2.2 Small-scale batch experiments to assess nitrification capacity
2.2.1 Experimental set-up and analysis of batch experiment
Para um cético ou um ateu não parece haver grande dificuldade para detectar essa distinção precisa entre o que seja ficção e o que seja realidade. Mas existe um tipo de indivíduo, que é hoje predominante no mundo, que não consegue fazer de forma cabal essa distinção porque tende a misturar esses dois estados de percepção mental em determinados casos, considerando realidade o que está no campo da ficção. Isto é, tende a agregar à realidade uma ficção que foi criada dentro dele ou dentro de outros indivíduos eficientes nesse mister, para atender a reações emocionais específicas à sua misteriosa condição humana. Os crentes, com mais ênfase os fundamentalistas religiosos, acreditam que alguns fatos e entidades que claramente se situam no campo da ficção, pois não se manifestam como fenômenos empíricos, estão no campo da realidade.
Isso não quer dizer que o fundamentalista religioso seja um indivíduo totalmente ingênuo preparado para aceitar qualquer ficção como realidade, como ocorre com as crianças na fase inicial de suas vidas. Pois o crente religioso, como o cético ou o ateu, acredita também que as personagens criadas por escritores para o entretenimento, como Jean Valjean e Super-Homem, estão no campo da ficção e não da realidade e que foram criadas apenas para o prazer induzido artificialmente. Mas, diferenciando-se do cético e do ateu, ele tende a acreditar que aqueles determinados fatos e entidades, igualmente saídos da imaginação do homem, e igualmente direcionados para áreas do cérebro relacionadas a prazer e recompensa, não são ficção e sim realidade, mesmo sabendo que não são comprováveis empiricamente. Isso porque tais fatos e entidades, alocados em
mundos transcendentes que estariam além deste mundo físico, não têm o mesmo fim de causar-lhe o prazer momentâneo e fugaz da ficção-entretenimento, mas de responder- lhe às suas angústias existenciais mais profundas com respeito à sua inquietante posição na natureza como espécie animal.
Para aplacar tais angústias, as religiões se dispuseram a inventar deuses imortais que residiam em mundos perfeitos, que transcendiam nossa condição de seres mortais residindo em mundos imperfeitos. Nesse contexto Platão deu uma forte contribuição para a ideia de um mundo transcendente com o mito da caverna. Platão imaginou que existiria outro mundo além deste mundo físico que percebemos. O mundo físico que percebemos e no qual vivenciamos os fenômenos empíricos é um mundo em constante transformação (seres nascem e morrem) e é, portanto, apenas aparente e ilusório, não há fixidez da matéria. É apenas uma cópia de outro mundo, que não percebemos devido à nossa cegueira, um mundo que transcende este mundo aparente e que é o mundo real e inteligível, onde estão todas as ideias fixas e imutáveis que dão forma aos objetos mutáveis (em constante mudança) existentes neste mundo aparente em que vivemos. Platão inventa então uma metáfora, o mito da caverna, para explicar essa nossa posição de engano em relação a estes dois mundos distintos.
Segundo apresenta Platão (2000, p. 263-266), numa caverna estão imóveis, presos pelo pescoço e pelas pernas, desde a infância, alguns prisioneiros que estão fixa e eternamente voltados para a parede dos fundos da caverna na qual aparecem sombras dos objetos reais que desfilam fora da caverna. Os prisioneiros veem apenas essas sombras se movimentando na parede, as quais, para eles, constituem a realidade. Para Platão, somos como os prisioneiros da caverna: os fenômenos que percebemos no mundo físico não são a realidade, são apenas aparências, cópias ilusórias da realidade existente em outro mundo transcendente não perceptível pelos sentidos. É neste mundo transcendente e inteligível que estariam as ideias fixas e imutáveis, das quais os fenômenos e objetos passageiros e mutáveis que percebemos são apenas simulacros. Essa dicotomia mundo aparente/mundo real influenciou a tradição religiosa ocidental e percorreu também a historia da filosofia até a era moderna, através das teses, frequentemente conflituosas, da metafísica.
Na modernidade europeia, a metafísica clássica sofreu um duro golpe com as críticas de Hume (2004) e Kant (1999). Mas Kant limitou-se, na verdade, a uma severa discordância quanto à possibilidade de que a razão pudesse desvendar alguma coisa de um mundo transcendente. Ao restringir-se a essa crítica, Kant apenas refutava a hipótese
de que pudéssemos conhecer esse mundo transcendente, mas não negava a sua existência. No fundo, portanto, ele adaptava também a dicotomia platônica mundo
aparente/mundo real ao admitir que as coisas na natureza eram compostas pela
dicotomia fenômeno/coisa em si. Os fenômenos são as coisas que se apresentam a nós empiricamente como as percebemos, enquanto as coisas em si são as coisas ocultas que estão por trás desses fenômenos e que são suas causas, mas que jamais podemos conhecer. Para Kant, não era possível ter acesso à coisa em si pela razão, motivo pelo qual os filósofos deveriam abandonar qualquer estudo sobre a metafísica. Mas o fato de dizer que não era possível conhecer a coisa em si não queria dizer que a coisa em si não existisse. Logo, em Kant não havia um abandono total da existência de um mundo transcendente, o que gerou a Kant as críticas dos filósofos contemporâneos que o sucederam. A coisa em si foi, assim, historicamente, nada mais do que a última tentativa filosófica de estabelecer a existência de um mundo transcendente além do mundo natural que percebemos. 40
No entanto, os defensores das várias vertentes fundamentalistas, em seu estilo frequentemente dogmático e intolerante de conduzir suas reflexões, atribuem aos sistemas de crenças que defendem um valor de verdade universal e necessário, excludente, portanto, de outros sistemas de crenças.
O cético contempla esta estranha particularidade do fundamentalista em acreditar nesse tipo especial de ficção. Mas ambos, o cético e o fundamentalista, concordam plenamente que a ficção-entretenimento é apenas ficção destinada ao prazer humano induzido indiretamente, que Super-Homem, um ser dotado de superpoderes, é apenas uma personagem fictícia inventada para a diversão. Já a ficção particular em que ambos discordam quanto à sua natureza intrínseca, que o fundamentalista acredita ser realidade e o cético acredita ser também ficção (pois enquanto o cético acredita que Deus é um ser todo-poderoso criado pela imaginação tão fictício quanto Super-Homem, o fundamentalista acredita que seu Deus tem existência real, embora com poderes, de onisciência e onipotência, mais inacreditavelmente implausíveis do que os de Super- Homem) é a ficção a que chamaremos ficção-crença. Logo, a ficção-crença é a ficção que o fundamentalista religioso, em engano, se impõe a si mesmo como realidade, enquanto o cético avalia a ficção-crença como ficção tanto como a ficção presente na ficção-entretenimento.
Qual é o fator (ou fatores) que faz com que o fundamentalista religioso difira do cético e abrace a ficção-crença, considerando como realidade o que o cético vê apenas como ficção? Esse fator, esse algo a mais no fundamentalista religioso que o faz enganar-se quanto a um determinado tipo de ficção e o faz diferente do cético é o que tentamos investigar nos capítulos anteriores deste trabalho.
Determinamos inicialmente que esse fator parece ser primordialmente um impulso interior no fundamentalista religioso a que chamamos vontade de crer, que, por sua vez, deve ser movida por forças deliberativas que surgem dentro dele. Vimos depois mais esmiuçadamente algumas dessas forças deliberativas. Continuemos na investigação da distinção entre a ficção-entretenimento e a ficção-crença para ver se encontramos aquele algo a mais de Hume que defina tal distinção, conforme vimos no capitulo1.