansa de afirmar, em suas entrevistas, que, mesmo sendo complexo trazer a realidade para a obra de arte, ela não consegue se eximir dessa prática, e reforça:
Fazer crônica do tempo que passa tem-me interessado, e não desdenho do juízo daqueles que dizem encontrar nas minhas páginas uma espécie de febre em testemunhar os factos. Não pretendo escapar a essa ligação perigosa com a realidade directa do social e do presente (JORGE. Apud. FERREIRA, 2009, p. 40).
O seu primeiro romance, O dia dos prodígios (1980), aborda o período revolucionário português e a descrença de um povo que confia mais na existência de uma cobra voadora do que nas mudanças que possam existir no país com o fim da ditadura. Notícia da cidade silvestre (1994), conta a história de Júlia Grey e sua busca por uma vida de verdade em um espaço desconectado como Portugal. O Cais das
merendas trata da busca da identidade e da aculturação de uma comunidade. A Costa dos murmúrios (1988) retrata o amor frustrado de Evita, que vai para Moçambique ao
encontro do noivo, e, em meio à guerra colonial com aquele país, se decepciona e questiona sua vida, seu noivo e Portugal. A Última dona (1992), romance de cunho mais intimista, versa sobre a busca de um casal em se conhecer e se encontrar no mundo fragmentado. O jardim sem limites (1995) aborda questões mais urbanas, em que jovens sem definição na vida, na cidade de Lisboa, se rodeiam em busca de si mesmos. A manta
do soldado (1998), ou O vale da paixão, traz uma família retrógrada que tenta manter a
todo custo e força a tradição familiar, metáfora para a tradição portuguesa, que se perde a olhos vistos. Combateremos a sombra (2007) versa sobre a irônica situação de um psicanalista e seus conflitos. A noite das mulheres cantoras (2011), último romance publicado por Lídia Jorge, aborda as questões da mídia e sua influência na realidade
contemporânea, mostrando uma história de amor unilateral e insólita devido à ingenuidade provocada pela cristalização da moral heterossexual. Dessa maneira, é reforçado, na obra de Lídia Jorge, o cunho engajado, no sentido de uma preocupação com questões caras ao homem contemporâneo, no entanto, como já foi posto, não se vê em seus textos qualquer tom apologético ou panfletário.