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Excusas eximentes

A disposição das categorias de análise do presente estudo tomou como alicerce a lógica da institucionalização do conhecimento inerente ao processo de implantação e implementação de tecnologias, ilustrada em Patriotta (2003a), bem como a relação recursiva entre práticas sociais e propriedades estruturais dos sistemas da Teoria da Estruturação (GIDDENS, 2003). A partir das representações gráficas de Barley e Tolbert (1997) e

Orlikowski et al. (1995), conforme mostra a Figura 8, foi elaborada a representação das categorias de análise selecionadas para esse estudo:

Figura 8 – Representação das categorias de análise da pesquisa

Fonte: Elaborado pelo autor a partir de Barley e Tolbert (1997, p. 101), Orlikowski et al. (1995, p. 440).

A análise da representação colocada na Figura 8 permite observar que em um processo de transferência de uma dada tecnologia (quer seja uma transferência de tecnologia interna ou externa) a ser iniciado em um momento espaciotemporalmente circunscrito (T1), a criação de conhecimentos subjacentes a essa dada tecnologia recorre ao estoque de práticas existentes naquela realidade organizacional, pelo fato de estas práticas servirem como norte legítimo e socialmente aceito de conhecimentos absorvidos na organização pelos seus indivíduos componentes. À medida que o processo de transferência dessa dada tecnologia avança mediante a sua implantação, a utilização recorrente dos conhecimentos provenientes das práticas existentes ou dos conhecimentos criados desde o início do processo de transferência tecnológica incorre, por sua vez, em reforçar, criar ou modificar essas práticas existentes e sustentadas naquela realidade organizacional, dada a lógica recursiva do uso da tecnologia pressuposta na perspectiva da “Tecnologias-na-Prática”. Com isso, ao final do processo de transferência dessa dada tecnologia (T2), a absorção desta corresponderia, de

certa forma, à institucionalização e/ou desinstitucionalização das práticas e conhecimentos subjacentes à tecnologia transferida (OLIVER, 1992; ORLIKOWSKI, 2000, 2002; PATRIOTTA, 2003a), de tal maneira que, uma vez concluído o processo, ter-se-ia então a possibilidade de se identificarem três quadros não mutuamente excludentes, resultantes da adoção: novas práticas organizacionais referentes ao uso dessa tecnologia; práticas organizacionais que foram (sutil ou mesmo razoavelmente) modificadas; ou mesmo a preservação daquelas práticas existentes e sustentadas naquela realidade organizacional.

3.2.1 Definição constitutiva e operacional das categorias de análise

A definição constitutiva de uma categoria de análise corresponde, essencialmente, à sua definição teórica, já que esta, por si só, define uma categoria analítica tendo por base o que existe disponível na literatura acerca de um específico tema. Já a definição operacional de uma variável objetiva atribuir significado ao constructo ou variável (categoria analítica), especificando as atividades ou operações necessárias para medi-lo(a) ou manipulá-lo(a), facilitando a sua observação e medição empírica. Dessa maneira, as categorias analíticas deste estudo são definidas da seguinte forma:

Transferência de Tecnologia

D.C. – Processo gerenciado de conceder a tecnologia de uma parte (organização detentora da tecnologia) para a sua adoção por outra parte (organização receptora da tecnologia) (KREMIC, 2003), cuja natureza se caracteriza como sendo altamente complexa por envolver muitas funções diferentes, atores e variáveis, formando um fenômeno o qual não é reduzível a simples fatores (SAAD, 2000).

D.O. – Foi operacionalizada por meio de entrevistas junto aos envolvidos no processo em questão, e análise documental do processo da transferência de tecnologia em si no que tange às duas organizações envolvidas no processo (detentora e receptora da tecnologia) visando identificar qual(is) o(s) mecanismo(s) de transferência de tecnologia que vigoravam na empresa quando o processo em questão se deu (considerando-se enquanto 'mecanismos de transferência de tecnologia' aqueles listados e especificados nas páginas 40 e 41 do presente estudo); e entender como o processo foi descrito pelos envolvidos na transferência.

Mecanismos de Transferência de Tecnologia

D.C. – São processos comunicativos representados por “canais ou processos pelos quais a transferência ocorre” (SOUZA, 2006, p. 51).

D.O. – A operacionalização dessa categoria analítica ocorreu por meio de entrevistas junto aos envolvidos no processo em questão, e análise documental do processo da transferência de tecnologia em si no que tange às duas organizações envolvidas no processo (detentora e receptora da tecnologia) visando identificar qual(is) o(s) mecanismo(s) de transferência de tecnologia que vigoravam na empresa quando o processo em questão se deu (considerando-se enquanto 'mecanismos de transferência de tecnologia' aqueles listados e especificados nas páginas 40 e 41 do presente estudo).

Práticas Sociais (Organizacionais)

D.C. – Comportamentos rotinizados que consistem em diversos elementos, interconectados uns aos outros, sob formas de atividades corporais, mentais, artefatos e os seus usos (RECKWITZ, 2002a) e que devem ser entendidas como objetos cognoscitivos causais ou pressuposições mentalmente sustentadas que alcançam um caráter de algo legítimo dentro de uma coletividade (GIDDENS, 2003; TURNER, 1994).

D.O. – A identificação e análise das práticas se deu por meio das entrevistas junto aos envolvidos no processo em análise contemplando descrições detalhadas acerca das atividades da práxis (os atos laborais em si) dos indivíduos diretamente relacionadas ao manuseio da(s) tecnologia(s) em questão na organização estudada – entendendo-se então, na análise que se segue no presente estudo, “práticas organizacionais” como sinônimo para as práticas sociais sustentadas na organização em análise –, atentando-se para o caráter rotineiro, legítimo e institucionalizado (formal ou informalmente) dessas atividades. Dessa forma, somente quando foi iniciada a coleta de dados que a natureza de tais práticas sociais (organizacionais) pôde ser precisada. Assim, nas entrevistas com roteiro semiestruturado teve-se por intuito apreender a visão dos indivíduos acerca dessas práticas sociais (organizacionais) relacionadas ao processo de transferência da(s) tecnologia(s) observada(s), e na análise documental objetivou-se levantar evidências formais dessas práticas, a título de se ter uma noção mais completa (inclusive em termos históricos) delas, no que tange igualmente à sua acepção de rotina e da descrição da atividades da práxis (os atos laborais em si).