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5.1 Case study - Umbilical A

5.1.1 Example A1

Para Bakhtin (2002),

Na realidade, não são palavras o que pronunciamos e escutamos, mas verdades ou mentiras, coisas boas e coisas más, importantes e triviais, agradáveis e desagradáveis, etc. A palavra está sempre carregada de um conteúdo ou de um sentido ideológico ou vivencial. É assim que compreendemos as palavras e reagimos àquelas que despertam em nós ressonâncias ideológicas ou concernentes à vida (BAKHTIN, 2002:95).

Os estudos de linguagem do Círculo de Bakhtin (FARACO, 2003) entendem o diálogo num contexto maior, abrindo o entendimento para uma significação social que designa consenso, solução de conflitos, entendimento, acordo. Para Bakhtin (2002) as relações dialógicas também geram dissonâncias e multissonâncias. Um

tenso combate dialógico ocorre nas fronteiras – esta é a sua dinâmica. Daí pode

resultar não só o consenso, a convergência, o acordo, a fusão, mas a divergência, o embate, o desacordo, a recusa. Um verdadeiro simpósio universal (BAKHTIN, 2002).

De fato, qualquer enunciado concreto, de um modo ou outro, ou em um grau ou outro, faz uma declaração de acordo ou de desacordo com alguma coisa. Os contextos não estão apenas justapostos, como se alheios uns aos outros, mas encontram-se num estado de tensão constante, ou de interação e conflitos ininterruptos (BAKHTIN, 2002:80).

Os autores do Círculo de Bakhtin entendem as relações dialógicas como

espaços de tensão entre enunciados, que se movimentam, ou se tensionam

(FARACO, 2003). Bakhtin (2002) acredita que, mesmo quando há, na responsividade, uma ampla e compartilhada adesão, ainda assim a tensão existe, ao menos entre as várias vozes sociais, que determinaram e optaram por concordar. Em qualquer enunciado atuarão forças centrípetas, que buscam impor uma certa centralização por sobre um plurilinguismo histórico, que são monológicas, mas dialogizadas ao mesmo tempo; e forças centrífugas, que corroem continuamente as

tendências centralizadoras, pela paródia, pelo riso, pela ironia, pela polêmica explícita ou velada, pela sobreposição de vozes.

Bakhtin (2002) aponta para a existência permanente destas forças, que movimentam jogos de poder, num simpósio universal, entendido como um vasto espaço de luta entre as vozes sociais. Se o processo dialógico é tido como infinito, inesgotável, sempre haverá, então, a corrosão das forças centrífugas, minando os esforços de centralização discursiva, e das forças centrípetas, ficando impossível a superação definitiva das contradições. Este tensionamento parece ser inerente ao diálogo, e começa a ser considerado por novos modelos de fazer gestão de grupos.

Na comunicação – e, em especial, na comunicação verbal - que se inscreve dentro das organizações, nas infindáveis faces que a comunicação organizacional contém, a complexidade destas forças estará instalada. Segundo Silva (2008)

A arte da relação, portanto, é a arte de juntar, associar, articular, potencializar e vincular organicamente elementos que teriam tudo para permanecer separados e em franca oposição. No ambiente das relações de trabalho, nas organizações voltadas para o maior rendimento, encontram-se reunidos o melhor e o pior dos homens: vaidade, inveja, desejos, valores, ambições, projetos [...]. A complexidade entra em campo para assegurar um ‘harmonia conflitual’ [...], a auto-eco-regeneração-produção-criação-reinvenção da máquina social humana. Viver em relação é inventar a relação a cada dia a partir de elementos que, mesmo sendo iguais, movimentam-se e criam novos arranjos a cada momento. Na expressão Comunicação Organizacional há um programa complexo embutido: comunicar e organizar (SILVA, 2008:7-8)

Se a linguagem, e a linguagem nas organizações, não é um instrumento criado pelo homem, mas se constitui no próprio homem, que se estrutura e se configura a cada momento (BENVENISTE, 1995), temos que, sob este ponto de vista, dialogar com o outro não parece ser apenas decodificar o código falado, decifrando palavras: é compreendê-lo, é dar-lhe atenção, é deslocar-se até o seu mundo subjetivo e retornar modificado pela viagem, é viver a intersubjetividade, é estar dentro do infinito simpósio universal humano de Bakhtin (2002).

O espaço organizacional, então, acaba por ser um espaço dinâmico, que seguidamente é reelaborado nos discursos/atividades dos envolvidos neste

filósofos32, como também alguns teóricos que se dedicam a estudar o trabalho e a gestão33. Falas do cotidiano do trabalho se apresentem emaranhadas, muitas vezes em unidades contraditórias e tensas entre duas tendências opostas: as forças

centrípetas e as forças centrífugas. Esta tensão de forças não tem predomínio,

parecendo haver sempre uma transgressão dos sujeitos em relação ao quadro fixo das condutas observáveis. Quando observamos fragmentos de diálogos de trabalho percebemos que as trocas verbais são como trocas de atividades, que trazem desequilíbrios, incoerências e contradições, mas desempenham, segundo Fäita (2005), um papel motor na evolução da própria troca e continuidade de enunciados. Para o autor, “é bem o desequilíbrio que provoca o progresso (avanço) da relação com o outro no diálogo” (FÄITA, 2000:17)

E assim parece acontecer a comunicação que classificamos como organizacional, segundo Baldissera (2008):

[...] Para além da fala autorizada, a comunicação organizacional [...] também compreende a comunicação que se dá nas fissuras, nas resistências, nas zonas de escuridão, nas transversalidades, nos lugares de interdição e das fugas. Contempla a dispersão, as transações, os ruídos, as contradições, o diálogo, a diversidade, a rebeldia. Constitui-se de imprevisibilidade, do impensado, do não planejado, do acaso, da incerteza (BALDISSERA, 2008:47).

Nesse sentido, a respeito da comunicação de, no e sobre o trabalho, que se dá a todo o momento no universo organizacional, podemos inferir que34 (i) a comunicação verbal correta, objetiva, estruturada, parece ser uma idealização externa ao sujeito que fala; (ii) a preocupação com a produção de uma fala que dê conta da exaustividade de um tema, com conteúdo fundamentalmente informacional, não parece ser o meio mais indicado para favorecer a emergência de

Bakhtin (2000), Benveniste (1995), Vygotsky (1989 e 1987), Santos (2000 e 1987), Dufour (2000), Faïta (2002), Mondada (2003), Marcuschi (2003), Teixeira (2001), Faraco (2003), entre outros.

Zarifian (2001), Wheatley (1996), Schwartz (1997), Morgan (2000), Nonaka (1994e 2000), Senge

(1990 e 2007), Sandberg (2000), Le boterf (2003), Chanlat (1996),Bitencourt (2004) e Argyris (1992).

34 Esta interpretação é parte de resultado de análise de pesquisa, em mestrado em Lingüística Aplicada, pela autora, em 2005. O corpus analisado se constituiu de 60 horas de reuniões de trabalho gravadas, entre grupo de gestores de uma área da empresa analisada, investigando a forma da emergência da competência coletiva. A conclusão de pesquisa foi de que ela parece emergir por movimentos intersubjetivos de enunciações, na busca de construção de sentidos, mais do que pelas próprias informações/conhecimentos circulando nos diálogos.

sinergias ou de competências coletivas em conversas de trabalho; (iii) qualquer enunciado parece ser uma unidade contraditória e tensa de duas tendências opostas da vida verbal: as forças centrípetas e as forças centrífugas; (iv) forças centrípetas atuam em enunciados fechados à percepção de outras vozes que não sejam as de seu autor e acabam dificultando o uso de si (por si e pelo outro); (v) forças centrífugas atuam em enunciados que corroem continuamente a tendência centralizadora e favorecem, de qualquer maneira como se apresentem, a sinergia; (vi) instabilidades, titubeações, em geral consideradas por quem conduz uma reunião ou um treinamento, como falta de precisão ou de foco, dificuldades de nomear e erros, parecem ser inerentes às práticas discursivas, e indicam posições enunciativas que vão, intersubjetivamente, se auto-negociando; (vii) movimentos em espiral, caóticos e não lineares, com sobreposições de falas, parecem ser, mesmo, constitutivos das trocas verbais.

A enunciação expressa a realidade do sujeito que enuncia, e, por isso, a intersubjetividade, além de perpassar toda a noção de referência - que é, em última análise, o sentido – acaba por ser a própria realidade das trocas de estruturação das realidades dos sujeitos, e promove, efetivamente, a construção do conhecimento. Parece ser no ato enunciativo – lugar de inscrição de um eu que institui diante de si o outro (tu) para falar de algo (ele) - que a língua se transforma em discurso e que o sujeito se instala no mundo. Talvez a apreensão deste momento, totalmente volátil e fugaz, onde a palavra é ato, possibilite novos entendimentos sobre a emergência da competência coletiva, tida como um momento Ba, um diferencial competitivo buscado incessantemente pelos mais variados modelos de gestão na atualidade.

Completando estas considerações, Dufour (2000), interpretando Benveniste, afirma que eu-tu/ele (ele como sendo aquilo do qual se fala, ou seja, o referente) constituem uma trindade natural, constante nas interações do viver; é nessa trindade que o discurso acontece, sem ela, ficaria no meio de falas vazias de sentido.

Ao considerarmos estas proposições a respeito da inseparabilidade do sujeito e sua linguagem, no meio organizacional, poderemos possibilitar outra compreensão da singularidade que comporta o trabalho, podendo advir, daí, um resgate, no homem, do valor pela sua produção, possibilitando-lhe unir a ruptura antiga entre

trabalho e cuidado, revalorizando sua expressão e sua fala e prestigiada sua cultura e identidade, que, pela falta que fazem, muitas vezes denunciam uma condição de opressão, a expor medos e fragilidades deste sujeito trabalhador.

É nesse contexto que começamos a compor, por sínteses, a partir deste ponto do trabalho de pesquisa, elementos para visualização do emolduramento do quadro/tapeçaria/pintura que irá compor este estudo.