Tools and Implementation
3.2 Implementation and setup
3.2.5 Evolutionary Algorithm, Method and Implementa- Implementa-tionImplementa-tion
(...) Nós, os homens, devemos sempre contar com um homúnculo na nossa cabeça para fazer do real mesmo uma realidade. Jacques Lacan (1964b)
Abordamos os registros imaginário e simbólico para pensar a questão da percepção na obra de Lacan. Qual seria o papel do terceiro termo, o real? Tratando-se de um conceito complexo, não pretendemos aqui exaurir sua análise, mas fazer algumas indicações que nos permitam compreender a sua importância na teoria e, fundamentalmente, no que diz respeito ao problema da percepção e da realidade. De fato, o conceito lacaniano de real, enquanto aquilo que não se submete à estrutura da representação mental – quebrando, inclusive, a lógica da re-presentação – impõe um regime peculiar à percepção.
Em primeiro lugar, frisemos que existe uma diferença entre realidade e real na obra de Lacan; e embora tal distinção seja explicitada de modo contundente nas últimas décadas do seu ensino, ela está presente bem antes na teoria. Por exemplo, o esquema R, proposto no escrito dedicado ao tratamento possível da psicose (1958), circunscreve a faixa da realidade psíquica entre os triângulos imaginário e simbólico, precisando, numa nota de rodapé de 1966, que a realidade operaria como “lugar-tenente da fantasia” e, portanto, como janela para o real163. A realidade é constituída pelo espaço delimitado pelo eu (m), o eu ideal (i), o ideal do eu (I) e pela mãe – estes dois últimos, na interseção dos triângulos imaginário e simbólico. E o real? Enquanto a realidade constitui uma banda de Moebius, o real não se encontra representado, mas se reduz “ao corte mesmo”. Além do mais, na medida em que todos os elementos ocupam o mesmo espaço topológico da banda, Lacan parece propor que, no que tange à realidade, não há distinção entre interior (m) e exterior (M), proposta que constitui uma forma de evitar as aporias freudianas das polaridades dentro/fora, representação/percepção, realidade psíquica/realidade material. O esquema I, por outro lado, apresenta os efeitos psíquicos da dissolução imaginária e da catástrofe simbólica da psicose; é nesse contexto que ganha sentido a famosa tese dos anos 50, segundo a qual a construção
163 Essa mesma nota esclarece que a banda da realidade só se sustenta pela extração do objeto a do campo (do real). Voltaremos sobre essa questão no último capítulo.
imaginária da alucinação surgiria como retorno de um real irredutível à simbolização. Em definitivo, apesar da dificuldade da conceitualização do real em Lacan, poderíamos dizer
grosso modo que o real é aquilo que não é imaginário nem simbólico, aquilo que resta da imaginarização e simbolização do real da qual resulta a realidade. Esta última estaria habitada subjetivamente, enquanto um real (o real) seria suposto para além dela. Nesse sentido, Gérard Pommier esclarece que, mesmo “estando sempre no seu lugar”, como a carta roubada de Poe, “o real escapa de quem o procura, na medida em que ele o faz com os instrumentos da realidade” (2004, p.133).
Todavia, a despeito da impossibilidade radical de circunscrever completamente esse real, o sujeito não cessa de tentar, pela via da unificação imaginária ou pelo viés simbólico. Aliás, Lacan refere-se, em muitas oportunidades, à palavra como uma tentativa privilegiada de apreensão do real do mundo; entretanto, e simultaneamente, a instauração da ordem da palavra garante o caráter inapreensível da coisa. O pensamento lacaniano toma aqui como ponto de partida o jogo do carretel do neto de Freud, enquanto tentativa de simbolização da alternância presença-ausência e interpreta-o segundo a tese hegeliana da palavra como morte da coisa. No seu seminário, Lacan aborda a vocalização dos fonemas
fort/da – independentemente do fato de que possam significar longe-aqui em alemão – como primeira manifestação da linguagem por meio da qual a criança converte-se em mestre da coisa, na medida em que, justamente, a destrói. Esse instante representaria o momento em que o “desejo se humaniza”, quando a criança nasce para a linguagem – na verdade, como já mencionamos, esse nascimento é deduzido logicamente, porque significa somente “a porta de entrada ao que já existe”. Por meio dela, o sujeito domina a privação – assumindo-a – e eleva seu desejo à segunda potência, pois, como lemos na referência a Hegel em “Função e campo da palavra e da linguagem na psicanálise” (1953), se o símbolo manifesta-se como assassinato da coisa, essa morte constitui a eternização do desejo do sujeito. A partir da negatividade operante no discurso (aliás, no simples chamado), o autor postula que o simbólico produz uma inversão, pois a ausência é evocada na presença e a presença, na ausência: “Enquanto o símbolo permite essa inversão, isto é, anula a coisa existente, abre o mundo da negatividade, que constitui simultaneamente o discurso do sujeito humano e a realidade do seu mundo” (1954, p.196). O significante é índice de algo para além dele, que escapa da representação. Conforme salienta Boothby (2001), o que coloca em movimento a linguagem é a dimensão da ausência na percepção, algo essencialmente faltante ou incognoscível – diremos irrepresentável no próximo capítulo – que assedia a presença perceptiva. Do mesmo modo, se
o significante pode funcionar para representar (embora de modo incompleto) o irrepresentado, é só em virtude de sua constituição a partir da ausência: a perda da Coisa – patente, por exemplo, na ausência irredutível de um objeto adequado para a satisfação da pulsão – sela o campo do desejo e a entrada na ordem simbólica. Isto porque a ordem simbólica nomeia a ausência e nisso consiste o paradoxo de toda representação: sua condição é sempre uma dimensão necessariamente irrepresentada. O signo representa algo ausente, dá-lhe presença, mas simultaneamente, confirma sua ausência. Paralelamente, essa ausência só pode ser construída e lida a partir da lógica da representação e de seu suporte, a negação164.
Examinemos com mais detalhe a noção de real. Apesar de confundir-se inicialmente com o conceito de realidade, as primeiras definições do real propriamente dito aludem àquilo que retorna sempre ao mesmo lugar. Posteriormente, surge cada vez com mais ênfase sua particularidade, aparecendo definido como o impossível (Lacan, 1964); o que não cessa de não se escrever (Lacan, 1973); o impensável ou aquilo que ex-siste ao sentido (Lacan, 1975); aquilo que não tem lei (Lacan, 1976); ou o que foge de nós (Lacan, 1978), isto é, o que escapa de toda representação. Nesse percurso, existem dois momentos fundamentais: primeiramente, na viragem do seminário sobre a ética (1960b), o real apresenta-se como da ordem da Coisa (das Ding); mais tarde, o real aparece vinculado à pulsão e ao objeto, derivando no conceito de objeto a – único conceito lacaniano original, segundo o próprio autor. Conforme interpreta Slavoj Zizek, “o objeto a designa aquilo que resta da Coisa depois de ser submetida ao processo de simbolização” (apud. Boothby, 2001, p.242). Acrescentemos que o objeto a figura o que resta da Coisa após simbolização e imaginarização, enquanto o objeto vincula-se com as estruturas do corpo, mas não se deixa reduzir a elas165. Esse conceito original, como veremos adiante, designa sem significar a carência da marca, o impossível de representar e de apreender em virtude da sua heterogeneidade. De fato, o registro do real vem explicitar, na teoria lacaniana, que nem tudo é imaginarizável ou simbolizável e que existe algo que resiste intrinsecamente à apreensão representativa. Ora, Lacan sustenta que isso é coerente com a teoria freudiana.
Com efeito, Freud dissera, por exemplo, que sem ligação com a
Triebrepräsentanz a força da pulsão permanece incognoscível. Podemos tomar, desse modo, a
pulsão como um elemento radicalmente irreflexivo na obra de Freud? Existem, além dela – porém, vinculadas a ela – outras figuras do irrepresentável na sua teoria? Abordaremos essa
164 Re-examinaremos esse assunto na seção seguinte.
questão na próxima seção, detenhamo-nos agora um pouco mais no tratamento da problemática por Lacan. Sabemos que muitos dos seus conceitos remetem ao irrepresentável, dentre eles, o afeto – sendo seu paradigma a angústia –, o registro do real, o desejo enquanto falta de ser (1955) e a problemática do objeto a. No seminário sobre os quatro conceitos fundamentais (1964), Lacan critica a tradução habitual do conceito freudiano de
Vorstellungsrepräsentanz como ‘representante representativo’, propondo traduzi-lo como representante ou lugar-tenente da representação, no sentido em que o que se recalca não é o representado do desejo, a significação, mas o representante da representação. Lacan traduz literalmente representante por considerar que se trata de um representante puro, que não contamina a representação com sua significação, do mesmo modo em que os diplomatas representam algo cuja significação pode mudar. Dessa maneira, ele explicita o papel da representação na sua teoria, deslocando o conceito da sua importância em Freud:
O termo Repräsentanz deve ser tomado nesse sentido. O significante enquanto tal está no pólo oposto da significação. A significação entra em jogo na Vorstellung, (...) [da qual] ocupamo-nos em psicologia. Toda representação, decerto, requer um sujeito, mas esse sujeito não é nunca um sujeito puro (...) Não há sujeito sem que haja, em algum lugar, afânise do sujeito, e nessa alienação, nessa divisão fundamental, institui-se a dialética do sujeito (1964, p.201).
A representação cabe à estrutura simbólica da linguagem, e não diz respeito a conteúdos intra-psíquicos. Lacan afirma que “o desejo é o representante não representativo” (1964, p.198) 166, isto é, representa a pulsão, mas não do lado da representação entendida enquanto significação. Como indica Boothby (2001), o movimento do desejo inicia-se pela impossibilidade de coincidência, não apenas entre os meios de representação e o real inefável, mas também entre as duas grandes modalidades de representação: imaginária e simbólica (p.289).
De outro ponto de vista, no cerne da problemática da pulsão e do real, Lacan situara a progressão da necessidade, a demanda e o desejo (1958b), numa vinculação inexorável com o Outro. O Outro sem o qual não seria possível sobreviver fisicamente é aquele mesmo Outro cujas palavras abrem para o universo simbólico, porém o mesmo cujo desejo permanecerá sempre como uma pergunta impossível de responder. Safatle considera que a centralidade do desejo puro ligado à falta-a-ser será relativizada, posteriormente, em
166 Ainda mais, acrescenta que o primeiro significante, o significante unário, surge no campo do Outro e representa ao sujeito para outro significante, “significante cujo efeito é a afânise do sujeito; desde esse ponto de vista, a Vorstellungsrepräsentanz seria significante binário” (1964, p.199).
função de uma recuperação do conceito de pulsão enquanto irreflexiva, justamente por essa labilidade no objeto que é a sua característica principal: na verdade, esse desejo puro está bem mais perto da Trieb que do Wunsch. Nesse sentido, ele indica que para Lacan a pulsão seria pura negatividade que passaria pelos objetos empíricos sem vincular-se a nenhum (Safatle, 2005, p.87) 167. Mas, diante do problema de como reconhecer a pura negatividade, Lacan propõe o artifício de subordinar o desejo puro ao desejo de reconhecimento (pela transcendentalidade da Lei), mostrando que o problema da experiência analítica seria como simbolizar a falta-a-ser sem dissolvê-la. Eis o programa lacaniano: o gozo deve ser rejeitado para poder ser alcançado na escala invertida da Lei – simbólica, claro – do desejo (1960). De fato, a oscilação no que diz respeito à possibilidade de simbolização do Real constitui precisamente, segundo Safatle (2005), o motor da revisão da metapsicologia lacaniana a partir da década de 60 e que culmina na conceitualização de um gozo inefável, radicalmente para além do imaginário e com uma relação problemática com o simbólico (Lacan, 1973). Frisemos que o fato de situar as figuras do real enquanto impossíveis não quer dizer que elas estejam fora do campo subjetivo da experiência, pelo contrário: “elas são impossíveis sob a perspectiva do saber reflexivo da consciência. O que nos explica por que tais categorias podem ser formalizadas, mas não são simbolizadas” (Safatle, 2005, p.280).
Indo mais longe nessa direção, Boothby (2001) sustenta que se o real é radicalmente incognoscível ou irrepresentável, ele seria, em última instância, inefável e inabordável conceitualmente. A questão remete às considerações de Heidegger a respeito do papel do Nada na metafísica: no nível da discussão abstrata, o real e o nada só podem gerar paradoxo e aporia. Entretanto, como o nada, a atualidade do real é atestada por uma experiência humana fundamental: a angústia, entendida no seu vínculo com o objeto, isto é, não como medo perante o objeto ameaçador, mas como angústia diante da falta do objeto. Dessa maneira, o real, apesar de sua falta de caracterização positiva, apresenta-se na negação e desintegração da unidade imaginária – por exemplo, na experiência do corpo fragmentado à qual Lacan alude na psicose. Aliás, neste sentido, talvez seja excessiva a freqüente acusação feita a Lacan de deixar de lado o afeto, subsumindo a experiência humana integralmente à linguagem (Schneider, 1993), acusação decorrente de uma leitura privilegiada dos primeiros
167 O autor esquematiza a relação entre desejo e pulsão por meio dos modos de negação: “O desejo lacaniano seria uma categoria engendrada através do entrelaçamento entre negação e transcendentalidade (...) sempre preso na alternativa de entrar em um infinito ruim (e metonímico) impulsionado pela procura impossível de sua adequação a um objeto empírico ou unir-se ao significante de uma Lei simbólica situada em um ‘lugar transcendental’. A pulsão é uma categoria engendrada a partir de uma negação ontológica compreendida como modo de presença do real do objeto (2005, p.88).”
seminários, nos quais predomina o referencial estruturalista. A partir da década de 60, os problemas da angústia, da falta de objeto e do gozo encontram-se no cerne da sua teoria, sobretudo a partir da sua ‘excomunhão’ da sociedade analítica. Com efeito, no seminário onze (1964), Lacan se defende das críticas, situando sua atitude numa conjuntura histórica particular: a da necessidade de denunciar os extravios dos psicanalistas pós-freudianos:
Saibam que, durante anos, todos os meus esforços foram necessários para revalorizar perante eles [os analistas] esse instrumento, a palavra, para restituir-lhe sua dignidade (...). Assim foi como, pelo menos por um tempo, foi possível tomar-me como alguém obcecado por não sei que filosofia da linguagem, heideggeriana inclusive, quando só se tratava de uma referência propedêutica (1964, p.22)168.
Contrariamente a essa posição, a partir dos anos 60, Lacan tenta destacar aquilo que foge do campo do simbólico e, muito mais ainda, do campo demarcado pela noção de representação, como evidencia o seguinte trecho do seu seminário: o real tem de ser procurado “além do sonho – no que o sonho recobriu, envolveu, escondeu, detrás da falta de representação, da qual só há nele um lugar-tenente. Esse real comanda nossas atividades, isso mostra a psicanálise” (1964, p.59).
*
Uma última observação nos permitirá fazer uma ponte com o próximo capítulo, onde nos perguntaremos pelo problema do irrepresentado ou do irrepresentável na percepção, mas também, de modo geral, sobre o peso de tais noções na psicanálise. Boothby (2001) acredita que a releitura lacaniana esclarece a posição da psicanálise como teoria e prática da representação, localizando-a na trajetória do pensamento pós-kantiano. Entretanto, a psicanálise evidencia uma dinâmica de conflito no cerne da representação: o sujeito freudiano encontra-se dividido entre as exigências conflitantes da imagem e da palavra. Nesse sentido, não só o processo de representação divide-se em dois campos, designados por Freud como representação-coisa, representação-palavra e, por Lacan, como imaginário e simbólico, mas a representação tem a sua raiz no irrepresentado. Assim, ainda segundo o autor, a psicanálise poderia corresponder a uma intersecção entre duas grandes correntes do pensamento contemporâneo, fenomenologia e estruturalismo, cada uma delas dedicada a uma face do problema da representação: “o problema do inconsciente (...) só é concebível na junção entre
apresentação fenomênica e articulação estrutural” (Boothby, 2001, p.286). Talvez não seja conveniente assimilar rapidamente, como parece fazer Boothby, a representação-coisa ao imaginário e a representação-palavra ao simbólico – de fato, Lacan considera que as representações-coisa “são coisas, mas estruturadas de modo significante, segundo um processo simbólico” (1960b, p.57). Todavia, Boothby levanta uma questão essencial, qual seja, na categoria do real, Lacan teria explicitado elementos implícitos na teoria freudiana. Concordamos com Boothby quando ele precisa que o conceito freudiano de energia marca um limite intransponível da representação.
A partir do “Projeto”, Freud concebe as pulsões (...) entre o psíquico e o somático, enquanto limiar entre essa porção das energias pulsionais do corpo passíveis de descarga em virtude de sua ligação com determinadas representações e o excesso irrepresentado de energias indomáveis (2001, p.286).
A idéia mais crucial, raramente explicitada, seria “a assunção de uma
disjunção inevitável e irremediável entre o nível da excitação somática e sua representação psíquica”. Sempre há um resto, “uma porção das energias do corpo que não recebe um
registro adequado na bateria das Triebrepräsentanzen. O processo de ligação psíquica nunca consegue exaurir o reservatório somático de energias desligadas”. Nesse sentido, impossível de ser “imaginado ou simbolizado, o real é o análogo lacaniano à força crua do Drang da
pulsão freudiana” (Boothby, 2001, p.286-287, nosso grifo).
Entretanto, deve-se evitar o risco de substancializar a categoria do real em Lacan. A esse respeito, Boothby (2001) enfatiza que, diferentemente da Vontade em Schopenhauer, o real não tem uma direcionalidade incipiente ou uma tendência evolutiva. Compreender o real como uma força exterior que invadiria traumaticamente a psique desde um além das representações – como, até certo ponto, parece descrever Freud em alguns textos, e como tem sido resgatado em certas posições contemporâneas de diferentes orientações teóricas – pode derivar numa abstração reificante. Citemos, por exemplo, certos desdobramentos do trabalho do negativo, proposto por Green (1993), e a inflação da noção de real em alguns autores de orientação lacaniana. Gérard Pommier refere-se a esse movimento como um verdadeiro big bang, mediante o qual “um real vivente vampirizaria o sujeito” ou um “real vivo demais e guloso demais que ameaça engolir o sujeito” (2004, p.34). Pommier constata ironicamente que não é preciso navegar muito em “águas lacanianas” para escutar uma voz de sereia que indica que a resposta a todos os problemas do navegante é “o real, e
nada mais do que o real” (2004, p.135). Obturam-se, assim, muitos impasses teóricos e clínicos, com a referência tautológica ao real. Consideramos, como Pommier, que, em muitas ocasiões, ao definir:
(...) uma experiência ou um conceito como real, subentende-se que a coisa designada é aquilo que ela é, tal qual na sua materialidade. Esse uso da palavra real encerra uma tautologia inútil. Ele consiste em enunciar: isto é
isto. Dizer de um conceito que é real dá somente a impressão de compreender, enquanto, na realidade, se morre na praia (p.135).
Nesse sentido, Pommier considera mais frutífero utilizar o termo real como adjetivo para fornecer uma qualidade ou uma característica particular àquilo do que se fala: “Mas, nesse caso, o real é somente um adjetivo e não um conceito: é abusivamente que a Sereia conceitualiza um real simplesmente qualitativo, do mesmo modo que as cores ou sabores que, fora suas características, não dizem nada do objeto ao que se referem” (2004, p. 135). Nesse caso, ele aponta para o risco de substantivar ou hipostasiar algo que, na verdade, seria um “não conceito”, já que só se define negativamente por aquilo que não é: representação, ora por uma imagem, ora por uma palavra. Enquanto essencialmente impensável ou irrepresentável e, portanto, impossível, o real só pode ser concebido de maneira negativa, em termos de fraturas do imaginário e de falhas no simbólico169. Isto implica que o real evidencia-se apenas nos deslocamentos e catástrofes – no sentido matemático – das estruturas da representação e que é relativo a elas: relativo ao imaginário que lhe serve de tela e ao simbólico que o esburaca (Boothby, 2001, p.295). Porém, ao dizermos que o real remete ao não simbolizável, não devemos esquecer que o simbólico adquire seu sentido em função dele (Pommier, 2004, p.136). Pommier combate o costume de pensar o real como um além de caráter quase ontológico, um simples além da compreensão e da apreensão. Pelo contrário, como vimos, a formalização do nó borromeano em Lacan supõe a consideração de cada registro pelo seu entrelaçamento aos outros.
Em suma, a percepção traz à tona o problema dos alcances e limites da noção de representação, tanto na filosofia quanto na psicanálise. No campo propriamente freudiano, isto se evidencia desde os primórdios; com efeito, pode-se pensar que a questão da quantidade no “Projeto” (1895) já figura um além da representação. A oposição entre quantidade e qualidade é só a primeira forma que tomaria um dos dualismos freudianos, que se