a) Tipicamente, a compaixão é manifestada através do impulso de ajudar, confortar ou, de algum modo, aliviar ou reduzir o sofrimento de terceiros681. Desta maneira, é possível
classificá-la como uma emoção prossocial682, ou seja, um sentimento orientado para a
cooperação social.
Em termos faciais, a compaixão pode ser caracterizada pelas sobrancelhas oblíquas e franzidas, pelas pálpebras inferiores erguidas e pela boca levemente pressionada683. Ademais,
este sentimento também se distingue por outras expressões comunicativas não-verbais, como contato ocular com a pessoa em sofrimento, direcionamento do corpo e da cabeça a essa pessoa
678 Cf. ENGINEER, Ashgar Ali. The concept of compassion in Islam. In: Global Religious Vision, vol. 2, n. I-II, 2001, p. 12 e ss.
679 Cf. NUSSBAUM, Barbara. Ubuntu: Reflections of a South African on Our Common Humanity. In: Reflections, vol. 4, n. 4, 2003, p. 21 e ss.; igualmente, REDONNET, Jean-Claude. L’idée de réconciliation dans les sociétés multiculturelles du Commonwealth : Une question d’actualité ? In: Études anglaises, vol. 54, 2001, p. 484. 680 Cf. GOETZ, Jennifer L.; KELTNER, Dacher; SIMON-THOMAS, Emiliana. Compassion: An Evolutionary Analysis and Empirical Review. In: Psychological Bulletin, vol. 136, n. 3, 2010, p. 364 e ss.
681 HAIDT, Jonathan. The moral emotions. In: DAVIDSON, Richard J.; SCHERER, Klaus R.; GOLDSMITH, H. Hill (Eds.). Handbook of affective sciences. Oxford: Oxford University Press, 2003, p. 862.
682 Idem, ibidem, p. 862.
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e inclinação para a frente684. Observa-se, igualmente, uma tendência de uso do tato e uma
suavização da voz685.
b) A compaixão é deflagrada por situações em que terceiros se encontram em sofrimento686. Todavia, não basta uma mera aflição para eliciar este sentimento, sendo
necessária a ocorrência de uma situação associada a um sofrimento grave687, caso contrário
deflagra-se, ao invés, um certo sentimento de desdém688. Pode-se afirmar, assim, que um dos
requisitos para a compaixão é a aparência de gravidade ou seriedade do sofrimento689.
Deve-se ressaltar, neste contexto, a noção de aparência. Por vezes, o observador pode não perceber a gravidade da questão, vindo a menosprezar algo que, se tivesse todas as informações necessárias, consideraria relevante. Por exemplo, embora a perda de uma peça de roupa possa parecer, à primeira vista, banal, ela ganha relevância ao se saber que tal peça foi o último presente dado pela mãe falecida da pessoa que sofre.
Neste sentido, é relevante notar que a questão da aparência acaba por demonstrar e esclarecer o papel instrumental fundamental atribuído à razão no tema das emoções: ao conferir meios para a elucidação dos dados que, de alguma forma, guardam alguma conexão com a questão analisada, a razão fornece elementos capazes de instruir a formação de um juízo de valor completo e adequado sobre o caso690.
Todavia, nem todo sofrimento profundo é capaz de eliciar a compaixão. Para tanto, é preciso ainda que o mal acometido não pareça ter sido causado pela própria vítima, ou seja, que o mal não pareça ser merecido691. Contudo, como se verá, quanto maior a percepção da
684 GOETZ, Jennifer L.; KELTNER, Dacher; SIMON-THOMAS, Emiliana. Compassion: An Evolutionary Analysis and Empirical Review. In: Psychological Bulletin, vol. 136, n. 3, 2010, p. 359 e ss.
685 Idem, ibidem, p. 359 e ss.
686 ARISTÓTELES. Retórica. 2. ed. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2005, p. 184; CASSELL, Eric J. Compassion. In: LOPEZ, Shane J.; SNYDER, C.R. Snyder. Handbook of Positive Psychology. Nova York: Oxford University Press, 2002, p. 435; HAIDT, Jonathan. The moral emotions. In: DAVIDSON, Richard J.; SCHERER, Klaus R.; GOLDSMITH, H. Hill (Eds.). Handbook of affective sciences. Oxford: Oxford University Press, 2003, p. 862; NUSSBAUM, Martha. Compassion: The Basic Social Emotion. In: Social Philosophy and Policy, vol. 13, n. 1, 1996, p. 31.
687 ARISTÓTELES. Op. cit., p. 184; CASSELL, Eric J. Op. cit., p. 435; NUSSBAUM, Martha. Op. cit., p. 31 e ss.
688 Martha Nussbaum, embora não defina o nome do sentimento, traz o exemplo da emoção sentida por Sêneca, que ri diante do infortúnio de um aristocrata romano que teme o insucesso de um jantar organizado por ele. Cf. NUSSBAUM, Martha. Op. cit., p. 32.
689 CASSELL, Eric J. Op. cit., p. 435; e NUSSBAUM, Martha. Op. cit., p. 31 e ss.
690 HUME, David. An enquiry concerning the principles of morals. Londres: A. Millar, 1751, p. 199.
691 ARISTÓTELES. Op. cit., p. 184 e ss; CASSELL, Eric J. Op. cit., p. 435; GOETZ, Jennifer L.; KELTNER, Dacher; SIMON-THOMAS, Emiliana. Op. cit., p. 358; NUSSBAUM, Martha. Op. cit., p. 33.
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condição humana de imperfeição, maior parece ser a capacidade de se sentir compaixão perante as pessoas vítimas de suas próprias falhas692.
Por fim, parece ser necessário que esse mal profundo e não merecido seja causado a alguém com quem se tenha alguma forma de conexão693, ou seja, uma identificação compassiva.
Trata-se do que pode ser chamado de percepção de possibilidades similares694, que parece estar
fundada nas habilidades de compartilhamento emocional humanas695.
Pode-se argumentar que essa percepção não consiste num requisito essencial à compaixão, haja vista que seria possível senti-la em relação a animais, por exemplo, bem como também se fala da compaixão de entes divinos696. Parece, todavia, que essa argumentação se
funda na confusão de conceitos entre compaixão e piedade, haja vista que, na relação entre seres humanos e animais ou entre divindades e seres humanos, há uma desigualdade e certa condescendência que caracterizam justamente a piedade697-698.
c) Há três caminhos para se estabelecer o requisito da identificação compassiva. O primeiro diz respeito ao reconhecimento de uma igual submissão a um conjunto de normas sociais num nível mais profundo do que o Direito e a etiqueta699. Ou seja, trata-se do
pertencimento a uma mesma cultura. A partir desse reconhecimento, o indivíduo passa perceber o compartilhamento de uma humanidade similar no outro700.
O alicerce desse mecanismo, porém, parece ser não a empatia, mas, sim, a simpatia701.
Assim, essa compaixão simpática acaba por ser promovida somente entre grupos sociais relativamente coesos.
692 CASSELL, Eric J. Compassion. In: LOPEZ, Shane J.; SNYDER, C.R. Snyder. Handbook of Positive Psychology. Nova York: Oxford University Press, 2002, p. 438.
693 ARISTÓTELES. Retórica. 2. ed. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2005, p. 184 e ss.; CASSELL, Eric J. Op. cit., p. 436 e ss.; NUSSBAUM, Martha. Compassion: The Basic Social Emotion. In: Social Philosophy and Policy, vol. 13, n. 1, 1996, p. 33 e ss; ROUSSEAU, Jean-Jacques. Émile, ou De l’éducation. Paris: Librairie de Firmin Didot Frères, 1854, p. 256 e ss.
694 NUSSBAUM, Martha. Op. cit., p. 33 e ss. 695 Cf. item “b” do tópico 2.4.1.1.
696 Idem. Upheavals of Thought: the intelligence of emotions. Nova York: Cambridge University Press, 2001, p. 317 e ss.
697 RÍO VILLEGAS, Rafael del. Benevolencia y Compassión. In: Cuadernos de Bioética, vol. XXV, 2014, p. 101. 698 Cf. item “b” do tópico 2.4.1.1.
699 CASSELL, Eric J. Op. cit., p. 436 e ss. 700 Idem, ibidem, p. 437.
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Deste modo, em virtude de sua origem, pode-se constatar uma dificuldade de deflagração, através da via cultural, da compaixão entre culturas cuja discrepância entre si atinja um nível radical, o que limitaria a universalidade de aplicação da compaixão.
O segundo caminho, no entanto, ao se pautar na empatia, parece permitir essa universalização da identificação entre as pessoas. Na via empática, a humanidade do outro é percebida a partir do reconhecimento de um plano espiritual – que pode ser concebido sob uma perspectiva religiosa ou secular702 –, que integraria todos os seres humanos.
Entretanto, ainda que se conceba esse plano espiritual de modo secular, ele parece requerer o acolhimento de uma perspectiva filosófica específica e não compartilhada por todos. Assim, se houvesse somente essas duas fontes de identificação, a compaixão provavelmente não seria um sentimento tão universalizável e também haveria uma maior dificuldade de justificação de um estímulo estatal a ela.
Afinal, ou se trataria de uma compaixão simpática – com todos os problemas decorrentes de seu viés703 –, ou, então, consistiria numa compaixão empática de difícil aplicação
ampla, por estar fundada numa concepção filosófica ou religiosa muito específica.
Contudo, um terceiro caminho, que pode ser chamado de via do conhecimento ou via empática secular em sentido estrito, parece resolver essa questão. Através dele, a identificação entre pessoas surge pela compreensão da fragilidade e imperfeição do ser humano704.
A partir do reconhecimento da falibilidade humana, o indivíduo observador acaba por constatar a possibilidade de falhas similares ocorrerem a si mesmo, o que possibilita um sentimento de compaixão empática mesmo em relação a indivíduos que tenham causado seu próprio infortúnio705. Parece, inclusive, ser essa fonte que permite a deflagração do sentimento
de compaixão perante indivíduos culpáveis e criminosos, criando uma tendência de diminuição do ímpeto punitivo706.
Percebe-se, então, uma conexão universalizável e secular entre a compaixão e o humanismo707 – e, por conseguinte, com a ideia de dignidade humana –, pautada pela empatia
702 Cf. a apresentação da visão de Hegel, secular, e de John Donne, religiosa, em CASSELL, Eric J. Compassion. In: LOPEZ, Shane J.; SNYDER, C.R. Snyder. Handbook of Positive Psychology. Nova York: Oxford University Press, 2002, p. 437.
703 Cf. itens “b”, “c” e “d” do tópico 2.4.1.1. 704 CASSELL, Eric J. Op. cit., p. 437 e ss. 705 Idem, ibidem, p. 438.
706 GOETZ, Jennifer L.; KELTNER, Dacher; SIMON-THOMAS, Emiliana. Compassion: An Evolutionary Analysis and Empirical Review. In: Psychological Bulletin, vol. 136, n. 3, 2010, p. 366.
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e que pode ser estimulada através da promoção do conhecimento sobre o ser humano e suas imperfeições.
d) Por outro lado, e corroborando com a tese de que a identificação é um requisito para a compaixão, a sua ausência se mostra capaz de fazer esse sentimento desaparecer ou não ser deflagrado708.
Neste contexto, a ausência da compaixão nas ações humanas coletivas acaba por estar associada a episódios históricos marcados por grandes violações da dignidade humana, como o nazismo, o massacre de indígenas por colonizadores europeus e brutalidades cometidas no curso de guerras tribais africanas709.
e) É possível, também, observar uma conexão entre a compaixão e outros sentimentos, em especial, certas as emoções reativas de condenação. Ademais, para além de uma tendência a uma ação orientada para a diminuição de violações individuais – que, estão associadas à raiva710-711 –, outros estudos apontam que a atuação da compaixão é mais ampla.
Neste sentido, a compaixão está associada, também, ao sofrimento advindo da violação de outros domínios éticos712, o que permite que ela seja deflagrada ao se perceber transgressões
da liberdade individual, valores sociais e certos aspectos da ordem natural713. Pode-se dizer,
então, que a atuação da compaixão nos diferentes domínios éticos possibilita, de certa forma, um campo de diálogo entre eles.
708 CASSELL, Eric J. Compassion. In: LOPEZ, Shane J.; SNYDER, C.R. Snyder. Handbook of Positive Psychology. Nova York: Oxford University Press, 2002, p. 438 e ss.
709 Idem, ibidem, p. 438.
710 ROZIN, Paul et al. The CAD Triad Hypothesis: A Mapping Between Three Moral Emotions (Contempt, Anger, Disgust) and Three Moral Codes (Community, Autonomy, Divinity). In: Journal of Personality and Social Psychology, vol. 76, n. 4, 1999, p. 574 e ss.
711 Cf. item “d” do tópico 3.2.
712 Cf. SHWEDER, Richard A. et al. The “Big Three” of Morality (Autonomy, Community, Divinity) and the “Big Three” Explanations of Suffering. In: BRANDT, Allan M.; ROZIN, Paul (Eds.). Morality and Health. Nova York: Routledge, 1997, p. 130 e ss.
713 GOETZ, Jennifer L.; KELTNER, Dacher; SIMON-THOMAS, Emiliana. Compassion: An Evolutionary Analysis and Empirical Review. In: Psychological Bulletin, vol. 136, n. 3, 2010, p. 366 e ss.
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f) A partir dessas características, incluindo a vinculação entre a compaixão e a dignidade humana – observada tanto na presença dessa emoção quanto na sua ausência –, é possível esboçar uma análise de suas funções no decorrer do processo evolutivo.
Considerando que a compaixão enseja a busca pela redução do sofrimento dos similares, pode-se afirmar que este sentimento exerceu um papel crucial no estabelecimento de comunidades e sociedades capazes de promover uma maior proteção de seus membros em relação a grupos mais egoístas, contribuindo para a sobrevivência das sociedades dotadas de mais compaixão714.
Ao se examinar esse papel no processo de seleção natural, é possível observar duas vantagens evolutivas oferecidas pela compaixão: uma maior proteção da prole e uma maior capacidade de estabelecer vínculos de cooperação com outras comunidades715.
Tais funções demonstram a relevância da compaixão no desenvolvimento de um modelo de sociedade que se importa com as necessidades de seus indivíduos e que mantém uma relação pacífica e cooperativa com outros grupos. Pode-se afirmar, neste contexto, que a compaixão atua como protetora da dignidade dos indivíduos membros das comunidades humanas – bem como das outras pessoas que com eles se relacionavam – diante de situações de sofrimento, mitigando-as.
g) Esta característica de proteção da dignidade, no entanto, às vezes é vista como um insulto à capacidade da pessoa de se proteger por si mesma, o que, paradoxalmente, afetaria a sua dignidade, na medida em que se lhe atribuiria uma pretensa dependência em relação à bondade de terceiros716. Por conseguinte, essa indignidade seria igualmente atribuída ao próprio
agente da compaixão, em virtude da percepção das possibilidades similares717.
Tal visão, no entanto, parece advir da confusão entre a compaixão e a piedade, que, como visto, está associada a esse senso de superioridade em relação ao seu objeto718-719. Porém,
ainda que não se considerasse a distinção entre as duas emoções, parece que a tese de que a
714 DARWIN, Charles. The descent of man, and selection in relation to sex, vol. I. Nova York: D. Appleton and Company, 1871, p. 78 e ss.
715 GOETZ, Jennifer L.; KELTNER, Dacher; SIMON-THOMAS, Emiliana. Compassion: An Evolutionary Analysis and Empirical Review. In: Psychological Bulletin, vol. 136, n. 3, 2010, p. 354 e ss.
716 KANT, Immanuel. The Metaphysics of Morals. Cambridge: Cambridge University Press, 1996, p. 205. 717 NUSSBAUM, Martha. Compassion: The Basic Social Emotion. In: Social Philosophy and Policy, vol. 13, n. 1, 1996, p. 42.
718 RÍO VILLEGAS, Rafael del. Benevolencia y Compassión. In: Cuadernos de Bioética, vol. XXV, 2014, p. 101. 719 Cf. item “b” do tópico 2.4.1.1.
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compaixão conduz à indignidade das pessoas se funda numa lógica de tudo ou nada – em que a dignidade é completamente incompatível com a consternação advinda do reconhecimento das circunstâncias difíceis em que a pessoa se encontra –, sendo que não parece haver óbices à conciliação de ambos720.