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A explicação da hegemonia empresarial norte-americana reside na construção do que poderíamos considerar domínio financeiro complexo17. Isto coloca a empresa norte-americana como parte da estrutura da produção capitalista geral, e sua mobilidade institucional dirigida ao monopólio de mercados e controle financeiro, como já assinalado. Seu caráter financeiro complexo é parte de sua origem, e resvala para fora em um momento particular de seu desenvolvimento.

Isto conduz a algumas considerações dessa hegemonia. Em primeiro lugar, este tipo empresarial está inserido num sistema de empresa mundial, reorganizado logo após a Segunda Grande Guerra. Isto não ocorre somente pelas investidas no progresso técnico, expressos em bens de capitais ou produção bélica disponível às grandes nações industriais em conflito. Para Belluzzo (2009), as condições dessa hegemonia corporativa norte-americana resultaram da capacidade destas empresas de conquistarem novos mercados; exercerem o controle monopolístico de fontes de matérias-primas; criarem mecanismo de valorização fictícia de seu

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O uso da terminologia “complexo” resulta das seguintes ponderações. As investidas financeiras feitas pelas empresas norte-americanas dentro e fora de seu território não encontram equivalentes dentro da perspectiva histórica adotada neste trabalho. Em nenhum outro momento a articulação do sistema financeiro mundial adquiriu tamanha sofisticação e velocidade do que este operado pela integração das corporações financeiras. Ele foi construído, em boa medida, sob o caduco sistema britânico comercial e financeiro, sepultado nos pós-45 e reorganizado pela combinação das ações do estado liberal norte-americano e suas grandes corporações. Por outro lado, a qualidade de complexo exprime aquilo que, em certa medida, se encontrava em O Capital, de Marx, especialmente ao se referir as variadas formas que assume o capital e a capacidade que possui o capital-dinheiro em sua forma fictícia de concentrar, fluir e diversificar-se em vários outros capitais, ao ponto das relações entre sujeitos se apresentaram como relações entre coisas. Nesse sentido, a qualidade de complexo não foge nem fere os sentidos dados pelo arcabouço teórico que usamos para explicar os fundamentos originários dos grupos econômicos. Mas, o uso desta terminologia implica em reconhecer, além dessa autonomia do capital-dinheiro, também a diversidade de processos burocráticos e especializados criados pelas altas finanças dos estados e das empresas como condição garantidora da reprodução ampliada do capital. Isto é sintomático especialmente quando se percebe a intensificação do fluxo de capitais entre empresas e estados, logo após o fim do padrão ouro, e sua gradual substituição no sistema monetário internacional pelo padrão dólar e deste para o padrão dólar flutuante. Além de todo impacto no tempo de rotação do capital, em geral proporcionado pela combinação transnacional desses processos.

capital (circuito intrabancos) e possuírem uma forte tendência à conglomeração. “... tudo está inscrito na matriz originária da grande corporação americana” (BELLUZZO, 2009, p. 43).

Ao nos referirmos a esta estratégia expansionista adquirida pela corporação norte- americana, especialmente após as duas grandes guerras, aludimos a alguns pilares que, segundo este mesmo autor, a direciona, sendo eles: as altas finanças; o protecionismo e os privilégios de seus Estados. Como veremos, a hegemonia empresarial norte-americana parece ter encontrado, nas altas finanças, recursos suficientemente capazes de gerar um ciclo virtuoso e particular entre suas corporações financeiras, e secundarizar estes dois outros pilares.

A corporação norte-americana caminhou após as duas Grandes Guerras para a intensificação da concentração de seu capital financeiro. Este capital excedido expandiu-se para fora, e os lucros obtidos do seu reinvestimento passaram a ser, mais intensivamente, parte indissociável do capital financeiro geral das grandes empresas, e não limitados a um capital particular. Neste estágio, parte deste capital geral passa a dirigir-se para a formação ou financiamento de outras grandes corporações ou empresas menores, e no domínio dessa gestão financeira do capital em geral, a corporação dá ao excedente este fim como uma condição de manter-se existindo. Isso permitiu que processos de concentração de capital tornassem, assim, uma estratégia cada vez mais comum e decisiva no controle de mercados.

A primeira impressão disto é a de que o processo de reprodução ampliada do capital esteja circunscrito a uma territorialidade. Mas, expansão da corporação a impele de manter-se existindo mesmo com ritmos de proteção de seu Estado e do seu tamanho territorial bem adverso. Esta expansão a obriga a conquistar novos mercados para suas mercadorias, serviços, e permite, em certa medida, uma mobilidade de força de trabalho dentro e fora de seus territórios de origem. Também impele a grande empresa a alocar parte de seus excedentes sob a forma de exportação de capitais ou de investimentos diretos. É nesse momento que a corporação, enquanto grupo econômico, torna-se um protagonista diferente de muitas outras instituições econômicas, e também de parte de um processo específico e não alcançado por todas as empresas. Esta é uma desenvoltura particular e restrita às grandes empresas por esse conjunto combinado de estratégia de valorização do capital.

A internacionalização do capital requer, assim, a reprodução de parte do capital, e dessa estrutura institucional, representada pela grande corporação, e que seja capaz de manter esta reprodução ampliada não como elemento circunstancial de sua gestão, mas como condição de sua hegemonia expansionista. Isto permite que o capital em geral se integre aos circuitos econômicos diversos (como circuitos do terciário), os fortaleça ou simplesmente os crie. Assim, o seu processo de concentração e hegemonia corporativa implica em pensar o

tamanho da empresa, o tamanho dos mercados, mas também o alcance das políticas de regulação dos estados.

A existência da corporação, assim, é um requisito central para o “player” no processo

de internacionalização do capital. Assim como afirma Belluzzo (2009) “(...) ela condensa todos os mecanismo anteriores de expansão; os mercantis, industriais e financeiros. Mas também em sua política para fora é a síntese das práticas dos estados liberais: a face liberal do comércio exterior; o protecionismo e intervencionista nas defesas de reservas estratégias de matérias-primas” (BELLUZZO, p.44).

No entanto, esse processo, protagonizado pelo tipo corporativo, requer que ajustes no sistema financeiro dominante sejam realizados. A imposição de um padrão monetário torna-se um mecanismo capaz de realizar este ajuste, e permite a expansão e consolidação da grande empresa. É nesse sentido que o fortalecimento desta instituição requer arranjos políticos cada vez mais sólidos e específicos, com objetivos de regular, com segurança, um conjunto de interesses empresarias, por vezes expressões na forma da manipulação das moedas nacionais e do padrão monetário dominante. Dessa maneira, a imposição de um padrão monetário tende a colocar toda técnica e sua expansão sob o controle corporativo.

Assim, se podemos conferir um protagonismo à corporação norte-americana é em virtude dessa desenvoltura e de ter secundarizado os padrões de consumo e tecnológico frente ao seu projeto de dominação financeira fundada, após-45. Esta condição de protagonista das mudanças no sistema financeiro internacional foi sentida logo após as duas grandes guerras, e foi verificada com a expansão de seu complexo sistema manufatureiro e financeiro, ou seja, pela capacidade que as empresas norte-americanas tiveram de se colocarem também como produtores e financiadores globais. O sistema financeiro, organizado por estas empresas e seus bancos, tornou-se fator determinante na unificação de uma estrutura global de reprodução ampliada do capital, e reorganização do trabalho em escala planetária, com fortes diferenciações entre territórios, e entre corporações fortemente especializadas em sobrevalorizar capitais.

Mas as tentativas de unificar o capital global não implicam torná-lo homogêneo ou direcioná-los para circuitos econômicos menos ariscados. Ela ocorre inserida numa economia que se altera significativamente após as duas grandes guerras, especialmente em território europeu, e em função de alguns Investimentos Estrangeiros Diretos (IED) terem contribuído na reestruturação das nações beligerantes, e as tornando dependentes das manufaturas e finanças norte-americanas. A expansão da grande empresa aproveitou os ritmos econômicos dessas nações após os esforços de guerra. O seu sistema de financiamento somado ao seu

estado liberal de regular e articular sua tentativa unificadora, revelou ser um recurso fundamental para plantar raízes em solo europeu e reorganizar o sistema financeiro mundial. As corporações norte-americanas passam, então, a exigir a valorização de seus capitais em mercados promissores como os das nações beligerantes, por meio de uma articulação entre elas, os demais Estados e outras empresas. O Estado norte-americano e outros estados da Europa passam a articular os interesses de diferentes capitais, e muitos controlados pelas grandes corporações estadunidenses, tornando-se reguladores não de um conflito apenas entre nações, mas de um conflito de interesses entre empresas. Sendo assim, oscilações de valorização e desvalorização do padrão monetário nacional terminaram funcionando como instrumento de regulação desses conflitos, além das entradas e saídas de capitais. É nesse sentido que o Estado regula interesses em certa medida “solidários” (no sentido de que tanto o pequeno quanto o grande capital buscam valorizar-se) durante o processo de expansão das variadas manifestações do capital.

O controle da emissão do padrão monetário (ouro, libra, dólar, dólar-flutuante) nacional – variante segundo o lastro internacional de sua moeda – torna-se, além de uma barreira às negociações locais das grandes corporações, muitas submetidas em seus contratos a outros padrões monetários, a referência contábil e aparentemente mais segura nas transações comerciais e financeiras. O controle da moeda pelo estado fornece-lhe uma condição de fortalecimento e não de diminuição de seu poder institucional perante as corporações. Ao controlar a emissão do único instrumento ativo de circulação do capital e de sua reprodução ampliada em território nacional, as grandes corporações tendem a pressionar o Estado no tocante ao ritmo de sua circulação e liquidez, ao ponto das pressões corporativas induzirem a desvalorização da moeda nacional e contribuírem no fortalecimento das negociações com base no padrão monetário mundial.

A explicação para a hegemonia norte-americana encontra-se nesse que parece ser um esclarecimento de sua capacidade centrífuga de atingir mercados, e fazer com que o capital lançado fora se converta em mais capital, por meio do financiamento de diversas atividades econômicas ou por meio do controle do seu espaço monetário. Isto permitiu que a corporação no pós-guerra se colocasse na ponta do sistema financeiro, ao mesmo tempo reorganizando-o e comprometendo os sistemas financeiros nacionais de países europeus.

Segundo ainda Belluzzo (2009), o domínio da grande empresa norte-americana, especialmente em seu direcionamento para mercados europeus logo após a segunda grande guerra, ocorre em função de terem criado um sistema manufatureiro afiliado. Este sistema permitiu que a grande empresa norte-americana ocupasse “espaços vagos” no mercado

europeu, e criasse uma rede de bancos afiliados, os eurobancos. Em função da perda de concorrência no mercado aberto de manufaturas e de capitais, estas empresas passaram a formar esse circuito fechado, restrito à relação matriz-filial, o que fortaleceu este sistema manufatureiro filiado. O resultado disso foi um crescente número de filiais de bancos americanos e o aumento da circulação de dólares nas principais praças financeiras após 1945. As empresas, tendo alcançado um volume de capital financeiro excedente, passam a investir estas sobras nos circuitos locais de reprodução do capital. As principais praças financeiras tornam-se, assim, centros intermediadores desse processo de valorização contínua do capital em escala global. Essas medidas não explicam, com propriedade, o sistema financeiro como complexo. As mesmas considerações de Belluzzo (2009) parecem advertir para o cerne que define essa qualificação do poder corporativo norte-americano e sua condição de hegemonia no pós-45.

Como estratégia para fortalecerem-se, as corporações bancárias passam a converter mais capital financeiro excedente, dentro de um circuito paralelo e fechado de valorização e revalorização do capital. Este circuito opera nas franjas da regulação do sistema de regras monetárias nacionais. Ele fragiliza os mecanismos restritivos dos bancos centrais, especialmente aqueles que organizam as transações financeiras entre pequenos e grandes capitais. A força dessas conexões bancárias e entre bancos e corporações industriais permite que este circuito se fortaleça e tenda a sobrevalorizar os ativos e capitais dessas grandes corporações sediadas em território europeu. Isto, na perspectiva de Belluzzo (2009), gera uma instabilidade na capacidade de compra das moedas nacionais, especialmente frente à hegemonia do padrão dólar.

O que é percebido com a constituição desse circuito financeiro paralelo é a formação ainda mais veloz do processo de autonomização do capital financeiro, mais volátil e desregulado, reproduzindo-se num circuito intrabancário livre das intervenções dos bancos centrais, indiferente aos ritmos da produção e aos padrões monetários estáveis. Isto tende a imobilizar, como afirmamos, os mecanismos regulacionistas que possuem os bancos centrais, tanto no que compete à valorização de suas moedas nacionais quanto na expansão do padrão monetário internacional.

Estes são traços, dentre muitos outros, que distanciam significativamente as tipologias de empresas do passado ou a grande companhia daquelas que emergiram no pós-guerra, como revelara serem os grupos econômicos. Nesse cenário, a desenvoltura dos Estados não é medida pela capacidade jurídica de conceder e reaver o monopólio. Nestas novas condições, ele é mensurado não por sua capacidade de regular a economia em sua totalidade, mas por

suas ações regulacionistas circunstanciais frente os conflitos entre a legalidade e ilegalidade nas altas finanças.

Assim, depois da ruptura do padrão dólar, rapidamente substituído por uma cesta das principais moedas transacionadas à escala mundial, foi possível a formação de bancos verdadeiramente transnacionais, tanto no sentido de que escapam ao controle de qualquer autoridade monetária, quanto no sentido mais profundo de seu poder privado de emissão colocar-se acima do poder de emissão dos Estados Nacionais. Suas aplicações estão distribuídas de forma ampla e generalizada por todos os países – mesmo os de moeda fraca – onde a presença de grandes empresas requer a reciclagem financeira do capital dinheiro sobrante (BELLUZZO, 2009, p. 47).

Esta que parece representar uma das explicações coerentes acerca da hegemonia empresarial norte-americana nos pós-guerra indica que um dos resultados mais imediatos da constituição desse sistema financeiro transnacional foram as alterações no sistema de crédito local. Os circuitos de crédito, condicionados pela rede intrabancos que compõem o circuito paralelo, passam a expressar em suas transações financeiras as condições de liquidez internacional, especialmente pagamentos e contratos em dólar. As agências de crédito terminam por operar, segundo sob uma dupla pressão dos movimentos antagônicos do circuito intrabancário privado, e também das tentativas de estabilização das instituições monetárias nacionais.

4.5 A ESTRATÉGIA DA GESTÃO COMO CAMINHO PARA A EXPANSÃO