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Velho Peão foi composta por Teddy Vieira e por Sulino.

Na discografia da dupla “Tião Carreiro e Pardinho”, ela só aparece no disco “Modas de Viola Classe A” gravado em 1974. Porém, como Teddy Vieira faleceu em 19657, presume-se que ela tenha sido gravada anteriormente por outra dupla ou tenha sido guardada como um tesouro retido até o momento de ser interpretada ou de receber o acabamento final.

De qualquer maneira, a essência da narrativa desta

5 DURHAN, 1973, p. 203 6 DURHAN, 1973, p. 204

7 Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira: http://www. dicionariompb.com.br/teddy-vieira

moda é justamente o oposto da anterior. E embora ambos os protagonistas sejam velhos e experientes no trabalho de tocar boiada, nesta moda, o enredo é alterado pelo fato do personagem ter sido vítima de uma doença que o lançou numa condição de fragilidade física e econômica.

Diante da narrativa da moda anteriormente tratada, esta poderia ser o capítulo seguinte na trajetória pessoal do velho peão líder da comitiva de boiadeiros. Esta perspectiva, apesar de totalmente hipotética e ficcional, ajuda a compreender o trecho em que o velho peão se lembra das glórias passadas com amargura já que tudo lhe foi retirado no tempo presente o que inclui sua própria dignidade. Vejamos, no entanto, a letra da moda na íntegra:

Levantei um dia cedo, sentei na cama chorando Meu velho tempo de peão, nervoso eu fiquei lembrando Senti uma dor no peito igual brasa me queimando Ouvi uma voz lá fora parece que me chamando Eu tive um pressentimento

Que a morte na voz do vento Ali estava me rondando aí

Eu saí lá pro terreiro, lembrei nas glórias passadas Me vi montado num potro correndo nas invernadas Também vi um lenço acenan- do, de alguém que foi minha amada Que há tempo se despediu para derradeira morada Tive um desgosto medonho,

Ao ver que tudo era um sonho E hoje não sou mais nada aí

Pobre de quem nesta vida na velhice não pensou Ao me ver velho e doente, um filho me amparou Recebo tanta indireta da nora que não gostou E meu netinho inocente chorando já me falou: A mamãe já deu estrilo,

Disse que aqui não é asilo Mas, eu gosto do senhor aí

Neste meu rosto cansado, queimado pelo mormaço Duas lágrimas correram, espelho do meu fracasso É o prêmio de quem na vida não quis acertar os passos Abri os olhos muito tarde quando eu já era um bagaço Vejam só a situação aí,

De quem foi o rei dos peão Hoje não pode com o laço aí

Que perdoem todas as faltas deste peão, velho estradeiro Quando eu partir deste mundo, meu pedido derradeiro Desejo ser enterrado na sombra de um anjiqueiro Pra ouvir de quando em quando,

As boiadas ali passando E os gritos dos boiadeiros aí.

Como se vê, a narrativa começa com o personagem central tendo a percepção que a morte está se aproximando. Ele então se lembra do seu tempo de boiadeiro, das glórias conquistadas e da amada. Tudo, porém, já se foi com o tempo e na desmaterialização de tudo o que ele já teve se reflete a desmaterialização de sua própria vida. E nesta, se reflete a desmaterialização da sua dignidade já que a situação de dependência financeira o deixou sem aquilo que Cícero compreendia como o elemento determinante para uma velhice honrada: a “ascendência

sobre os familiares até o último suspiro8”.

Em situação, portanto, contrária a esta, o velho peão desta moda por pouco ainda não foi expulso da casa do filho já que esta era a vontade da sua nora que desejava colocá-lo no asilo. Quanta diferença, portanto, do velho peão da moda anterior.

Nesta mesma obra de Cícero, conhecida como “Saber

Envelhecer”, o famoso orador e filósofo romano fala de

um personagem que teve um final de vida mais feliz que seus anos passados por ter, nela, conservado a autoridade ao mesmo tempo em que trabalhava menos. Segundo o filósofo, isto correspondia ao “coroamento da velhice”. E este seu pensamento poderia bem ser ilustrado pela moda anteriormente tratada: Travessia do Araguaia.

Já nesta moda, Velho Peão, o velho boiadeiro não possui nem a autoridade e nem tampouco forças para fazer trabalho algum. Há, no entanto, um aspecto da reflexão de Cícero sobre a velhice que ele realiza. Algo que o filósofo considerava como uma exigência desta fase

da vida: a postura de “olhar a morte de cima9”, ou seja,

sem temor e com a convicção de que se desempenhou o papel que nos foi reservado10:

Resta a quarta razão de temer a velhice, a que desola e acabrunha particularmente as pessoas de minha idade: a aproximação da morte. Ela é incontestável. Mas como é lastimável o velho que, após ter vivido tanto tempo, não aprendeu a olhar a morte de cima! Cumpre ou des- prezá-la completamente, se pensamos da alma, ou de- sejá-la, se ela confere a essa alma sua imortalidade. Não há outra alternativa.11

E disto o personagem da moda Velho Peão dá provas ao pedir a Deus que leve seus antigos companheiros de profissão e caminhada a perdoar todas as suas falhas, uma vez que ele deseja ser, por eles, lembrado quando deixar este mundo definitivamente. Porém, mais do que uma lembrança no futuro, os últimos versos da moda indicam uma esperança de união espiritual e metafísica do velho peão com os outros boiadeiros. E esta esperança é suficiente para criar uma sensação de pertencimento a algo invisível, capaz também de fazer reviver um sentido para a vida e um anseio para a eternidade que também ecoam o final de texto de Cícero12.

4. Narrativas semelhantes: ressentimento e

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