O escritor de Angústia não teve a pretensão e a oportunidade de editar em livros as crônicas que foram publicadas em Cultura Política: Revista Mensal de Estudos Brasileiros. Como em vida o próprio autor não teve a preocupação de reescrever e reorganizar as suas crônicas, a família executou este trabalho pouco tempo após a sua morte e reuniu a maioria de suas colaborações com a imprensa getulista na obra que receberia em sua primeira edição o título Viventes das Alagoas e o subtítulo Quadros e costumes do Nordeste. Apenas duas crônicas estampadas em Cultura Polítca foram publicadas em Linhas Tortas.
Como não tinha o desejo de publicar tais colaborações em livros não deixou nada documentado que pudesse orientar os seus organizadores a seguir as suas observações ou vontades. Diante do ocorrido, a seleção, os títulos das crônicas, o título do livro, a exclusão das notas do editor, a ordem em que elas se encontram publicadas, entre outros fatores são de total responsabilidade dos seus editores.
124 RONCARI, Luiz. A estampa da rotativa na crônica literária. Boletim Bibliográfico. Biblioteca Mário de Andrade. São Paulo, v. 46, p. 9-16, jan.-dez., 1984, p.10.
82 A primeira possibilidade levantada para Graciliano Ramos não optar por selecionar as suas crônicas e publicá-las em livros, está relacionada ao fato dele estar com o olhar voltado para textos que exigiam mais foco como romances, contos e memórias, pois nestes gêneros textuais o autor colocava em prática a sua técnica de leitura, escrita e reescrita.
Muitos trechos de Vidas Secas, Infância, Insônia e Histórias de Alexandre e, também pequenos fragmentos de Memórias do Cárcere e Caetés foram estampados inicialmente em um periódico. Entretanto, mesmo recebendo por tais publicações, que auxiliavam no orçamento familiar, Graciliano nunca deixou de dedicar grande parte de seu tempo na realaboração de tais escritos, pois o autor planejava publicar em livros tais textos, diferentemente do que aconteceu com as crônicas que saíram em Cultura Política.
A segunda possibilidade levantada para o fato do autor de São Bernardo não selecionar as suas crônicas e publicá-las em livros está relacionada à decisão do escritor de não publicar tais colaborações, uma vez que não deixou nada guardado ou documentado, como, por exemplo, uma carta em que exprimisse a sua vontade de organizar em obras tais escritos. Inclusive, em seus relatos autobiográficos e entrevistas, o autor nunca exprimiu a sua pretensão de colocar nas editoras as crônicas que foram estampadas em Cultura Política.
Provavelmente, o distanciamento do escritor das crônicas de Cultura Política se deu devido à sua aproximação com o Partido Comunista Brasileiro (PCB) após 1945. Por esta época, já estava filiado ao PCB e muitos de seus escritos ou discursos políticos faziam críticas ao Estado Novo.
Todavia, mesmo colaborando com Cultura Política e tendo seus textos precedidos por notas do editor, que norteavam a leitura de seus escritos, podemos dizer que Graciliano não escondeu por completo as suas publicações na revista getulista. Todavia, também não fazia questão de proclamar tal episódio125.
Como foi dito acima, Graciliano não escondeu por completo suas crônicas e publicou inclusive três crônicas no periódico comunista Revista do Povo – Cultura e Orientação126, entre abril e julho de 1946. As três crônicas são:
125 No livro de correspondências Cartas existe apenas uma única carta reunida na obra entre os anos de 1941 a
1944, época de sua colaboração com Cultura Política.
126 Revista do Povo – Cultura e Orientação foi criada em dezembro de 1945 pelo fato do PCB acreditar na
necessidade de um periódico que fosse capaz de informar sobre os conteúdos políticos, culturais e de variedades. Seus editores eram Álvaro Moreyra, Emo Duarte e Frés da Mota. Entre seus colaboradores estavam pessoas ligadas ao partido como Dalcídio Jurandir, Orígenes Lessa e Graciliano Ramos. Suas publicações ocorriam mensalmente ou bimestralmente devido as difculdades orçamentais. Ela foi extinta em setembro de 1946 tendo publicado apenas oito números.
83 x Crônica intitulada em Cultura Política como I; em Revista do Povo e Viventes
das Alagoas encontramos com o título de “Carnaval”.
x Crônica intitulada em Cultura Política como IV; em Revista do Povo e
Viventes das Alagoas recebe o título de “Casamento”.
x Crônica intitulada em Cultura Política como X; em Revista do Povo e Viventes
das Alagoas ela se encontra com o título de D.Maria.
Ao publicar a crônica I na Revista do Povo, o autor manteve a nota do editor que estava presente na revista Cultura Política. Com tal atitude, Graciliano parece não temer o seu passado literário, pois tinha consciência da duplicidade de significado que os seus escritos, publicados em Cultura Política, podiam representar, pois, em nenhum momento em suas crônicas citou o nome de Getúlio Vargas, vangloriou a sua figura ou mesmo fez uma crítica aberta ao regime.
Podemos inferir, ainda, que a atitude de publicar a mesma crônica, estampada em
Cultura Política, em um periódico de esquerda, anos mais tarde, certamente, está associada às
estratégias de escrita adotadas pelo escritor alagoano nas páginas de Cultura Política. Portanto, a postura adotada por Graciliano Ramos nos permite dizer que, mesmo servindo a um regime de direita, não houve o comprometimento de seus escritos, pois para o cronista o fato da revista ser de direita não estava em primeiro plano e sim os princípios adotados pelo periódico, que era a valorização da cultura local, da memória e da exaltação nacionalista, temas pertinentes para qualquer tipo de periódico, fossem eles de orientação da direita ou da esquerda.
Nesse sentido, o escritor alagoano não temeu publicar estas três crônicas na Revista
do Povo – Cultura e Orientação, consciente de que o periódico do PCB valorizava a leitura e
a interpretação dos leitores que prestigiavam as suas publicações, diferentemente de Cultura
Política, que manipulava a leitura de seus textos, ora por meio de relatos propagandísticos,
ora por notas do editor.
Apesar de ter publicado três crônicas na Revista do Povo – Cultura e Orientação, é possível imaginar que, se Graciliano Ramos tivesse permanecido por mais tempo vivo, não teria publicado em livro suas crônicas que saíram em Cultura Política, exceto em caso de extrema necessidade financeira, oque ocorreu em outras ocasiões, como por exemplo, na época da publicação dos contos fragmentados que deram origem ao livro Vidas Secas ou como foi o caso de muitas colaborações com a imprensa, inclusive a revista do DIP.
84 Se porventura viesse a elaborar a organização de tais escritos, certamente muitos seriam reescritos e editados. Acredito, ainda, que se tivesse publicado não deixaria de citar o nome da seção do periódico “Quadros e costumes do nordeste”, como foi citado na obra
Viventes das Alagoas por seus organizadores, porque quando publicou as três crônicas no
periódico comunista Revista do Povo – Cultura e orientação não omitiu que tais escritos faziam parte daquela seção. Além do mais, ao analisar as suas crônicas, podemos verificar que em seus relatos mostrou com veemência os costumes vigentes na cultura nordestina.
3. A recepção crítica das crônicas publicadas por Graciliano Ramos em Cultura Política: