Beyond the Standard Model
4.1 Experimental issues with the Standard Model
estratégias anteriores (com exceção, talvez, das teorias de Spykman), tornando divisível o poder mundial, rediscutido em termos de equilíbrio. População, comércio e ideologia passam a ser hipóteses geoestratégicas, cenário da Guerra Fria. As fronteiras geoestratégicas são rígidas, dividindo, inclusive, países (Alemanha e Coréia).
Embora sejam raciocínios que causam estranhamento nos dias correntes, (afinal, parecem mesmo argumentos mirabolantes de certo cinema do entretenimento de massa, principalmente as primeiras propostas), foram bases de projetos e agenciamento de Estados dominantes, respondendo por muitos decursos da História do século XX. Além disso, demonstram como foi colocada a articulação território/poder para uma visão do Estado.
Conforme a análise de Vesentini (2000, p. 16), a Geopolítica expandiu porque encontrou
[...] no cenário mundial da primeira metade do século XX um solo fértil para crescer. A ordem mundial multipolar que vigorou desde o final do século XIX
até a Segunda Guerra Mundial propiciava um clima de pré-guerra entre as grandes potências do período, com acirradas disputas por território, mercados e recursos na África, na Ásia e até na Europa.
Todavia, os pressupostos fundamentais da Geopolítica clássica se esgotaram e entraram em crise após a Segunda Guerra Mundial. No mundo acadêmico, era ignorada ou mal vista, pois o nazi-fascismo e o expansionismo dos derrotados no conflito (Alemanha, Itália e Japão), nos anos anteriores, haviam sido identificados e orientados pelo pensamento e pelos procedimentos geopolíticos, o que é discutível, como se registrou. Acrescente-se: um exílio da universidade, pois nos departamentos de Estado, militares, inclusive, em países como Brasil e Argentina, o desenvolvimento da Geopolítica não foi perturbado. As políticas territoriais brasileiras são exemplo dessa continuidade, da construção de Brasília ao projeto da Transamazônica. No restante do mundo, “[...] os pensadores que teorizavam sobre o equilíbrio do mundo ou regional de forças [...] eram considerados (e consideravam-se) como estrategistas militares, [...] cientistas políticos, geógrafos ou sociólogos [...]” (VESENTINI, 2000, p. 25), raramente geopolíticos.
Na França, contudo, no segundo lustro dos anos 1970, e no interior da Geografia, Yves Lacoste publicou A Geografia, isso serve, em primeiro lugar, para fazer a guerra e reuniu um grupo em torno da revista Heródote, retomando a Geopolítica em um viés crítico, integrado à Geografia. Esse gesto irrompeu, de um lado, do período crísico da Geografia naquele momento e, por outro, da análise da realidade vivenciada então, desde a belicosidade do período (Guerra Fria, Guerra do Vietnã, corrida armamentista) até os movimentos sociais, os movimentos políticos que instauravam uma nova ordem mundial.
Os fundamentos teórico-metodológicos da Geopolítica clássica não foram retomados; eram outros os tempos, nos quais se processavam uma globalização político-econômica, uma re-orientação do Estado (dito enfraquecido), as revolucionárias contribuições técnicas. Mesmo a concepção do que seria uma potência mundial se transformara – no tempo clássico, a potência do Estado resolvia-se em quantidades (de efetivos, de extensão territorial etc.) em vez de domínio de técnicas, qualificação da população e industrialização, e assim por diante (VESENTINI, 2000).
A Geopolítica, em sua concepção atual, estuda as relações entre as práticas de poder e o espaço geográfico (BECKER, 2000). O sentido desse poder toma uma acepção aberta: “[...] poder implica em dominação, via Estado ou não, em relações de assimetria enfim, que podem ser culturais, sexuais, econômicas, repressivas e/ou militares, etc. [...]” (VESENTINI, 2005, f. 3), o que pressupõe a Geopolítica contemporânea, ademais, como um campo interdisciplinar. Nesse sentido, é difícil diferenciá-la da Geografia Política, daí a opção desta pesquisa chamar o campo de ambas de discurso político, reafirmada diversas vezes.
Se, na Geopolítica clássica, a estratégia era o plano e a ação sobre o território, na Geopolítica contemporânea, a logística científico-tecnológica impõe uma nova racionalidade: uma lógica instrumental que, na razão da produção econômica, assume controles antes reservados ao poder dos Estados, introduz/mantém diferenças profundas entre os territórios, cria um zoneamento do espaço – trata-se de uma reorganização econômica e tecnológica, que Becker (2000, p. 289) denomina “reestruturação tecnoeconômica”.
Conforme Becker (2000), a Geopolítica contemporânea tem um novo desafio: o desenvolvimento sustentável em face de implicações ambientais do modo de vivência e produção material vigente, já que as questões ambientais da atualidade impõem uma nova relação sociedade-natureza. É uma tendência, nesse sentido, uma cooperação internacional (ou o esforço para a implementação de uma), principalmente por meio dos movimentos ambientalistas. Haveria a procura por uma nova lógica econômica do capital, com base em uma lógica cultural, sendo este um dos contextos geopolíticos que enfoca o território nacional e as relações norte-sul. A questão tecno(eco)lógica estaria posta:
As novas tecnologias alteram a noção de valor até então associada a bens obtidos através do trabalho e a natureza passa a ser vista como capital de realização futura. A apropriação de territórios e ambientes como reserva de valor, isto é, sem uso produtivo imediato, é uma forma de controlar o capital natural para o futuro, sobretudo o controle de biodiversidade, na medida em que é a fonte de conhecimento dos seres vivos, o que vale dizer, fonte de poder (BECKER, 2000, p. 293).
Becker sistematiza três desdobramentos que contextualizam essa perspectiva na Geopolítica: a “consciência ecológica”, enquanto preocupação de fato com a incidência crísica do meio ambiente, nascida na evidência de que não é
possível ao homem dominar inteiramente a natureza, que passa a ser vista em sua complexidade planetária; a “utopia ecológica” como mediação resultante de um duplo fracasso: o do progresso capitalista e o do socialismo real, o que fortalece o vetor ecológico; a “ideologia ecológica”, que perpassa os acordos políticos e econômicos das nações. No entrecruzamento dessas seqüências, a natureza se transforma em moeda, constando dos acordos conseqüências territoriais: “[...] controle de reservas de natureza e retirada de porções dos territórios nacionais do circuito produtivo” (BECKER, 2000, p. 295): um questionável desenvolvimento sustentável (que não é, enfim, nenhum consenso) entra em pauta. A análise de Becker enquadra-se nas novas práticas da Geopolítica e na nova percepção do Estado: externamente, o poderio econômico ataca a autonomia do Estado; internamente, o Estado é afetado pelo separatismo e pela pressão de novos focos de poder. Questões tais atingem o Estado, mas não o anulam: o Estado passa a lidar com o poder de nacionalismos, regionalismos, ONGs, movimentos sociais globais. Contudo, reforça Becker (2000, p. 298), os únicos movimentos sociais bem sucedidos foram aqueles dos ambientalistas: “Trata-se, portanto, não do fim do Estado, mas de uma mudança em sua natureza, e seu papel, entendendo-se que ele não é uma forma acabada, é um processo”. É o encontro das novas formas de produção e dos movimentos que reivindicam autonomia com a flexibilidade política do Estado e as condições de competição decorrentes: “A estratégia de modernização dos aparatos institucionais da ideologia liberal que inclui como componentes centrais a desburocratização expressa e induz essa transformação” (BECKER, 2000, p. 298).
Não sendo o fim do Estado, é o fim de seu monopólio do poder e do político. A participação da sociedade civil é crescente.
Sobre a questão da hegemonia mundial, o mundo atual é um mapa de indefinições e possibilidades em muitos lugares. Há uma nova estrutura centro- periferia, que coloca em relevo as desigualdades entre centro e periferia: ter um território não significa tomá-lo; há formas negociáveis de materializar a influência e o usufruto dos recursos espaciais.
Portanto, “o Estado certamente não é a unidade única representativa do político nem o território nacional a única escala de poder” (BECKER, 2000, p. 303), o
poder tecnoeconômico desfaz parte da autonomia estatal, e outras esferas promovem essa partilha, embora ainda incipientes, à exceção dos movimentos ambientais.
4.3 – Objeto geográfico e geograficidade: a questão da cientificidade e da ideologia no discurso geográfico
As críticas de Yves Lacoste à crise da Geografia abrangem o aspecto pelo qual a Geografia, inclusive como matéria escolar, é uma disciplina para a memória, não para a compreensão. Por isso mesmo, em sua acepção moderna (tradicional), caracterizou-se como um discurso multidisciplinar, porém com uma lenta discussão epistemológica:
[...] o sincretismo geográfico não é criticado globalmente enquanto tal, em nome de princípios epistemológicos de base; a desprezível indiferença dos filósofos em relação à geografia confere-lhe, de fato, uma espécie de imunidade que reforça seu estatuto de saber institucionalizado pela Escola e pela Universidade (LACOSTE, 1981, p. 222).
Paralelamente, a Geografia tradicional manteve-se neutra epistemologicamente, mesmo quando se propôs a seccionar as tendências científicas naturais e sociais para elaborar uma síntese da relação homem-natureza: “é significativo constatar que os geógrafos poderiam muito bem afirmar-se na encruzilhada de três conjuntos de saber: o das ciências da matéria, o das ciências da vida e o das ciências sociais. Contudo, eles se referem implicitamente a esta dicotomia filosófica [...]” (LACOSTE, 1981, p. 224).
Há um silêncio em torno da Geografia, apesar da proposta geográfica tocar na organização das ciências. No interior da Geografia, haveria uma tendência de especialização separatista: Geografia Humana x Geografia Física, inclusive sugerindo tendências para as geografias nacionais. Mesmo pretendendo o estudo das mencionadas interações, os geógrafos tradicionais recusavam-se a abordar certos temas, como o “meio ambiente” e a “poluição”, e se dedicam a
especializações indiretas, como as estruturas geológicas. Outro corte tradicional concerniu à Geografia Regional x Geografia Universal, expondo outras fragmentações.
Vê-se, portanto, algumas das razões pelas quais, nos anos 1970, e início dos anos 1980, um conjunto importante de profissionais da Geografia questionou seu discurso ao identificar suas tendências e ao confrontá-las em um período de crises que, reconhecidamente, acentuavam-se nos diversos âmbitos do saber e do fazer humanos.
No caso da Geografia brasileira, a partir do segundo lustro dos anos 1970, eclodem movimentos de renovação do pensamento e das práticas dos profissionais desta ciência. Para isso, foram relevantes as contribuições de Yves Lacoste (2002), em obra publicada originalmente em 1976 e ampliada em 1985, por ocasião da terceira edição francesa46, e de Milton Santos (1996), obras já mencionadas nesta pesquisa. O primeiro promoveu uma noção de geograficidade como unidade da Geografia, ao passo que o segundo procurou reafirmar a unidade e a autonomia da Geografia em termos de uma cientificidade em torno do debate de um objeto da Geografia. As implicações destes gestos resultam em uma dimensão formal em Santos e em uma dimensão ideológica em Lacoste.
Milton Santos ressalta a necessidade, no entretexto da interdisciplinaridade em Geografia, de uma definição do objeto geográfico, a partir da qual se estabeleceria o interesse analítico da Geografia. Na ausência de um objeto claro para a Geografia, Santos (1996, p. 111) argumenta que "[...] ao invés de buscarmos a compreensão de um aspecto da realidade [...], por intermédio de uma disciplina particular, o que estamos buscando é muito mais a compreensão do todo pelo todo" (SANTOS, 1996, p. 111). Santos reafirma o espaço humano, "a morada do homem", como o objeto da Geografia, "[...] tal como ele se apresenta, como um produto histórico [...]" (SANTOS, 1996, p. 111).
46 Dois anos depois da edição original, em 1978, em um encontro nacional de geógrafos ocorrido em
Fortaleza, distribuiu-se, por debaixo do pano, uma tradução pirata deste livro, em um momento em que o debate de renovação da Geografia ganhava maiores proporções.
Yves Lacoste, embora faça referência, diversas vezes, ao termo objeto geográfico, tem uma perspectiva diferenciada daquela assumida por Santos (1996). Entretanto, ambos se empenham em refletir, de maneira renovadora, a respeito da teoria e da metodologia geográfica no contexto de sua crise, em fins do século XX, apesar de suas matrizes de pensamento divergirem em alguns sentidos, sendo o principal deles a ênfase na preocupação científico-dialética de Santos (o que justifica a relevância dada por ele a conceitos como objeto, categorias, sistema, forma, dentre outros), enquanto Lacoste enfatiza um outro aspecto, não menos importante: o ideológico (notado na discussão crítica que empreende conceitos há muito escamoteados em Geografia, tais como poder, político, território, discurso, bem como a utilidade desse saber).
Como referido acima, Lacoste não se apropria do interesse geográfico em termos de objeto, que, em Santos, para a Geografia, é o espaço do homem; este último coloca-se implicitamente, em sua obra, no conceito de geograficidade, que é o conjunto das relações humanas com a natureza, assim como as relações intra- sociais em qualquer instância de sua ocorrência:
O que é geográfico e o que não é? Eis aí uma questão essencial, embora ela esteja implícita nas reflexões da maioria dos geógrafos. Bem mais, aqueles que estão em posição de poder na corporação não hesitam em brandir o argumento “Isso não é geografia!” para recusar os propósitos que lhes desagradam (aliás, sem saber bem por quê) e sancionar aqueles que o sustentam. Mas quais são os critérios da geograficidade? Eu proponho este termo que, para muitos, parecerá bizarro, em paralelo ao de historicidade, do qual hoje se faz um uso corrente. Desde o século XIX e sobretudo há alguns decênios, os historiadores foram percebendo, pouco a pouco, que era interessante ou necessário levar em consideração categorias de fenômenos cada vez mais numerosas, que seus predecessores haviam negligenciado ou afastado, não as julgando dignas de serem vistas e de fazer parte da história (LACOSTE, 2002, p. 113).
De acordo com o autor, a postura dos geógrafos, historicamente, era contrária a dos historiadores: pretendiam abarcar tudo, embora suas concepções geográficas, no interior do todo, restringissem diversos fenômenos que articulam uma realidade geográfica. E aí o político e a política são unicamente detalhes. A propósito desta restrição, por exemplo, Lacoste empreende uma revisão das contribuições de Paul Vidal de La Blache, por meio de sua última obra, conforme afirmado anteriormente.
Em vista disso, pode-se dizer que, em Santos, o sentido de unidade da Geografia é um "ponto conceitual", a partir do qual centrifugam o estudo
epistemológico e metodológico desta ciência – o que não deixa de ter o efeito de cercear limites ao que é e ao que não é, propriamente, geográfico. Portanto, objeto. Em Lacoste, o sentido de unidade da Geografia pode ser concebido como uma circunscrição, uma margem que reúne os fatos em análise não na intenção delimitativa, mas na de "visão conceitual" do geógrafo, bem próprio à investigação crítica e política. Geograficidade, portanto.
Observando as linhas de investigação e de produção da Geografia que, na origem, se vinculam a estas duas vertentes, ver-se-á que a afirmação de uma Geografia plena em seu objeto, centra-se na análise dos objetos espaciais e dos processos que se articulam em torno deles. A consideração de uma geograficidade abre-se ao que nunca ou raramente poderia ser materialidade de pesquisa do geógrafo; aí se poderia incluir a literatura, as obras de arte, a música, o falar do sujeito, a linguagem, as práticas religiosas e assim por diante.
Esse nível de discussão participa da organização da pesquisa científica, o que justifica sua presença nessa análise. Objeto, geograficidade e interdisciplinaridade são precedentes para a investigação do conceito de espaço geográfico e outros conceitos espaciais.
Lacoste (2002), a propósito, observa que a “Geografia dos Estados- maiores” e a “Geografia dos Professores” situam-se no fato de que a primeira reconhece, assimila e camufla o espaço geográfico como instância de poder e dominação, pois lhe é útil “[...] a importância estratégica dos raciocínios centrados no espaço” (LACOSTE, 2002, p. 31), ao passo que a segunda, por adequação às épistémès da ciência moderna47, endossa uma prática geográfica que “[...] dissimula, aos olhos da maioria, a eficácia dos instrumentos de poder que são as análises espaciais” (LACOSTE, 2002, p. 31).
Perfazendo esta abordagem, Lacoste observou que o motivo das diversas vertentes geográficas estabelecia-se na camuflagem do poder e da estratégia inerente às relações espaciais, ou na valorização e retenção desses. Havia nessa ordem, portanto, uma instância ideológica coadunada em anular o político, cujos resultados eram claramente discerníveis tanto nos conflitos bélicos, quanto em
47 Subtenda-se: epistemologia positivista, concordante com um modelo paradigmático em que objetos
outras esferas, e a esse propósito menciona a Guerra do Vietnã, o ensino de Geografia, a mídia.
A reação à Geografia tradicional desencadeou, e desencadeia, análises ideológicas e políticas até então desconsideradas, regra geral. Interessam à(s) Geografia(s) crítica(s) a desigualdade de classe, de distribuição de renda, as vivências e representações espaciais, a qualidade de vida da população, os impactos ambientais, enfim, toda uma ordem de questões com as quais o discurso geográfico se confronta. Há, cada vez mais, uma aproximação do sujeito, camuflada muito tempo, na Geografia, pela abstração desse sujeito em indivíduo integrante, e apenas integrante, de uma relação quantificável da realidade.
No exame da práxis geográfica, vêem-se as rupturas e as superfícies crísicas que re-orientam seu movimento construtivo. Todavia, a interpenetração dessas tendências são correspondências instituintes dos limites de uma geograficidade. Essas tendências, mesmo quando minimamente distinguidas pelos profissionais da Geografia, também são encontradas na produção de livros didáticos (e se está falando, inclusive, dos corpora desta pesquisa) para a inovação do enfoque geográfico no ensino dessa matéria.
4.4 – Ciência e ensino de Geografia: termos de uma relação quanto ao político e à política
As relações entre ensino e academia, para a Geografia, são importantes. A esse respeito, Vesentini (2001a) demonstra como Paul Vidal de La Blache e Aroldo de Azevedo começaram suas carreiras como autores de livros didáticos, e tiveram importância no destino das Geografias acadêmicas das quais participaram, a francesa e a brasileira, respectivamente. Comparando-se, por exemplo, teses e artigos dos anos 1940 e 1950, com a produção de manuais didáticos para o Ensino Médio, verifica-se correspondência dos conceitos e desenvolvimentos, com variação
apenas dos detalhes e do nível de generalização: teses e artigos mais específicos e livros didáticos mais gerais (VESENTNI, 2001a).
Todavia, ciência e ensino tradicionais de Geografia produziram discursos apolíticos, tendo sido esta a motivação inicial do movimento de crítica posterior ao final dos anos 1970. No Capítulo 3, demonstrou-se a concepção da Geografia tradicional no contexto dos livros didáticos da disciplina. A Geografia tradicional preocupou-se em demasia com os estudos regionais e, de acordo com as acepções positivistas, fez sua prática assepticamente, neutralizando sua enunciação do político, de forma que sua explicação do espaço tendeu ao objetivo e ao quantitativo. No entanto, sua prática política (pois como ser isento de uma?) tinha a direção de um ensino do nacional-patriótico. Na Geografia tradicional, a despeito de sua natureza, havia vozes que faziam oposição ao discurso dominante, não só quanto à ciência, mas também sobre o ensino de Geografia: é o caso de Elisée Reclus (1830- 1905) e Piotr Kropotkin (1842-1921), que foram marginalizados pela academia porque suas análises não subsidiavam um ensino patriótico.
O ser humano, nessa proposta, foi desvirtuado das relações sociais, do processo histórico, assemelhando-se, em sua produção, a um retrato no qual tudo está onde deve estar, cristalizado em um presente que valorizou muito o passado e as perspectivas futuras: um efeito ideológico, pois o saber geográfico, essencialmente, serve de muitas maneiras ao poder. Essa visão reproduziu-se em um ensino árido das paisagens, didaticamente assegurado pela descrição e memorização, de início, partindo para uma exposição mais dinâmica em seguida, mas presos ainda, os seus sujeitos, a um espaço social compartimentado. Tal objetividade garantiu apenas uma certa compreensão de elementos (mais ou menos passivos) do espaço terrestre. Essa análise neutra da realidade delineou uma clara estrutura do saber: um quadro da natureza, um quadro da economia e um quadro da população, isto é, recursos naturais, a transformação desses recursos mediante o trabalho, ocupação territorial – um plano de vôo que vê os problemas, os conflitos, as contradições e os confrontos à distância e que, por isso, pouco se preocupa com eles. Símbolo de um engajamento capaz de comprometer o fazer científico e o fazer social da educação, o político, nestes termos, constituiu um tabu, interditado no discurso da Geografia.
O que veio depois, a partir de fins do século XX, não foi uma panacéia. O que há é o reconhecimento de que os paradigmas tradicionais não comportam a dinâmica espacial do mundo atual, e o mais é a grande re-construção de um mundo novo, e sua compreensão.
Pereira (1989), procurando o porque do discurso apolítico da escola e dos