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8.2 Example and output from PRINT-FIELD
Até agora, de todas as palavras apresentadas neste texto, ao menos três – segurança, violência e crime – estão associadas ao medo e vêm ganhando contornos de fenômeno social nas mais variadas discussões e produções acadêmicas. Bauman (2009) comenta que a ―forte tendência a sentir medo e obsessão maníaca por segurança fizeram a mais espetacular das carreiras‖.
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Por outro lado, o medo de ser a próxima vítima levou muitos indivíduos a uma segregação espacial. Esta segregação não tem classes: pode tanto fazer com o indivíduo e seus familiares se isolem na periferia ou nos morros, como nos condomínios de luxo. O que para Caldeira (2000, p. 211) são enclaves fortificados: ―trata-se de espaços privatizados, fechados e monitorados para residência, consumo, lazer e trabalho. A sua principal justificação é o medo do crime violento‖, e cada um vive em seu próprio mundo. Para a autora, o medo e a violência combinam com processo de mudança social com outra configuração espacial.
O medo é natural, escreveu Delumeau, e cita Sarte em seu texto (2001: p.19): ―Todos os homens têm medo. Todos. Aquele que não têm medo não é normal, isso nada tem a ver com coragem. A necessidade por segurança é portanto fundamental [...] a insegurança é símbolo de morte e a segurança é símbolo de vida‖.
Pode-se fazer um paralelo da pesquisa de Caldeira e do pensamento de Delumeau com o que traz Bauman (2009), ao citar o pensamento de Castel de que a sociedade moderna substituiu as comunidades antigas, o que obrigou o indivíduo a cuidar de si próprio. A fragilidade e a vulnerabilidade do indivíduo ―desprovido de proteção‖ fizeram aflorar o individualismo, e coube ao Estado a administração do medo.
Milton Santos argumenta, em seu estudo sobre globalização, que:
―Jamais houve na história um período em que o medo fosse tão generalizado e alcançasse todas as áreas da nossa vida: medo do desemprego, medo da fome, medo da violência, medo do outro. Tal medo se espalha e se aprofunda a partir de uma violência difusa, mas estrutural, típica de nosso tempo, cujo entendimento é indispensável para compreender, de maneira mais adequada, questões como a dívida social e a violência funcional, hoje tão presentes no cotidiano de todos‖ (2000, p. 58).
E além do medo do próprio homem pelo homem, também é possível incluir aí o medo do Estado, representado pela ação da polícia, descrença no sistema judiciário e a falta de proteção aos direitos individuais e coletivos, que
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CAPÍTULO 2 – COMUNICAÇÃO: POR UMA COMUNICAÇÃO
PARTICIPANTE
Extensão ou comunicação?
Não há pensamento isolado, pois não há homem isolado. Todo ato de pensar exige um sujeito
que pensa, um objeto pensado, que mediatiza o primeiro do segundo, e a comunicação entre ambos, que se dá através de signos linguísticos.
O mundo humano é, desta forma, um mundo de comunicação.
Paulo Freire
2. 1 Desvelando conceitos
O mundo acadêmico não tem abordagens lineares para o conceito de comunicação. O exemplo disso são as diversas definições que vão além do que traz Carlos Alberto Rabaça e Gustavo Guimarães Barbosa, conforme será detalhado neste capítulo. Porém, para os pesquisadores Comunicar(ação) entende-se como:
Conjunto dos conhecimentos (linguísticos, psicológicos, antropológicos, sociólogos, filosóficos, cibernéticos etc.) relativos aos processos da comunicação. Disciplina que envolve esse conjunto de conhecimentos e as técnicas adequadas à sua manipulação eficaz. Atividade profissional voltada para a utilização desses conhecimentos e técnicas através dos diversos veículos (impressos, audiovisuais, eletrônicos etc.). Neste sentido, a comunicação abrange diferentes especializações (jornalismo impresso, jornalismo audiovisual, publicidade e propaganda, marketing, relações públicas, editoração, cinema, televisão, teatro, rádio, internet etc.), que implicam funções objetivas e métodos específicos. Palavra derivada do latim communicare, cujo significado seria ―tornar comum‖, ―partilhar‖, ―repartir‖, ―associar‖, ―trocar opiniões‖, ―conferenciar‖―. Implica participação, interação, troca de mensagens, emissão ou recebimento de informações novas (Rabaça e Barbosa, 2001, p.155).
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Os autores ainda fazem uma ampla pesquisa em outras áreas do conhecimento acadêmico, incluindo as referências de outros pesquisadores (2001,; p.156-159).
Estabelecimento de uma unidade social entre seres humanos, pelo uso de signos de linguagem. [...] Toda comunicação procede por meio de signos, com os quais um organismo afeta o comportamento do outro (ou, de modo mais geral, o estado do outro). [...] Comunicação não é a resposta em si mesma, mas é essencialmente a relação que estabelece com a transmissão do estímulo e a evocação da resposta. (Colin Cherry).
Faculdade de tornar comum aos outros não somente as coisas externas a ele, mas também ele próprio e suas ações mais íntimas da consciência – ideias, vontades, estados d‘alma. (E.Baragli) A comunicação é o processo da participação da experiência para
que se torne patrimônio comum. Ela modifica a disposição mental das duas partes associadas. A sociedade não só continua a existir pela transmissão, pela comunicação, como também se pode perfeitamente dizer que ela é transmissão e comunicação. (J. Dewey)
Comunicação significa informação que passa de um lugar para outro. (G. Miller)
Comunicação não se refere somente à transmissão verbal, explícita e intencional de mensagens. [...] O conceito de comunicação inclui todos esses processos por meio dos quais as pessoas influenciam outras pessoas. [...] Esta definição se baseia na premissa de que todas as ações ou eventos têm aspectos comunicativos, assim que são percebidos pelo ser humano; implica, além disso, que tal percepção modifica a informação que o indivíduo possui, por conseguinte, influencia esse indivíduo. (J. Ruesch e G. Bateson)
Comunicação inclui todos os procedimentos por meio dos quais uma mente pode afetar outra mente. Isto, obviamente, envolve não somente a linguagem escrita e oral, como também música, artes pictóricas, teatro, balé e, na verdade, todo comportamento humano. (W. Weaver)
Transmissão de informações, ideias, emoções, habilidades etc., por meio do uso de símbolos – palavras, imagens, figuras, gráficos etc. É o ato ou processo de transmissão que geralmente recebe o nome de comunicação. (B. Berelson e G. Steiner)
Comunicação significa estar em relação com. Representa a ação de pôr em comum, de compartilhar as nossas ideias, os nossos sentimentos, as nossas atitudes. Nesse sentido, identifica-se com o processo social básico: a interação. É uma troca de experiências socialmente significativas; é um esforço para a convergência de perspectivas, a reciprocidade de pontos de vista e implica, dessa forma, certo grau de ação conjugada ou cooperação. Para tanto, toda sociedade adota um conjunto de signos e de regras que, por força das convenções tácita e coletivamente aceitas, deixa de ser arbitrário. Daí que se optássemos por símbolos inteiramente novos e estranhos, isso nos isolaria do resto da comunidade. (E. Menezes).
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Todos estes conceitos podem ser resumidos sob duas principais abordagens e seus respectivos desdobramentos:
Comunicação como transmissão de informação de um emissor para um receptor com os seus específicos meios.
Comunicação como processo para estabelecer relações.
Juntar as duas abordagens é reconhecer a comunicação como transferência de informação e em cujos processos são estabelecidas relações.
O homem é, também na sua essência, um ser que transmite – o meio – informação o tempo todo. Seja por meio do visual e do físico, ou na maneira de sentar e andar, nos gestos e olhares. Está carregado de informações que revelam traços individuais da personalidade, preferências, gostos, etc. Como descreve McLuhan (1964, p.95): ―Dave Micke geme, grunhe, rebola, canta, trauteia, entoa, corre, sempre reagindo às suas próprias ações. Ele se move quase que inteiramente na área da experiência falada, e não da escrita, criando, desse modo, a participação da audiência‖. O personagem está transmitindo informações em toda a cena, de maneira verbal ou não verbal, sobre si mesmo e sobre a cultura da qual participa.
No processo de relacionamento em que há trocas de informações com interlocutores, adota-se um conjunto signos e de regras decifráveis que, anteriormente para sua utilização, foram estabelecidos e convencionados coletivamente26.
Dessa forma a comunicação, portanto, não se refere somente à transmissão oral ou escrita, explícita e intencional de mensagens. É um processo social resultante das variadas possibilidades de expressão do ser humano e de suas necessidades de estabelecer relacionamentos. Integra múltiplos modos de comportamentos, que transcendem a expressão oral e escrita, como o gesto, o olhar, a mímica, o espaço e até mesmo o silêncio.
26. O conceito é defendido no artigo de Rosangela Eugenia Gonçalves Nascimento, intitulado
―Os desafios da comunicação interpessoal nas relações do Programa Integração AABB Comunidade‖ (p.52-56), publicado em 2010 para o Programa AABB Comunidade da Fundação Banco do Brasil. Disponível em: aabbcomunidade.com.br/sms/files/file/moduloC2010.pdf. Acesso em: 15 dez. 2011.
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Nesse sentido, todas as ações assim que são percebidas pelo homem têm aspectos comunicativos. Implica, além disso, que tal percepção agrega e modifica a informação que o indivíduo já possui, por conseguinte, influencia esse indivíduo.
Pode-se afirmar que a existência do homem só é possível por meio da comunicação. Ela permeia toda a vida. Em qualquer momento e lugar, onde existir vida humana, existirá comunicação. Negar a comunicação é negar a existência. Todas as realizações humanas se tornaram possíveis graças a essa capacidade de cada um estabelecer relacionamento e compartilhar pensamento com outros sujeitos, através dos processos comunicacionais, em que o individuo é ao mesmo tempo emissor, mensagem, mídia e receptor de informações.
Mauro Wilton de Sousa27, pesquisador da comunicação, divide a história da comunicação em três fases:
A) A mais longa, que permanece viva em todas as outras fases, ―são os sons, gestos e signos escritos, quando o diálogo das pessoas podia ser vivenciado em comunidades nas quais a distância física não era pressuposto mais difícil da integração social‖. Para o autor, o código da escrita ―é, ainda hoje, a base dos protocolos sociais do poder e do viver individual e coletivo‖.
B) Mediada por processos de emissão de mensagens, ―a presença da técnica tornou-se o novo modo pelo qual os homens passaram a realizar o princípio de diálogo a distância, que se desenvolveu no contexto da industrialização e urbanização‖.
C) É o desdobramento do processo da industrialização com a transformação produtiva, e como ―dá lugar à sociedade dos serviços, das linguagens e processos, a comunicação deixa de ser apenas mediática e coletiva para se tornar digital‖ (2003, p. 21-22).
Para Kurt Lang (1989, p.369), há um divisor de águas na história, quando afirma que as raízes históricas da moderna pesquisa da comunicação remontam ao século XIX, altura em que os acadêmicos começaram suas investigações sistemáticas acerca das mudanças nos padrões de vida trazidas pela Revolução Industrial.
27 Mauro Wilton de Sousa. Professor doutor, livre-docente e pesquisador da Escola de
Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. A ideia em questão encontra-se nos textos: ―O lugar social da comunicação mediática‖ e “Recepção e comunicação: a busca do
sujeito‖. Este encontra-se disponível no site
www.latinoamericano.jor.br/aulas/teoria_comunicacao/ Recepcao-MauroW.pdf. Acesso em: 12 jan 2012.
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Em estudo recente publicado em 2007, intitulado ―Manual de Teoria da
Comunicação‖, J. Paulo Serra introduz sua obra apontando que a ―comunicação assumiu um lugar tão central nas nossas sociedades que se tornou corrente a afirmação de que vivemos em plena sociedade da comunicação‖ (p.1). E continua o raciocínio fazendo a seguinte indagação: ―Porque é que a nossa sociedade se tornou uma sociedade de tal forma ‗conquistada pela comunicação‘ que, quer individual quer coletivamente, nos encontramos submetidos a uma verdadeira ‗obrigação de comunicação‘?‖ Serra aponta três respostas para a pergunta e uma delas é a que tem coerência com a esta pesquisa: ―[...] que a natureza ‗democrática‘ das nossas sociedades, em que os processos de decisão assentam cada vez mais, pelo menos idealmente, na discussão entre os participantes, na troca de informações, na própria mediatização, exige o alargamento constante das ‗trocas comunicativas‘‖ (2007, p.9).