Deste item, até o final do capítulo, reuniremos as técnicas que não só comunicam os conhecimentos, mas que também cumprem o papel de documentarem as elaborações dos alunos. Para Elias (1997, p. 40), assim como a afetividade, a cooperação e a comunicação, a documentação é um dos eixos da pedagogia Freinet, constituindo-se no “registro da história que se constrói diariamente”.
A correspondência interescolar compõe o espectro de técnicas voltadas tanto para a comunicação, quanto para a documentação da vida do grupo e da sociedade onde está inserido. É um instrumento político, pois estreita as distâncias para a discussão de temas de interesses comuns, promove as trocas de textos, relatórios de pesquisas, fotografias de aulas- passeios, postais, jornais, materiais para pesquisas, vídeos feitos por um grupo de alunos, CDs e fitas cassetes produzidas num ateliê de música ou em outro qualquer, enriquecendo as experiências mútuas e favorecendo à construção de atitudes solidárias e de vínculos de amizade e companheirismo.
Nos estudos de Elias (1997, p. 67 - Grifo da autora) sobre a proposta de Freinet, destaca: “Na pedagogia Freinet a correspondência é o elemento essencial para estimular o equilíbrio, a comunicação, a expressão, a afetividade, a pesquisa, os conhecimentos, fonte permanente de realização individual e coletiva.” Fazemos questão de ressaltar o quanto é significativa a contribuição desta autora, acerca da discussão sobre tão importante técnica, deixando-a como referência para aqueles que desejem se aprofundar na temática, bem como desenvolver estudos sobre a obra freinetiana.
Em se tratando da prática, a correspondência é organizada entre turmas de duas escolas, preferencialmente de regiões diferentes, pois as diferenças culturais tendem a ser um componente motivador, juntando-se ao fato das trocas serem instigantes, pela dificuldade do encontro presencial. Não só os alunos se correspondem, pois é igualmente significativo o intercâmbio entre os educadores, coordenadores e diretores, que passam a trocar experiências.
É pelas mensagens e envios coletivos que tudo começa, evoluindo para a prática entre duplas ou trios de alunos. Nos tempos atuais, os intercâmbios se dão utilizando os Correios, aparelhos de fax e a internet. Nesta última, seja através de e-mails ou em salas de bate papo, quando os correspondentes combinam momentos para discutirem determinadas questões e definem o provedor, que permitirá o encontro virtual.
É inegável a revolução que a tecnologia informática tem promovido, produzindo os seus efeitos nos processos de ensino e aprendizagem, pela rapidez com que se pode divulgar e ter acesso a um universo de informações, em qualquer hora do dia. Os trabalhos de Lévy (1993; 2000), filósofo francês, que trata de modalidades de comunicação numa perspectiva humanizadora da tecnologia informática, provocam a reflexão sobre a importância de superar a dicotomia homem/técnica, historicamente alimentada.
Levy (2000) sugere que pensemos em novas formas de trabalhar, de conhecer e de comunicar, a partir da socialização da inteligência, que denomina como Inteligência Coletiva, entendida no sentido da expressão trabalhar em comum acordo. Este autor, afirma: “Toda atividade, todo ato de comunicação, toda relação humana implica um aprendizado. Pelas competências e conhecimentos que envolve, um percurso de vida pode alimentar um circuito de troca, alimentar uma sociabilidade do saber” (LEVY, 2000, p. 27).
Neste sentido, a aprendizagem é colocada como mediadora das relações humanas, portanto, entendemos como sendo mobilizadora dos intercâmbios escolares. A construção de significados é representada por Lévy (1993) pela metáfora do “hipertexto”, que caracteriza a comunicação através das tecnologias informáticas, quando articulam oralidade, escrita, sons. Esta idéia é interpretada de forma muito interessante por Machado (1999, p. 144), que se utiliza dos mesmos fundamentos que caracterizam o hipertexto para apresentar a sua metáfora do conhecimento como rede, idéia já discutida neste trabalho.
Logo, no dizer de Machado (1999, p. 138), “a idéia de conhecer assemelha-se à de enredar”, assim como à comunicação e as trocas pela tecnologia informática implicam em enredar relações, informações e múltiplos canais. Alertamos para o fato que não temos aqui a pretensão de aprofundar nenhuma dessas idéias, mas assinalar o quanto foi de vanguarda a proposta de correspondência interescolar, iniciada por Célestin Freinet.
A necessidade do enriquecimento mútuo entre pessoas, provoca um movimento de enredar, de trocar saberes, democratizando o acesso ao conhecimento produzido. Com os intercâmbios, transcende-se a lógica de que cabe somente à escola ou aos professores a função de mediadores entre os sujeitos e os objetos de conhecimento, exemplo disto é que entram em cena, nos atuais discursos educacionais, as chamadas comunidades de aprendizagem, expressão que identifica a maneira como coletivos de pessoas estão, a distância, se organizando com o objetivo de se complementarem, de se conhecerem a partir das informações socializadas entre si e de comunicarem as suas aprendizagens através das ferramentas de multimídia.
Podemos dizer que o Movimento Internacional de Educadores Freinet, organizado pela Federação Internacional dos Movimentos de Escola Moderna – FIMEM, representa um exemplo vivo de “Comunidades de Aprendizagens”, pois a interação e o intercâmbio entre os seus membros, funciona como peça fundamental do grupo. O fazer de um, interessa aos demais e obras podem ser construídas por muitos, recorrendo-se, principalmente, à comunicação via sistema de e-mails.
Na Escola Freinet, durante a nossa pesquisa, fizemos, pessoalmente, tentativas para introduzir a correspondência interescolar nas turmas de 5ª a 8ª séries. Contatos com escolas de outros Estados brasileiros foram feitos (ANEXOS – O e P), mas apenas a turma da 5ª série chegou a trocar pelos Correios. Talvez por falta de uma mediação adequada, o conteúdo de algumas cartas causou insatisfações a determinados alunos, que sentiram-se incomodados com os comentários dos correspondentes acerca dos conteúdos das suas auto-descrições.
Um contato, por telefone, da professora da escola correspondente, com a coordenação da Escola Freinet, tratava da proposta dos alunos da 5ª série, de ambas as escolas, realizarem uma discussão virtual, através da sala de bate papo. ETAP1 nos informou que tudo teria ficado agendado e que havia repassado para ETAP4 coordenar o trabalho, pois tinha mais
conhecimentos das tecnologias informáticas. Estranhamente, a discussão não aconteceu e somente após vários dias, por nossa insistência, ETAP4 fez contato, justificando-se perante ao grupo da outra escola.
A quebra do ciclo, no nosso entendimento, decorreu da falta de percepção da equipe, quanto a riqueza de uma experiência de correspondência interescolar, como aquela que iniciava-se. Sendo assim, não houve investimento. Tal prática, apresenta-se coerente com as falas durante as entrevistas, cujo conteúdo revela pouca fundamentação quanto aos sentidos do projeto freinetiano e, portanto, daqueles que orientam a prática pedagógica da Escola Freinet. Sem ocorrer cumplicidade entre a equipe pedagógica e a proposta da escola, esbarra- se num descompasso entre teoria e prática.