O instante de assistência dos dois episódios produzidos por eles foi uma alegria. Muitas gargalhadas, carinhas felizes e empolgadas. Nem precisava perguntar, mas insisti no óbvio: qual episódio eles preferiram os com personagens humanos, produzidos por eles “hoje”, ou o episódio da Zica, do dia anterior, exibido no Anima TV – a essa altura Vaqueiro e Rute tinham chegado à oficina. As respostas foram unânimes: os episódios que eles mesmos fizeram.
Rute explicou sua preferência: “Porque eles que eram os personagens”. Ou seja, seus colegas eram os personagens dos vídeos. Parker disse que tinha muita diversão e que “a história era mais legal com a gente mesmo fazendo, mais criativo”. Carla disse: “Eu achei o de hoje, porque a gente, a gente, porque a gente participou um pouco da história e foi muito legal”. Carla entendeu que a participação na história deixa-a mais divertida. Maiara concordou: “Eu achei melhor o de hoje, porque a gente que era os personagens da história”. Maiara indicou que é melhor construir a história sendo personagem. Naiara disse o mesmo que Maiara “O de hoje, porque a gente era os personagens da história, e a gente fez do jeito que... do jeito da gente”, e ressaltou o fazer do jeito deles quando se é personagem. O jeito deles, destacamos, envolveu o ser criança que se diverte, pula e corre. Destacamos isso, porque as atuações de Zica no Recreio eram saltitantes, corredoras, gritavam muito alto e sempre com sorrisos nos rostos. Ao passo que a personagem representada na animação é razoavelmente introspectiva – expressando-se mais por meio da arte –, não corre, nem pula e ainda fala baixo.
Os co-pesquisadores disseram ter gostado dessa atividade, “porque a gente era os autores e, ao mesmo tempo, os personagens” (Naiara).
- Maiara: Foi legal, porque a gente participou muito, a gente inventou, a gente criou um episódio pra história da Zica que, além disso, ontem, foi muito legal a história dela. E a gente, tipo, criou uma história para ela.
- Carla: Foi muito legal, porque a gente participou. (Olha para a câmera e, depois, faz um olhar de “gato de botas”, com os olhos pidões para cima, e a cabecinha um pouco virada para o lado esquerdo.) A gente participou... Não já disse isso. (Larga gargalhada, olhando para a câmera.) A gente participou (Naiara grita uma alta gargalhada) e foi animado.
O apontamento de Maiara faz com que destaquemos uma experiência poética84
(BARROS, 2012-a), porquanto há um elemento criativo na produção de um episódio dos co-pesquisadores para Zica. Esse episódio produz sentidos, mas são diferentes dos sentidos produzidos pelo produto midiático que, por sua vez, são diferentes dos sentidos produzidos no instante de recepção. Indicamos que são produções de sentidos que, mesmo integrando o faz-de-conta, representa ”reedições das vivências infantis” (COSTA, 2007: 43) reterritorializadas no Assentamento Recreio. Percebamos ainda que a experiência poética dos co-pesquisadores está comumente perpassada pela diversão, um jogo prazeroso, inventivo, com regras criadas autonomamente por eles mesmos – uma experiência lúdica, necessariamente social, cortada por diversos agenciamentos. Assim, o lúdico é uma “importante dimensão da cultura” (COSTA, 2005: 21) e os sentidos aqui produzidos sugerem uma reformulação na produção de produtos midiáticos que seja capaz de congregar práticas sociais que garantam a participação de crianças.
Num contexto de midiatização (BARROS, 2012-b), ter a si como elemento de referência parece ser extremamente importante e divertido, seja por meio dos colegas ou de si mesmo. Dessa maneira, os co-pesquisadores destacaram a participação na produção midiática, pois puderam fazer do jeito deles, indicando os rumos que as histórias tomaram. Isso tornou mais divertida a experiência estética que se configurou numa obra de arte rebelde. Rebelde porque as crianças puderam criar de seus modos, com gargalhadas, câmeras tremidas, perguntas incontinentes etc.
A rebeldia na arte é a garantia do seu componente crítico. A arte deve ser rebelde e pode ser revolucionária, porém o termo revolucionária aqui significa possibilidade de desencadear sempre novos modos de interpretar o mundo, criar formas de compreensão tanto daquilo que é da ordem da materialidade da vida, como também daquilo que exige expressão sem ter uma presença física no mundo, sem ser palpável (JOBIM E SOUZA, 2000: 23).
84 Laan Barros diz que há uma experiência poética na perspectiva da estética da recepção, pois “o leitor é mais que mero destinatário das ações de comunicação. „Ele projeta na mensagem que frui as suas expectativas, „concretiza‟ a obra em um processo de re-criação como uma nova poética no contexto da experiência estética‟. Mais do que os sentidos produzidos no ato da concepção da mensagem e nela contidos, próprios do exercício da poética (poiesis), interessa-nos pensar os sentidos recriados no processo de recepção, na experiência estética (aisthesis). Se entendermos que no campo da recepção se opera um novo processo criativo, podemos, então, afirmar que a experiência estética se desdobra em experiência poética” (BARROS, 2012-a: 8). Assim, o processo de recepção é uma experiência estética na qual há criação.
As obras de artes produzidas pelos co-pesquisadores se constituíram numa radicalização da experiência poética, pois criaram com referência em outra obra, sendo cortados por diversos agenciamentos, inclusive com territorializações na participação, nos desejos e no humor, na diversão. As produções das crianças foram, assim, revolucionárias por que criaram formas distintas de se compreender um episódio que se faz para e pelas crianças. E foram distintas por que elas próprias foram autoras, personagens, transparecendo seus desejos, erros de falas, piadas, perguntas e aparições de si e do Recreio. Ou seja, elas enfatizaram a experiência do público – no caso os próprios co-pesquisador –, permitindo uma compreender o processo de subjetivação que o produto midiático provocou (BARCELOS e JOBIM E SOUZA, 2000)
- Parker: Eu achei muito legal, porque [Maiara] ficou parecendo uma doida naquele vídeo (largo sorriso no rosto), dançando, e gritando ali.
- Ariel: Eu achei que foi legal, por causa que a gente expressou a nossa opinião no vídeo.
Por fim, indicamos que Ariel também deu sua opinião. Ela é uma prima de Maiara que entrou na sala onde estávamos. Ficou sentada junto conosco, no meio do círculo com os outros co-pesquisadores. Quando me apercebi, ela também estava falando e participando da oficina. Ariel também ajudou a construir o episódio de Ben-10 com atores que foi a segunda parte da oficina de recepção midiática II.