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A concepção de processos referenciais anafóricos que adotamos nesta pesquisa está pautada na ideia de que a de construção dos objetos de discurso não se limita a remissões e retomadas de elementos linguísticos explicitados no cotexto, uma vez que tal processo é realizado por inferências várias, dependendo de dados de contextos, mais amplo e imediato, e de conhecimentos partilhados na interação entre os interlocutores.

A referenciação, contudo, propõe aos sujeitos da interação verbal operar sobre o material linguístico que têm à disposição para fazer escolhas significativas para representar estados de coisas com vistas à concretização de sua proposta de sentido, conforme atesta Koch (2006). Nesse processo de elaboração de sentidos no texto, de acordo com a linguista, o produtor precisa ajustar as palavras para viabilizar propósitos e intenções comunicativas, relacionando representações de mundo, conhecimentos, crenças e linguagem.

Sendo assim, as expressões referenciais constituem-se como estruturas linguísticas, utilizadas como marcas na superfície textual para manifestar a

representação de um objeto de discurso. Além disso, funcionam como pistas de sentido que o produtor oferece no texto para que o interlocutor possa fazer as ancoragens nos contextos, imediato e mais amplo, de modo a realizar as inferências necessárias para atribuir sentidos ao texto.

Marcuschi (2008) considera formas remissivas referenciais todos os elementos linguísticos que estabelecem referências com base nas possibilidades referidoras, como sinônimos, grupos nominais definidos, entre outros. Na análise que empreendemos, identificamos as escolhas lexicais do produtor que se encaixam na classificação de Marcuschi (2008) como formas remissivas referenciais, sobretudo, mas não exclusivamente, as formas nominais.

Koch e Penna (2006) observam que a escolha de formas nominais constitui um meio estratégico de operar com objetos de discurso. Esse processo permite inserir os interlocutores em uma moldura comum de conhecimentos compartilhados, além de confirmar ou frustrar as expectativas do leitor, abrindo espaço para uma negociação na construção de sentidos.

Para as autoras, as formas nominais referenciais são as melhores representantes das escolhas do produtor de texto com vistas à concretização de seus objetivos comunicativos (KOCH; PENNA, 2006). Além disso, as expressões nominais remissivas funcionam como a espinha dorsal do texto, uma vez que permitem que o interlocutor, com base na maneira como tais expressões se encadeiam e remetem umas às outras, siga um roteiro que vai orientá-lo para determinados sentidos implicados no texto e, consequentemente, para as leituras possíveis que dele se projetam.

Com base nessas formulações, tomamos as formas nominais como pistas lançadas na superfície textual, as quais delineiam um caminho para identificar e efetivar os processos referenciais anafóricos. Cabe esclarecer que consideramos as formas nominais de maneira ampla; incluímos nessa categoria tanto nomes próprios quanto sintagmas nominais (SN) – compostos por determinantes e modificadores –, sem restringir os determinantes a apenas artigos definidos ou pronomes demonstrativos ou SN, sem determinantes.

Além disso, consideramos que os pronomes substantivos expressos em demonstrativos, indefinidos e os pronomes pessoais de 3ª pessoa também podem funcionar como expressões referenciais para a realização anafórica. Para tanto,

fundamentamo-nos em Charolles (2002, p. 241-242, apud CAVALCANTE, 2011, p.47) para quem

os nomes próprios, os SN definidos, demonstrativos, indefinidos não esgotam o estoque de expressões referenciais que o francês põe à disposição dos locutores, mas estas formas muito utilizadas, às quais é necessário notadamente acrescentar os possessivos e os SN sem determinantes, permitem responder a uma gama ampla de situações e de intenções comunicativas. Elas oferecem aos sujeitos que as utilizam a possibilidade de explorar e de acrescentar dimensões do contexto que são bem mais sutis do que possamos imaginar.

As formas nominais, como marcas na superfície textual, efetivam os processos referenciais anafóricos no texto e concorrem para construir a representação dos objetos de discurso e para orientar o processo de ancoragem nos contextos, imediato e mais amplo. Assim, conforme orientam Cavalcante et al. (2010), entendemos que as anáforas exorbitam as relações cotextuais, embora não prescindam delas.

Nesse capítulo, apresentamos a noção de referenciação que nos respalda neste estudo. A referenciação diz respeito a um processo dinâmico de construção de objetos discurso que se dá por recategorizações, na interação entre sujeitos situados socialmente, em que estão implicadas determinações linguísticas, cognitivas e socioculturais.

Entre os processos referenciais, abordamos as anáforas que, por meio de retomadas e remissões, são responsáveis por confirmar a construção da representação de objetos de discurso e por operar a sua evolução no texto, garantindo, assim, a progressão referencial. Tratamos também da vocação argumentativa dos processos referenciais anafóricos, ao confirmar as representações dos objetos de discurso no texto.

Por suas características e pelas funções que desempenham no processamento textual, os processos referenciais anafóricos constituem-se como estratégias textual-discursivas de que o produtor pode lançar mão para atender a uma demanda de produção escrita, ou seja, a uma prática social de linguagem.

Respaldados na fundamentação teórica, desenvolvida ao longo dos capítulos anteriores, no próximo capítulo, apresentamos a análise das seis redações de vestibular, que selecionamos a título de exemplificação. No empreendimento analítico realizado, evidenciamos a relação entre os processos referenciais anafóricos e a exposição do posicionamento do produtor frente a um dado tema.

Capítulo 4. Análise dos processos referenciais anafóricos em redações

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