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Nas instituições escolares, a forma como se ensina o adulto ler e a escrever ainda é voltado para um ensino normativo, seja em comunidades rurais do Nordeste brasileiro, seja nos grandes centros urbanos do Sul do país. No que diz respeito, entretanto, às práticas de escrita trabalhadas em cursos de formação por professores que vivem em assentamentos rurais do RN, particularmente nas oficinas de linguagem do Projeto Saber da Terra, observa-se que estas têm-se apresentado geralmente para atender às necessidades imediatas desse grupo.

Se olharmos a escrita dos professores, objeto de nosso estudo, de forma superficial, ela parece ter, num primeiro momento, funções de caráter basicamente funcional (elaboração de relatórios, preenchimento de atas e formulários, entre outros documentos). Entretanto, se a olharmos mais criteriosamente, essa escrita assume um caráter eminentemente social, na medida em que passa a ter uma função mais socializante, ou seja, de legitimação ou fortalecimento do grupo ao qual os colaboradores pertencem, orientando-se por objetivos emancipadores, haja vista que eles vêm vivenciando processos de socialização que os relacionam a saberes,

valores, normas e papéis característicos do seu grupo social, os quais influenciam suas formas de ver o mundo.

Nesse sentido, nos assentamentos rurais, o trabalho com as práticas sociais de linguagem não é feito da mesma forma que no contexto escolar, razão por que esses agentes sociais não podem ser chamados simplesmente de professores. Na verdade, enquanto agentes de transformação, eles mobilizam táticas, conhecimentos, capacidades e recursos em favor de ações de uma comunidade específica, com vistas à aprendizagem. São, nas palavras de Kleiman (inédito), ‘agentes de letramento’.

A produção de cartas por professores no contexto dos seminários de formação do Projeto Saber da Terra, mais especificamente nas oficinas de linguagem, apresenta características históricas, culturais e sociais próprias, na medida em que resgata a história de vida deles, que se confunde com a história do assentamento, o que se observa em suas concepções, desejos, sonhos, sentimentos. Assim, a escrita de cartas se constitui numa prática social legítima desses professores.

Antes de iniciarmos a análise propriamente dita, é bom lembrar que [...] a divisão dos tópicos analíticos entre análise textual e análise da prática discursiva, segundo Fairclough (2001, p. 102), não é nítida. Para facilitar a análise e entender melhor os construtos, optamos por transcrever as cartas na íntegra, bem como o uso de alguns trechos das referidas cartas, proporcionando assim uma maior visibilidade às observações feitas.

Olhar as cartas como um evento discursivo implica considerar a linguagem como uma entidade multifuncional, no sentido de que integra significados ideacionais, interpessoais e textuais, conforme postulado por Halliday (1978).

O significado ideacional corresponde à maneira como as pessoas representam a realidade, criando certos conhecimentos e crenças. Para Fairclough (2001, p. 104), o significado ideacional deve ser explorado a partir da noção de transitividade, vista no âmbito do léxico e da gramática de um texto. Os elementos léxico-gramaticais vão evidenciar, textualmente, quem faz/ quem é/ quem pensa/ quem diz, em que circunstâncias e o que faz. Esses aspectos serão evidenciados na análise textual.

Baseado na Lingüística Sistêmica Funcional (LSF), de Halliday (1978), Fairclough (2001) compreende que a realidade é representada por orações com três componentes: processos (verbos), participantes (grupos nominais) e circunstâncias (grupos adverbiais), que serão ilustrados na carta 1, a seguir.

CARTA 1

Senhor presidente e através desta carta que venho solicitar melhorias para nosso

assentamentos.

Portanto estamos presizando de poços, postos de saúde, colégio para crianças e se possível o programa

“Saber da Terra - pronera” ter continuida- de em nossas comunidades.

Este programa e de muito valor para os assentados.

Espero ser atendida Caro Companheiro Lula.

AL

A realidade dos assentamentos, conforme se observa na oração: [...] venho solicitar melhorias para o nosso assentamentos, é representada pela presença dos três componentes citados, evidenciando o presidente e o “eu” como atores sociais, e a ação realizada pelo escrevente que o de solicitar melhorias para o assentamento, ficando reservado para o endereçado – o presidente, a ação de atender ou não. A ação do escrevente revela, naturalmente, por sua vez, aspectos do universo social em que vive: a falta de infra-estrutura básica no assentamento, de poços, postos de saúde e colégio para as crianças.

Em outro trecho da referida carta, a professora AL revela acreditar na força do Projeto Saber da Terra, que, segundo ela, é de muito valor para os assentados e, por isso, precisa continuar no assentamento. Já no final da carta, AL emprega o verbo “esperar”, que, por sua vez, denota esperança. Nesse caso, a esperança de ser atendida pelo Companheiro Lula. Além disso, manifesta uma informalidade espontânea, tratamento típico dos militantes do mesmo partido do Presidente, o Partido dos Trabalhadores (PT).

O significado interpessoal, nas palavras de Fairclough (2001, p.175), diz respeito

às formas como as relações sociais são exercidas e as identidades sociais são manifestadas no discurso, mas também, naturalmente, a como as relações sociais e as identidades são construídas (reproduzidas, contestadas e reestruturadas) no discurso.

Segundo ele, as identidades e relações sociais podem ser marcadas por orações declarativas. Nesse caso, a forma verbal no presente do indicativo indica autoridade, ou seja, a voz do professor tem legitimidade para falar sobre si e sobre o assentamento. A esse respeito, vejamos o exemplo a seguir:

CARTA 2

Estremoz Natal RN 6/10/03 Os meus cumprimentos:

Encelência, e Emcelenticimo Snhr: Pesidente, da República Luis Inácio.

Êu envio-estas traçadas linhas, para que tenha o conhecimento que sou um assentado no ass: Barrêto I. Em Bento Fernandes RN: trabalho e quero trabalhar só que: a cituação financeira, é difícil. Mais espero que cumpra com

o pedido que lifiz.

Além de trabalhar nas minhas atividades também encino; para quê o meu alunado se desenvolva: isto para q o Brasil creça e só pode crescer com educação.

Atenciozamente lhi agradeço. AGS

Na carta 2, AGS, ao fazer uso de orações declarativas, marca a sua posição como assentado, trabalhador rural e professor. Embora realize várias atividades (é agricultor e ensina), ele não se vê como um trabalhador produtivo, capaz de prover as suas necessidades de sobrevivência. Na verdade, ele se identifica com um desempregado.

A repetição do verbo trabalhar, em Trabalho e quero trabalhar (grifo nosso), indica uma negação a um discurso assistencialista, comumente dirigido às autoridades políticas e posto em prática pelo atual Governo.

Ao mesmo tempo em que usa o verbo cumprir, em [...] espero que cumpra o pedido que lifiz (grifo nosso), que denota obrigação, exigência, aludindo ao discurso de campanha do Presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva de geração de emprego e reforma agrária, ASG emprega o substantivo pedido que, implicitamente, se refere a trabalho e se contrapõe à idéia de exigência, uma vez que denota rogo, solicitação. Nesse sentido, o discurso constrói identidades sociais em confronto, entre alguém humilde que pede e um cidadão, que cobra seus direitos, isto é exige.

Embora AGS não se considere um trabalhador cujo trabalho é produtivo e rentável, ele se identifica como alguém que contribui para o crescimento da nação através da sua ação educativa (eu ensino para que o meu alunado se desenvolva), reproduzindo o discurso da Educação como fator de desenvolvimento.

O significado textual diz respeito ao tema ou tópico da oração. Nas cartas analisadas, dois temas se destacam: as histórias dos assentamentos e as histórias de vida dos escreventes. Isso ocorre em função da forma como se estrutura a informação de um modo geral, cuja função é de nos informar a respeito do que trata o texto diante de uma dada realidade social. Os professores representam a realidade por meio de cartas pessoais, que são portadoras de reivindicações, pedidos, agradecimentos, angústias etc., pelo fato de suas histórias de vida e histórias do assentamento se confundirem. Observamos isso na carta 3.

CARTA 3 06-10-2003

Senhor presidente sou professora do assenta- mento Canto Comprido, estou escrevendo estas poucas linhas para informa-lo que nossa situação não

é nem um pouco boa, primeiro vem a água

que nos não temos, alguns assentados estão indo embora para procurar trabalho em outras cidade por que não pode mais ver os seus filhos sem o pão do dia-a-dia.

So quero que o senhor faça alguma coisa Por nós que confiamos tanto no Senhor.

M

Com relação ao tema, na passagem [...] primeiro vem a água que nós não temos [...], observa-se a existência de um período composto ligado pelo pronome relativo que. Este retoma o termo água, que passa a ser o tema da segunda oração, não coincidindo, pois, com o sujeito nós. Água compreende o tema, o elemento posto em destaque em detrimento das próprias pessoas, representadas pelo nós, uma vez que é o bem natural que permite a sobrevivência da comunidade e cuja falta leva muitos assentados a saírem do campo, conforme afirma o próprio escrevente.

3.1.1 A carta como texto

No modelo tridimensional do discurso, proposto por Fairclough (2001), cada evento discursivo é analisado na ótica de três dimensões que se complementam, o texto, a prática discursiva e a prática social.

A dimensão textual privilegia a descrição dos elementos lingüísticos, tais como vocabulário, gramática, coesão e estrutura textual.

Explorar o vocabulário implica trabalhar os processos de lexicalização (significação), que podem ser vistos de várias maneiras. Nas palavras de Fairclough (2001, p. 230):

Isso significa que como produtores estamos diante de escolhas sobre como usar uma palavra e como expressar um significado por meio de palavras, e como intérpretes sempre nos confrontamos com decisões sobre como interpretar as escolhas que os produtores fizeram (que valores atribuir a elas). Essas escolhas e decisões não são de natureza puramente individual: os significados das palavras e a lexicalização de significados são questões que são variáveis socialmente e socialmente contestadas, e facetas de processos sociais e culturais mais amplos.

No domínio de experiência desses escreventes, esse processo de lexicalização se dá através das seguintes lexias: substantivos, adjetivos, pronomes, verbos e advérbios.

O Campo Lexical que envolve os substantivos é bastante variado, como podemos observar no quadro 1:

Substantivos:

Presidente, carta, melhoria, assentamento, poços, posto de saúde, colégio, crianças, programa, Saber da Terra, continuidade, comunidade, valor, assentado, companheiro, Lula, Extremoz, Natal, RN, cumprimento, Luiz Inácio, linhas, conhecimento, Bento Fernandes, situação, pedido, atividades, alunado, Brasil, educação, Ceará-Mirim, professora, situação, água, trabalho, cidade, filho, pão, dia, coisa, abraço, governadora, monitor, Santa Clara II, medida, possível, exames de vista, aluno, desistência, sala de aula, motivo, atividades, evasão, pessoas, problema, transformação, forma, militante, movimento, governo, cargo, lado, movimento, posição, país, administração, casos, consciência, partido, ano, providências, parte, contribuição, mudança, meio, desenvolvimento, irrigação, presente, arco-íris, cor, carteiro, reforma agrária, saúde, dedicação, Assentamento Seridó, São José do Seridó, história, vida, outubro, Projeto de Assentamento Arizona, São Miguel de Gostoso, amigo, Jair, comunidade, Cana Brava, Pureza, agricultor, coordenador, grupo de trabalho, produção, abacaxi, milho, feijão, mandioca, cultura, subsistência, pretensão, projeto, muda, horta, criação de galinhas, grupo, educador, campo, fim, analfabetismo, experiência, Anca, Alfabetização Solidária, capacitador, amigo, Antonia, oficina, fazenda, moradores, Incra, galpão, casa, cocheiras, receio, tempo, idéia, vez, recurso, condição, sobrevivência, momento, Agrovila São Pedro, alfabetizandos, prédio, escola, instalação, energia, certeza, vivência.

QUADRO 1 – CAMPO LEXICAL: SUBSTANTIVOS

Em nosso estudo, os substantivos vão evidenciar as pessoas, os objetos e as entidades que fazem parte do assentamento e revelam a vida dessas comunidades, ou seja, como (sobre)vivem, trabalham e estudam no campo. Tomemos por exemplo os substantivos poços, postos de saúde, colégio, sala de aula, energia elétrica, poços e irrigação, relacionados com a infra-estrutura básica necessária para a sobrevivência da comunidade. Essa realidade faz parte da maioria dos assentamentos não só do Rio Grande do Norte, como também de todo o Brasil.

Substantivos como militante, agricultor, coordenador e monitor são responsáveis pela construção da identidade dos escreventes e estabelecem relações de oposição com outros, como Presidente, governadora e governo, dada a hierarquia que há entre esses diferentes papéis sociais. Por outro lado, revelam uma aliança com companheiro, que naturaliza a prática ideológica de que o presidente é um companheiro de luta dos assentados, alguém com origem nos movimentos sociais como eles.

Alguns substantivos referem-se à própria sobrevivência dos assentados, como a cultura de subsistência (plantação de milho, feijão, mandioca e abacaxi), a produção de mudas e hortas orgânicas e a criação de galinhas caipiras.

Outros como educação, governo, movimentos, cargo, país, administração, partidos, providências, consciência, mudança, desenvolvimento, problemas, reforma agrária, trabalho e saúde estão relacionados às questões sociais mais amplas e à própria consciência política dos professores.

Adjetivos:

Atendida, difícil, bom/boa, forte, escolar, social, autônomo, político, urgente, agrícola, climática, verde, amarelo, azul, branco, agrário, digno, estimulante, orgânico, caipira, excelente, grande, último, abandonado, vazio, longe, diverso, muito, melhor, infantil, novo, amplo, elétrico, breve.

QUADRO 2 – CAMPO LEXICAL: ADJETIVOS

Alguns adjetivos revelam juízos de valores que os escreventes fazem acerca de suas próprias condições de vida, como é caso de difícil, boa (nossa situação não é nem um pouco boa, carta 3), abandonada, vazias.

Da mesma forma que muitos dos substantivos, outros adjetivos fazem parte do universo dos assentamentos, como é o caso de agrícola, agrária, orgânica e caipira.

Adjetivos como atendida, escolares, urgentes, bom, digna, melhores e breve mostram o que eles almejam em relação às suas condições de vida: atendida (espero ser atendida, carta 1), escolares ([...] para que possa realizar suas

atividades escolares., carta 4), urgentes (providências urgentes, carta 5), digna (reforma agrária digna, carta 6), melhores (melhores condições para o trabalho e sobrevivência, carta 8) e breve (até breve, carta 8).

Particularmente, os adjetivos verde, amarelo azul e branco (carta 6) são empregados para referirem-se às cores do arco-íris enviado, de presente, ao Presidente as quais, por sua vez, aludem à bandeira do Brasil.

Finalmente, o adjetivo automamo (leia-se autônomo) atribui ao MST a característica peculiar desse tipo de movimento: o fato de organizar suas próprias regras e leis, de acordo com suas necessidades.

O uso dos pronomes varia de acordo com grau de envolvimento entre o escrevente e o destinatário. Vejamos o quadro 3.

Pronomes:

Senhor, este/esta/isto, nosso/nossa, Excelência, Excelentíssimo/Excelentíssimo Senhor, meu/minha, eu, lhe, o, nos, cada, nós, Ilma Senhora, mesmo, todo, você, seu/sua, outro, onde, ele, isso/essa, nosso/nossa, me, aquela, que, tudo, qualquer.

QUADRO 3 – CAMPO LEXICAL: PRONOMES

A partir do quadro 3, podemos observar que alguns professores optaram por usar pronomes pessoais de tratamento: Senhor Presidente (cartas 3 e 5), Excelentíssimo Presidente (cartas 2 e 6), Ilustríssima Senhora Governadora (carta 4). Outros utilizaram um tratamento informal, como Caro amigo (carta 7), Caro companheiro Lula (carta 1).

O campo Lexical que envolve os verbos é também bastante variado. Vejamos o quadro 4, abaixo:

Verbos:

Solicitar, estar, precisar, ter, ser, enviar, trabalhar, querer, cumprir, fazer, ensinar, desenvolver, crescer, agradecer, escrever, informar, vir, ir, procurar, poder, ver, confiar, pedir, providenciar, haver, conseguir, enxergar, realizar, pretender, diminuir, alfabetizar, sentir, saber, pensar, compreender, exercer, enfrentar, encontrar-se, criticar, discutir, perguntar, saber, precisar, dar, achar, dizer, existir, viver, cultivar, descobrir, festejar, estudar, preparar-se, tentar, conhecer, comprar, começar, chegar, ocupar,

conviver, acostumar, construir, persistir, reivindicar, esperar, utilizar, possuir, residir, funcionar, visitar, imaginar.

QUADRO 4 – CAMPO LEXICAL: VERBOS

Os verbos servem para marcar as ações comunicativas repletas de força, a qual se efetiva através de reivindicações, pedidos, solicitações, cobranças, agradecimentos etc. dos professores e que será evidenciada na análise da prática discursiva.

Advérbios:

Só, atenciosamente, não, pouco, mais hoje, sim, aqui, ai, sempre, somente, muito, também, já.

QUADRO 5 – CAMPO LEXICAL: ADVÉRBIOS

Os advérbios muito, pouco e poucas foram usados no sentido de atribuir um grau maior ou menor de intensidade, às atribuições. Para ilustrar, vejamos dois exemplos, extraídos das cartas 1 e 3.

No trecho [...] Este programa e de muito valor para os Assentados (grifo nosso), retirado da carta 1, da professora AL, podemos observar que, ao usar o advérbio de intensidade muito, a professara valoriza o Projeto Saber da Terra, atribuindo-lhe um grau de suma importância, necessitando, por essa razão, sofrer continuidade.

A passagem [...] estou escrevendo estas poucas linhas para informá-lo que nossa situação não é nem um pouco boa [...] (grifo nosso), retirada da carta 3, da professora M, revela a insatisfação da escrevente diante das condições físicas dos assentamentos, submetidos à falta d’água, que tem levado alguns assentados a irem embora para outras cidades.

Como podemos observar, o campo lexical que envolve os substantivos, os verbos, os advérbios, os pronomes e os adjetivos, é bastante variado. O uso dessas palavras está relacionado com a vida dessas comunidades, através de uma organização textual, com características próprias, de acordo com os propósitos dos professores.

A gramática é composta de combinações entre as orações e as frases. A oração é a unidade principal da gramática, que por sua vez, realiza três significados: ideacional, interpessoal e textual, já contemplados no início da análise.

Quanto à coesão, as frases e os períodos são conectados nos textos através de cinco mecanismos de coesão, de acordo com Halliday (1976): referência, substituição, elipse, conjunção e coesão lexical.

Referência:

Demonstrativa: esta carta, este programa, estas traçadas linhas; pessoal: nosso assentamentos, minhas atividades, meu alunado, para informá-lo que nossa situação, alguns assentados estão indo embora procurar trabalhos em outras cidade porque não pode mais ver os seus filhos sem o pão de cada dia (grifo nosso).

QUADRO 6 – COESÃO: REFERÊNCIA

Os pronomes demonstrativos são largamente empregados para referirem-se às cartas, retomando o clichê estas mal traçadas linhas, que faz parte da memória discursiva dos escreventes. Os pronomes possessivos , por sua vez, são utilizados para aludir ao grupo a que pertence o colaborador ou a este individualmente.

Substituição:

Nominal: [...] providencie alguns exames de vista para meus aluns pois está havendo desistência da sala de aula por motivo dos mesmos não conseguirem enxergar; frasal: [...] para quê o meu alunado se desenvolva: isto para q o Brasil creça [...] (grifo nosso).

QUADRO 7 – COESÃO: SUBSTITUIÇÃO

O mecanismo da substituição de termos é menos empregada nas cartas desses professores do que o da referência, pelo fato de exigir um vocabulário mais

amplo, maior conhecimento de termos da língua e da própria tessitura textual. No primeiro exemplo no quadro 7, o vocábulo mesmos substitui aluns (leia-se alunos). No segundo exemplo, isto refere-se à oração anterior, para quê meu alunado creça. Esse mecanismo evita a repetição de termos e de frases, o que revela um maior nível de elaboração textual.

Elipse:

Nominal (venho solicitar, estamos precisando, espero ser atendida, para que tenha o conhecimento que sou um assentado, trabalho e quero trabalhar, espero que cumpra o pedido que lifiz, também ensino, lhi agradeço, sou professora.

QUADRO 8 – COESÃO: ELIPSE

As elipses empregadas fazem a omissão apenas de nomes, especificamente de pronomes que podem ser recuperados através das desinências verbais. Tal fato revela, assim como outros mecanismos já vistos, a simplicidade das construções, decorrente do pouco contato com a prática da escrita pela maior parte dos escreventes.

Conjunção:

Aditiva (estamos precizando de poços, posto de saúde, colégio para crianças e si possível o programa “Saber da Terra” e estamos trabalho e quero trabalhar); adversativa (trabalho e quero trabalhar só que: a cituação é difícil. Mais (leia-se mas) espero que cumpra o pedido que lifiz; temporal (Quando o INCRA comprou e as famílias começaram a chegar, ocupar galpões, casas vazias e cocheiras, nós que víamos de longe, tínhamos até receio de como conviver com essas pessoas [...].)

As conjunções predominantes nas cartas analisadas são as aditivas, que justapõem orações, caracterizando períodos compostos por coordenação. Da mesma forma que os recursos de elipse identificados, a coordenação, em detrimento da subordinação, resulta de um nível de escrita ainda elementar, de quem está em processo inicial de letramento. O emprego da conjunção subordinativa temporal, encontrada no texto de AS (carta 8), se justifica pelo fato de ser a única que apresenta formação superior.

Coesão lexical:

Repetição ([...] o programa “Saber da Terra” [...] este programa; Hiperonímia [...] você quando pensou em ser presidente do Brasil um dia pensava em transformação de forma geral [...] temos outros movimentos que não intende esta posição que você está enfrentando hoje com o país com a situação em que se encontra;

QUADRO 10 – COESÃO LEXICAL

Pelo fato de os escreventes , em sua maior parte, estarem em nível inicial de