Outro traço da religião na modernidade é o trânsito religioso, que consiste no deslocamento dos sujeitos por diversos espaços sagrados e/ou crenças religiosas e na prática simultânea de diferentes religiões. Esse trânsito se dá tanto entre as várias religiões institucionalizadas quanto entre as religiões e outros sistemas produtores de sentido menos estruturados. O campo religioso passou a incluir, neste início de milênio, além das religiões estruturadas como tal, um grande número de sistemas denominados religiões analógicas ou metafóricas, de orientação espiritual, ecológica, terapêutica ou psicológica. Aqui, mais uma vez pode-se perceber uma coincidência entre aquilo que os autores apresentam como um traço das formas modernas de crer e as práticas das religiões populares tradicionais.
Assim, a mesma lógica que subjaz ao trânsito religioso nas modernas formas de crer pode ser encontrada também no campo das religiões populares, trazendo a idéia de que os diferentes sistemas religiosos são complementares e não excludentes. Nesse sentido, do ponto de vista dos atores individuais, as religiões não estariam em competição entre si, mas se somariam em vista da garantia de maior proteção para aqueles que as buscam como resposta à sua aflição. Junte-se a isso a visão recorrente na cultura popular de que as instituições religiosas não esgotam as forças do sagrado. Há algumas dimensões do sagrado que só se realizam para além das fronteiras institucionais, pois não cabem dentro da ordem ou dos limites que as instituições procuram estabelecer, na distinção entre o sagrado e o profano.
É interessante observar que nos três segmentos religiosos estudados para esta tese o trânsito religioso é uma história comum na vida de seus seguidores. Há exemplos de quem migrou do catolicismo ou de denominações evangélicas, como Assembléia de Deus e Igreja Universal do Reino de Deus, e de quem partilha a umbanda com outra fé.
Esse é o caso de Gustavo Andrade Borges, membro da Casa de Umbanda Paz e Justiça, que chegou a ser obreiro da Igreja Universal do Reino de Deus por cinco anos mas a abandonou, segundo seu depoimento, porque achou “que lá faltavam ações de caridade”. Filho de mãe evangélica, ele freqüentou, em seguida, a
Assembléia de Deus por mais de cinco anos, embora sentisse que “Ainda assim, me faltava alguma coisa”. Foi então que ele conheceu o centro umbandista liderado por Ricardo de Assis Oliveira, sobre o qual atestou: “Realmente encontrei a paz espiritual”. O mesmo ocorreu com Gabriel do Carmo Leão, filho de família tradicionalmente católica, que migrou para a umbanda há alguns anos. Ele relatou que “No catolicismo não encontrava paz, havia muita hipocrisia e falta de caridade. Aqui, no terreiro da mãe Maria, eu me sinto acolhido e bem mais feliz”.
Vera Lúcia Cruz, que também já foi católica até conhecer a umbanda, salientou que a solidariedade que encontrou no centro umbandista é sedutora: “Aqui há amor e dedicação. Minhas lágrimas foram enxutas e é realmente uma casa de caridade”.
Já o caso de Luiz Borges Figueiredo, membro da Casa de Umbanda Luz de Aruanda, é bastante curioso. Espírita, ele foi ao local a convite de uma amiga e voltou outras vezes, embora não tenha abandonado as atividades da outra fé. Ele destacou: “Continuo com minhas atividades mediúnicas em dois centros espíritas e também aqui, pois no espiritismo não se aceitam os caboclos”.
Luciana Camargo Freitas declarou: “Eu era evangélica. Minha mãe também. Mas eu não concordava direito com o que o pastor pregava. Na Igreja Evangélica, o pastor prega que a gente tem de contribuir materialmente para alcançar a graça. Na umbanda, não. Se você não tem recursos, a porta não se fecha”. Ela lembrou, ainda, que a caridade e a solidariedade são características marcantes da umbanda.
Quando Vera Lúcia Cruz foi perguntada porque deixou a Igreja Católica e passou a ser umbandista, relatou:
O problema é que passei por dificuldades do ponto de vista pessoal. Estava com muitos problemas financeiros. Depois que minha filha melhorou, passou uns anos, eu fiquei num aperto só, e não encontrei na igreja, nos padres, o consolo e a solidariedade. Quando eu falava para os padres das minhas angústias, a sugestão deles era para rezar um salmo, quando o que a gente quer, às vezes, é uma palavra carinhosa.
Diante dessas narrativas observa-se que a grande motivação que leva os indivíduos ao trânsito religioso na modernidade, independentemente da religião a que pertencem, configura-se em sua tentativa de encontrar resposta mais favorável aos seus problemas, angústias e enfermidades, situações tão comuns no cotidiano das grandes cidades.
Outra característica da religião na modernidade refere-se ao alargamento de suas fronteiras para setores que até há pouco eram considerados avessos ou impermeáveis ao religioso. Diversos autores que trabalham a temática New Age, por exemplo, têm chamado a atenção não apenas para as formas esotéricas e alternativas com que o movimento tradicionalmente se apresenta, mas também para a porosidade do meio empresarial a este tipo de proposta religiosa. Analisam, assim, como processos econômicos e de marketing que efetivamente incorporam discursos e dinâmicas religiosas em suas estratégias de produção e de vendas (AMARAL, 1994; HEELAS, 1993). A New Age se coloca, no entanto, apenas como a condensação de uma tendência mais abrangente que atravessa o campo religioso com tal e que aponta para a diluição das fronteiras do religioso na sociedade contemporânea. Ou, ainda, talvez devêssemos ir mais longe e afirmar que essa diluição de fronteiras se estende para o campo do conhecimento como um todo, como parece sugerir Geertz (1994) com o conceito de “gêneros confusos”. O próprio autor explicita: questões filosóficas que se apresentam sob a forma de crítica literária, debates científicos que lembram fragmentos de literatura, fantasias barrocas que aparecem como observações empíricas, ou ainda relatos de história que consistem em equações e tabelas ou em testemunho de tribunais de justiça. Nesse mesmo sentido, Maître (1987) aponta para uma mixagem de gêneros entre religião, filosofia, medicina, psicologia, ecologia que chamou de “nebulosa das heterodoxias”.
Por outro lado, a análise das peregrinações cristãs no mundo contemporâneo, feita por Eade e Sallnow (1991, p. 15), parece detectar esse mesmo fenômeno das heterodoxias, ressaltando como um traço fundamental do culto nos santuários o fato de ele estabelecer uma espécie de “vazio religioso, capaz de acomodar diversos significados e práticas”. Para esses autores, o universalismo é, em última análise, constituído não por uma unificação de discursos, mas, em vez disso, por sua capacidade de incorporar e responder à pluralidade das demandas religiosas que são trazidas para os santuários. Percebe-se, assim, que se do ponto de vista dos grupos particulares trata-se de demarcar suas fronteiras, afirmar suas crenças, realizar seus rituais, proclamar seus discursos a partir de uma perspectiva “universal”, tinha-se uma situação na qual essas fronteiras se apresentavam extremamente diluídas e porosas. A esse respeito, Almir Teixeira Pimentel contou:
“Quando vou a Aparecida do Norte, fico extasiado. Sinto que ali faço parte de um mundo diferente.” Já Ângela de Oliveira Santos disse: “Adoro ir nos encontros organizados pelo pastor, pelos obreiros. Lá a gente sente que é um só, é bom, parece que todo mundo é igual, ta lá pela mesma causa”. E Gabriel do Carmo Leão completou: “Quando estamos trabalhando, no meio de um trabalho, a gente, os filhos-de-santo, junto com os pais-de-santo, parece que estamos num mesmo transe, num mesmo clima. As energias que estão, os orixás, os guias, é que comanda tudo”.
Pode-se observar, portanto, uma tendência recorrente das “novas formas de crer”, mas que se estende para o campo religioso como um todo, para incorporar, integrar e juntar elementos de diversas tradições ou fontes, compondo sínteses personalizadas de crenças com um mínimo de intermediação institucional. Essa tendência se contrapõe à lógica que opera nos sistemas mais racionalizados, nos quais predomina a tendência para restringir, separar e analisar, tendo a instituição como árbitro.