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Example - The Heston Stochastic Volatility Model

A saída encontrada foi a fusão daquilo que antes estava separado, através da passagem da Crab / comissão para a Crab / movimento, e mais tarde MAB. Hoje seguramente não se pode apontar que o MAB seja seus dirigentes e sua estrutura burocrática, pois não se encontra o MAB somente em suas secretarias, mas sim, em cada grupo de base, em cada reassentamento, em cada barranca de rio onde o movimento está organizado. Houve um verdadeiro processo de “destruição” da Crab para a “construção” do Movimento.

Numa assembléia geral em 1991, deliberou-se pela substituição do nome Crab pelo de Movimento dos Atingidos por Barragens, gesto símbolo da tentativa de fundir organização e movimento, em um único instrumento coletivo. Araújo e Vainer (1989) destacam como pontos que favoreceram a transmutação da Crab de “comissão” para “movimento de massas”, as especificidades da categoria predominante no seu interior, o campesinato. Este segmento tinha uma tradição de luta no Alto Uruguai, seja por crédito, preços, juros etc. A proximidade física com o movimento dos sem terra, que tinha a região como um dos seus principais pontos de formação no Brasil, também é apontando como tendo contribuído para este processo.

No organograma anterior, a Crab tentava estruturar comissões locais em cada comunidade atingida, e comissões municipais, reproduzindo a nível local o mesmo formato organizativo existente a nível regional. Às “comissões” cabia prestar assistência e assessoria, distribuir informações aos atingidos e acompanhá-los nas negociações com a Eletrosul. Com o passar do tempo, as comissões locais dão espaço para os grupos de base, envolvendo todos os atingidos, e as comissões locais e regional, dão lugar à coordenação da Crab, com um grupo dirigente denominado “executiva da Crab”, responsável pelo trabalho cotidiano da organização a partir de sua secretaria, em Erechim / RS. Nota-se que paulatinamente, perdem- se na Crab a figura de presidente, secretário-geral etc, processo que vai moldando a estrutura organizativa do MAB existente até hoje. Para garantir mais coesão e representatividade, a

Crab incorpora cada vez mais agricultores atingidos na sua coordenação, acelerando a mudança de “comissão de assessoria”, pensada e constituída ainda em 1979, para um movimento de massas, que começa a ter contornos mais nítidos a partir das grandes mobilizações de 1983 e 1984 como veremos adiante, se consolidando neste formato a partir de 1986.

No processo, a troca do nome veria a ocorrer anos mais tarde, com o I Congresso Nacional do Movimento dos Atingidos por Barragens, que funda oficialmente o MAB em 1991. A partir daí, e durante toda a década de 1990, a organização dos atingidos na bacia do rio Uruguai passa de Crab, para Crab/MAB e finalmente, somente MAB ou MAB Sul. Por volta do anos de 1998, 1999 e 2000, o nome Crab é definitivamente abandonado e hoje faz parte apenas da história do MAB.

A transformação da Crab, de comissão para movimento de massas, ocorre no contexto de um amplo e intenso trabalho de base e formação política que lideranças inspirados nas idéia do “sindicalismo combativo”, desenvolveram em todos os municípios atingidas pelas usinas de Itá e Machadinho a partir de 1985. No município de Itá especificamente, destaca-se a figura de Nilo Brandi, jovem atingido que, em conjunto com outros agricultores, assumiria a primeira direção da Crab majoritariamente composta por atingidos, num momento em que os professores e assessores começam a sair de cena.

Estes atingidos, que assumem efetivamente a direção dos destinados da Crab, vão as bases é promovem uma reconstrução da identidade de atingido, a partir de uma reflexão mais profunda do significado das barragens dentro do modelo energético vigente no sistema capitalista brasileiro e a partir da própria condição ontológica de sua atividade produtiva. Ao atingido, neste momento, é ligada a definição a partir do tamanho de sua propriedade, e se definem pelas relações de produção colocadas, nas quais o trabalho familiar predominante é considerado explorado e submisso ao sistema econômico vigente no Brasil. Ao mesmo tempo, a identidade de atingido se expande quando abriga um sentido ampliado de propriedade, negando os limites jurídicos existentes e incorporando a dimensão social:

O “atingido proprietário” se identifica pelo direito á indenização, prevista em lei, e pelo direito insurgente de participar no processo de definição de valores que, sob a ótica do trabalho, redimensiona a restrita avaliação patrimonialista dos técnicos. Isto caracteriza um trabalho contra-

hegemônico, de recusa da ideologia dominante e de criação de novas representações. (MORAES, 1996 p.153).

Desse modo, no significado de propriedade da terra se incorpora também todos que nela trabalham, mesmo sem título de posse, ou seja, os sem terra, meeiros, parceiros, arrendatários, agregados etc. Estas categorias, assim como a anterior de pequenos proprietários, se definem na identidade de atingido a partir das relações de trabalho em que estão inseridos e colocados, consideradas por sua vez, também como trabalho explorado e submisso ao sistema capitalista.

Deste modo, a partir das relações de trabalho estabelecidas e do reconhecimento mútuo possibilitada por elas e, portanto, a partir de uma situação de classe dada, é que se molda a identidade de “atingido por barragem”, que encontra sua organização no MAB. Desta forma, mesmo divididos entre “proprietários” e “sem terra”, os atingidos por barragens se reconheçam, se identifiquem e se encontrem como classe no MAB. O termo atingido, pouco a pouco, vai perdendo o sentido de vítima passiva e passa a designar sujeitos ativos, capazes de ir a luta pela garantia de seus direitos. Neste momento, a Crab deixa de ser “comissão de representantes”, e passa a ser o “movimento social” inquestionável dos trabalhadores atingidos pela barragem de Itá.

4.6.3 –PEQUENOS PROPRIETÁRIOS AGRÍCOLAS E SEM TERRA: NO MAB A UNIDADE