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Evolución histórica de los Polígonos Castelló y Can Valero. Proyectos de urbanización de los Polígonos

In document Historia de Asima (1964-2014) (sider 45-50)

2. Antecedentes históricos

2.3 Evolución histórica de los Polígonos Castelló y Can Valero. Proyectos de urbanización de los Polígonos

O Ponto de Memória da Terra Firme é um espaço repleto de sentidos e significados para cada conselheiro que o integra. Ele é o lugar que ressignificou o conceito de museus para Chiquinha, que em outro momento de sua vida, embora tenha visitado “o museu do Forte do Castelo”, não compreendia qual o alcance que esse tipo de instituição buscava apresentar para o seu público, ou seja, qual sua função social. Todavia, a partir da proposta de nova museologia, por ela vivenciada, através da inserção no PMTF, ela conduz sua fala da seguinte maneira:

Na minha concepção eu acho que o Ponto de Memória é um museu sim, por que o nosso museu, esse museu que hoje é chamado Ponto de Memória, a gente faz um trabalho diferenciado dos outros museus tradicionais, o nosso trabalho, é conhecer o bairro, ter uma ideia do que o morador faz, qual é o seu cotidiano do morador e também, eu acho, na minha concepção, que é mais um incentivo pros moradores o que a gente faz, por que não é só pro jovem que a gente faz esse trabalho, mas sim pra toda a população.

O Ponto de Memória, propõe uma quebra de paradigma quanto a missão cultural e educacional que se afere no que diz respeito aos museus, podendo, assim, ressignificar também, até mesmo os dizeres de Paulo Freire, quando afirmou que “a educação popular nascia não apenas da cultura dos livros ou de museus; ela nascia da cultura que os movimentos populares usam e criam em suas lutas”. (1989, p. 62), deixando implícito que a “cultura de museus” era restrita. O que realmente acontecia, como percebido no penúltimo capítulo dessa dissertação. Todavia, essa proposta de museus que se faz via PPM, se dá por meio de uma educação e cultura popular, organizada a partir de um movimento político que são os Pontos de Memória.

Nessa mesma senda, Chiquinha analisa elementos de educação popular presentes no Ponto, da seguinte maneira:

Se o Ponto contribui com a Educação? Ele não só pode contribuir como ele já está contribuindo, ele já contribuiu muito e ele vai contribuir muito mais, de que forma?! Procurando se organizar mais. Por que ele já fez os seminários, portas abertas é uma educação e os seminários que a gente realiza no bairro é uma educação pra quem participa, por que de alguma maneira está aprendendo, trocando experiência de alguma coisa. Isso é educação! Uma roda de memória que se faz com os moradores, seja jovem ou adulto é outra educação, trocando experiência é outra educação. Então, eu acho que tudo aquilo que a gente faz pra melhorar a nossa condição de vida, é educação. E essa educação é muito válida para todos nós que participamos.

Ora, notadamente estamos diante do conceito de educação analisado por Brandão (1995) quando se referia aquela que é voltada para as classes populares. Dessa forma, explicita-se o pensamento do autor a fim de aclarar a relação existente com a narrativa de Chiquinha.

A educação não é um instrumento – a serviço de grupos dominantes de controle sobre as relações de poder e produção – de adequação de pessoas e grupos populares a uma ordem social dada de cima para baixo. É um meio de produção do poder da sociedade civil e, através dele, um caminho de conquista da participação ativa e consciente, tanto na totalidade da vida comunitária quanto em todas as esferas de vida nacional. O oposto do sujeito consumista atribuído ao modelo anterior – bom para produzir bens, dócil para produzir poder – é o sujeito participativo a quem a educação torna, ou ajuda a tornar, um cidadão no sentido pleno da palavra. (p. 26)

O agir educativo comunitário do Ponto de Memória da Terra Firme, se realiza por meio dessas atividades citadas por Chiquinha - que são, também, metodologias de museologia social -, como rodas de conversa, de memória, organização de inventários participativos e de gincanas, por exemplo. Essa é a forma de construir esse museu na periferia, com vistas a proporcionar participação ativa dessa comunidade.

O espaço que o PMTF chama de seu, pode até, aparentemente, não conter paredes e monitores aguardando visitantes para lhes explicar sobre sua forma de ser museu, todavia, a sua porta de entrada, são suas ruas estreitas e não asfaltadas; seus monitores são os conselheiros do Ponto, que ao caminhar pelo bairro, contam suas principais lembranças e memórias vividas ali, seja na Feira, na Escola Brigadeiro Fontenele ou na quadra da Paróquia, que abriga, também, o “shopping chão”. Pois como afirma, Batista, “Com certeza ter um museu do Ponto traria benefícios, por que um museu ele fala, ele recorda”. E essa “fala” se dá por conta dos movimentos sociais organizados, como é a experiência do PMTF.

Sabendo disso, compreende-se que essa nova forma de ser museu, está disposta a mostrar para os defensores de “museus são lugares de guardar coisa velha”, que essa visão hegemônica já não predomina sequer nos museus tradicionais, e menos ainda nos Pontos de Memória. Nesse sentido, mais um elemento de educação popular se percebe ao compreender o PMTF, pois como assinala Brandão (1995):

Um tipo de trabalho pedagógico é popular quando sua vocação está na busca do estabelecimento de relações efetivas ou pelo menos idealizadas com as camadas populares e quando, a partir daí, torna-se

real ou pelo menos intencionalmente contestador de uma ordem vigente. (p. 30) (itálico do autor) (grifo nosso)

Tendo, assim, a análise do PMTF enquanto um fenômeno, sugerimos, então, que por meio dele, se pense na proposta de educar para a cultura da memória. E de que maneira isso aconteceria? Através das atividades de museologia social que já ocorrem por meio do Ponto, todavia, com a merecida atenção aos “fazeres” de educação popular. Desse modo, educar para a cultura de uma memória, seria enfatizar que a educação se faz por meio da cultura do povo, como também da memória social, que necessita de visibilidade, de atenção a importância para a construção de uma sociedade viva, que não oculta os papéis de seus sujeitos, sejam eles idosos, crianças, jovens, mulheres ou adultos.

Com ênfase na memória dos velhos, Bosi (2003, 15) afirma que

pode ser trabalhada como um mediador entre a nossa geração e as testemunhas do passado. Ela é o intermediário informal da cultura, visto que existem mediadores formalizados constituídos pelas instituições (a escola, a igreja, o partido político etc.) e que existe a transmissão de valores, de conteúdos, de atitudes, enfim, os constituintes da cultura. Dessa feita, compreendemos que só se faz memória na Terra Firme, quando se educa para tal, por meio da cultura e da memória dos velhos, a qual sendo memória deles, é também dos moradores mais jovens que os escutam, e que acabam sendo educados para valorizar essas narrativas e, desse modo, construírem as suas. Isso tudo se dá por meio das atividades do Ponto de Memória da Terra Firme.

Educar para a cultura da memória, não é, todavia, vendar os olhos da violência que se faz fortemente presente na periferia, porém, é escutar essa problemática e pensar alternativas para superá-las. Esse é um dos trabalhos do PMTF.

Contudo, a fim de assegurar que o PMTF não deve, nessa proposta, assumir para si a noção de “salvador da periferia”, destacamos o dito por um “sujeito em campo”, Francisco Batista, morador da Terra Firme, mestrando e militante em Direitos Humanos e um dos idealizadores e administradores do projeto Tela Firme:

É importante que o mundo se volte pra cá, pra essa realidade (...) Hoje a Terra Firme, como todos os territórios de periferia estão sendo coagiados e acuados pelos grupos de extermínio e milícia nas periferias. É sério! Todos os dias na capa dos jornais (...) O Estado não está fazendo nada, as instituições se acovardam diante de uma situação alarmante (...) Quem ficar aqui na esquina, pode ser morto, e se for negro, a possibilidade é dez vezes maior, então nós temos que nos mobilizar para bater de frente a isso. Além do Tela Firme, temos o Ponto de Memória, as Escolas – vocês, alunos -, o grupo de Teatro (...)

Ou seja, tem muita coisa boa aqui, mas não dá para negar não! Tem muita violência sim! (...) E a Terra Firme é alvo (...) Ela é muito estigmatizada! É violência simbólica! (...) E não vem com esse papo de que quem é bandido tem que ser torturado, quem é bandido tem que ser preso, tem que pagar pelo o que fez, mas não torturado” (grifo nosso) Nesse depoimento, além de narrar a preocupação com a recorrente violência, o morador exemplifica que projetos como os do Ponto de Memória são a maneira de mobilização e enfrentamento dessas situações de indignidade humana, todavia, eles, sozinhos, não são capazes e nem responsáveis de “solucionar” todos esses problemas. É como afirma Freire (2015), o educador não deve acreditar que na realização desses projetos de educação popular, ou por pequenas ações, dará conta de “salvar o mundo”, essa tarefa não lhe compete.

Ademais, cientes disso, o que emergiu a partir da análise dos elementos de memória social e cultura popular do PMTF, é que o mesmo pode, em sua missão, educar para a cultura da memória, para que se perpetue e se divulgue, na periferia da Terra Firme que a memória social é um meio de revelar o que se desconhece do bairro, que é a sua cultura, a sua trajetória de lutas sociais e direitos conquistados.

In document Historia de Asima (1964-2014) (sider 45-50)