Será que não estaria nos quadrinhos, nas charges e nos cartuns, repletos de imagens simbólicas e inusitadas, os atributos de leveza e visibilidade propostas por CALVINO (1990)? Leveza que implica em um raciocínio marcado por grande sutileza e alto grau de abstração e visibiliade que evoca processos imaginários rebuscados. Embora o enfoque seja prioritariamente lingüístico, o autor transita em regiões limítrofes do uso da palavra, pois reconhece que a preponderância da sugestão verbal sobre a palavra propriamene dita, em algumas invenções literárias. Calvino trata, aqui, de um uso peculiar do código lingüístico caracterizado por uma proposital economia de palavras carregadas de alta densidade de sentidos. É justamente isso que ocorre com a charge, por exemplo, que apresenta alto grau de síntese no tratamento do fato jornalístico, já que frequentemente compõe-se de uma única imagem, muitas vezes sem nenhum código lingüístico presente.
Evitar uma polarização entre palavras e imagens, carregada de um certo maniqueísmo, entretanto, parece ser o caminho mais produtivo. Longe da simplificação, exagerada e igualmente redutora, do famoso provérbio que afirma que “uma imagem vale mais que mil palavras”. E uma palavra não evoca milhares de imagens?
Calvino, marcado positivamente pela leitura imagética dos quadrinhos na infância, propõe uma “pedagogia da imaginação” que, implicitamente, inclui imagens que geram palavras geradoras de imagens. Em decorrência, a riqueza do texto de humor gráfico e a importância de sua contribuição na formação do leitor reside na sua própria substância: assim como o texto literário usa seu código para seduzir o
leitor, assim o fazem as charges e cartuns com sua suas próprias “iscas”. Uma charge ou um cartum é um texto com palavras e imagens que geram palavras e imagens.
5.4 O humor gráfico e a formação do leitor:
A presença das charges e cartuns no cenário educacional exige que se tenha uma postura adequada no trato dos textos de humor gráfico visando a formação do leitor. Mais que divertir estes textos podem contribuir para ampliar o potencial cognitivo dos alunos, possibilitando o desenvolvimento de competências específicas no trato dos signos presentes no humor gráfico. Recuperar a gênese do humor gráfico e fazer um paralelo com a teoria literária nos permite propor algumas assertivas que justificam a relevância da leitura de charges e cartuns na formação do leitor:
5.4.1 O humor gráfico tem traços de literariedade
As charges e cartuns fazem uso dos signos imagético e lingüístico de forma não convencional ou pragmática. O humor desses textos é carregado de ambigüidades, metáforas e deslocamentos dos significados convencionais. Ele executa um novo arranjo dos signos, articulando-os de forma inusitada exatamente como ocorre com um poema, por exemplo. Embora não possamos classificar um texto de humor gráfico como literatura, em função da exigência do código lingüístico nesta, também não podemos categorizá-lo como um texto pragmático. Uma charge ou um cartum não é o mesmo que uma ilustração. Ele não é redundante, mas ressignificante. No caso das charges, embora carreguem em sua essência relação direta com um fato real, a realidade é reapresentada com um grau de ficcionalidade e distanciamento, comumente presente em paródias e comédias.
5.4.2 O humor gráfico é problematizante
O humor gráfico discute valores como ética e cidadania e contribuem para a maturidade e consciência políticas dos seus leitores. Os textos de humor gráfico,
potencialmente, provoca os leitores a realizarem uma reflexão sobre o mundo e as relações sociais das quais participam. A charge, em particular, tem relação direta com o noticiário jornalístico, com os fatos econômicos, políticos e sociais. Ela exige um conhecimento de mundo para que as relações de sentido necessárias á sua leitura se dêem de forma significativa. Essa exigência deve ser vista como um espaço a ser preenchido com a leitura de outros textos não escolares, como uma ativação do repertório de leitura dos alunos. Nas charges também se encontram referências a outros gêneros textuais como contos de fadas, romances, ditos populares, letras de músicas, filmes, etc. que desafiam o leitor a realizar analogias e comparações necessárias á sua compreensão. A charge tem, por natureza, a intenção de criticar, denunciar e, através da derrisão, atacar as mazelas sociais e combater a alienação política. Assim, sua leitura proporciona uma experiência signficativa na formação de um leitor crítico.
5.4.2 O humor gráfico é relevante para a formação do leitor
Como as análises demonstraram, os textos de humor gráfico apresentam uma rica articulação de linguagens e textos, organizados de forma a desarticular o raciocínio convencional, desencadeando um processo ativo e criativo de busca e reorganização dos sentidos por parte do leitor. Isso se deve ao caráter humorístico desses textos. O inusitado que se apresenta exige que o leitor se detenha nos atributos do texto, provocando um “tropeço” do olhar, levando-o a encontrar uma solução de sentido para o desafio proposto pelas imagens e/ou palavras. Esse processo de busca ativa a memória, o conhecimento prévio, as emoções, o raciocínio lógico, a fruição estética, enfim.
Através desta pesquisa, cremos que fica evidenciada a importância da leitura de textos de humor gráfico no processo de formação do leitor em um mundo onde as mídias e linguagens interagem cada vez mais e onde a presença crescente das imagems demandam habilidades amplas por parte do leitor, fato que não pode ser ignorado ou minimizado pela escola.