Respondendo ao dualismo filosófico, trataremos da teoria do raciocínio prático de Dewey48. Veremos em que termos ocorrem aquilo que Dewey denominou de raciocínio instrumental, diferenciando-o do modo em que Horkheimer o designou.
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As principais obras de Dewey a respeito da reconstrução, em lógica, são: Como Pensamos e Lógica: teoria da
Dewey (1974c, p. 249) denuncia a falácia filosófica das estruturas da investigação lógica: não se podem atingir os produtos cognitivos sem o processo artístico.
O que é ainda mais importante é que não apenas é essa qualidade [qualidade emocional satisfatória] um motivo significativo para o empreender uma investigação intelectual e para que seja conduzida honestamente, como também, nenhuma atividade intelectual será um acontecimento integral (uma experiência), a menos que seja integralizada pela mencionada qualidade. Sem ela, o pensar é inconclusivo. Em suma, o estético não pode ser separado de modo taxativo da experiência intelectual, já que esta deverá apresentar cunho estético a fim de que seja completo (colchete nosso, grifo do autor).
“Significados, conhecimento e formas lógicas são conseqüências dessas transações, e não existência antecedente”, afirma Garrison (2006a, p.16). Para Dewey, reflexão e ação são contínuas. A interrupção de um hábito é a interrupção da prática de pensar ou dos hábitos do pensamento. Uma vez que o hábito é interrompido, as sensações percebem a quebra e provocam algo de consciente, pois estimulam, instigam à reflexão. O pensar reflexivo de Dewey começa, portanto, com a interrupção de um hábito estabelecido; a conseqüência da experiência é a re-significação, o conhecimento. Portanto, os elementos lógicos e racionais são instrumentos práticos para lidarmos esteticamente com o nosso ambiente, a fim de buscar um novo equilíbrio passageiro com o ambiente, equilíbrio intelectual e fisiológico; instrumentos sujeitos a investigação. Nesse caso, lógica é a própria teoria da investigação sobre a investigação; é o pensamento que se tornou consciente de si mesmo, na experiência.
Vale ressaltar que o critério deweyano para saber se ocorrerá ou não uma experiência e aprendizado não é a interrupção, por si só, de um habito estabelecido. É o reconhecimento de conexões entre as formas e as substâncias, sugerindo e dando sentido uns aos outros, por meio da linguagem. Com efeito, a experiência só acontece se for experiência inteligente de meios- fins ou prática-teoria, e se for comunicada. A vida só é realmente vivida se for inteligentemente comunicada.
Incluímos, portanto, um elemento bastante importante da filosofia deweyana da experiência, que será melhor explicado a seguir: a instrumentalização da razão. Esta não pode ser confundida com o modo como a Teoria Crítica e, particularmente, Horkheimer e Adorno designam esse termo.
Isso porque, por um lado, a instrumentalização da razão significa que as sensações empíricas deixam de ser os portões do conhecimento e se tornam estímulos à ação e reflexão. São provocações e incitamentos ao pensamento investigativo, que terminará em conhecimento. Assim, as sensações não são boas ou ruins, inferiores ou superiores, pois elas
não são modos de conhecer. A sensação deixada a si própria não participa do campo do conhecimento, mas das pesquisas de estímulo e resposta. Para se ter-conhecimento, é preciso
fazer-reflexão na e sobre as experiências e sensações. Por outro lado, a razão não se pauta
também em um reino transcendental ou das Formas Ideais. Dewey substitui o termo razão pelo termo inteligência, porquanto, para ele, o primeiro se encontrava muito carregado e pesado, devido ao afastamento, provocado por Kant e pelo racionalismo histórico, entre uma razão superior que ordenaria a experiência e a ciência. Isso contribuiu para que a filosofia permanecesse ligada a um formalismo tradicional com uma terminologia distante do homem comum e seus problemas concretos. Diferentemente, para Dewey (1959c, p.111) a razão estaria envolvida com
[...] as sugestões concretas oriundas de experiências passadas, desenvolvidas e amadurecidas à luz das necessidades e experiências do presente, empregadas como alvos e métodos de reconstrução específica, e apuradas através de êxitos ou malogros na execução da experiência dessa tarefa de ajustamento: a tais sugestões empíricas, usadas de maneira construtiva para novos fins, é que damos o nome de inteligência.
Da mesma forma com que tratou o dualismo entre razão e emoção, o estadunidense também não concorda com a separação rígida entre arte e ciência. A relação artística entre fazer e sofrer, que constitui a experiência, representa uma atividade da inteligência, ou seja, não é uma atividade solta e desconexa, pois visa sempre a um resultado, um fim-em-vista.
Jim Garrison (2006a, p. 20), mais uma vez, salienta:
O pensar, para Dewey, é reflexivo, uma tentativa de fazer conexões de trás para frente e de frente para trás entre o que fazemos e o que sofremos como conseqüência. O conceito de continuidade também é importante: raciocínio de meios e fins não é linear, para Dewey. Fins sempre emergem durante o percurso da investigação. Meios são indistintos do fim em um dado contexto até que o processo de investigação se complete e relações harmoniosas sejam estabelecidas entre todas as partes da situação, incluindo o próprio investigador.
O pensar não se pauta mais em um telos ou em um eidos ou em um fim idealizado, pré-determinado. Fins são fins-em-vista que emergem no processo e são determinados pelos meios em suas limitações. A limitação da experiência determina as limitações lógicas. E fins- em-vista, por sua vez, diferenciam-se de meros resultados por causa de os fins envolverem reflexão e decisão durante o restabelecimento de uma função habitual, permeada pela insistência do passado e a possibilidade do futuro. Instrumental, nesses termos, significa, então, que as atividades e operações, práticas e teóricas, que os indivíduos exercem para
resolver problemas são sempre intermediárias, sempre fins-em-vista. O esquema do raciocínio prático de John Dewey é o seguinte, segundo Ross (apud GARRISON, 2006, p. 30):
Desejo Eu desejo V. Deliberação U é o meio para V.
T é o meio para U. ...
N é o meio para O.
Percepção N é algo que eu posso fazer aqui e agora. Escolha Eu escolho N.
Ação Eu faço N
Vemos que, segundo Ross, há vários elementos envolvidos no raciocínio prático de Dewey. Uma vez que exista algum tipo de complicação em uma experiência, a primeira reação é tentar sair dessa situação problemática. Portanto, se deseja algo. Por meio da investigação, examinam-se as melhores soluções possíveis. Portanto, delibera sobre algo. Como a solução pode estar distante ou ser dificultosa, especula-se sobre mais variadas hipóteses possíveis, sentindo quais são as suas conseqüências para a resolução do problema, até conseguir achar uma solução próxima; tem-se uma idéia. Nesse caso, os métodos e os conteúdos empregados surgem durante o processo. Logo, o indivíduo percebe a solução e a escolhe. Assim, escolhe-se e age. A deliberação é o órgão do raciocínio prático que propicia as escolhas inteligentes. Ela apenas acontece em uma experiência que tenha um objetivo, um fim-em-vista. Tais escolhas envolvem não apenas desejo e escolha, mas definitivamente juízos de valor.
A finalidade da atividade é a continuidade, ainda que não linear, ou seja, o raciocínio prático deweyano não é o equivalente lógico de uma “linha de montagem” que “fabrica” soluções para os nossos problemas, a razão não é uma “máquina” pré-programada. Pensamos e agimos conjunta e hipoteticamente, durante a resolução de um problema, sendo que, para isso, temos que agir sobre e sentir as conseqüências diversas vezes. Como o fim da atividade reflexiva é tão importante quanto os meios, a valoração e as questões morais também participam do raciocínio instrumental de Dewey. Os juízos de valor não estão isolados da experiência na qual eles são exigidos. Fins-em-vista são morais, porque o conhecimento não deixa nunca os hábitos e condutas da experiência, para se isolar em um reino idealizado. Com essa afirmação, Dewey (1959b, p.384) se contrapõe às escolas filosófica utilitarista e idealista que separam o motivo da ação de suas conseqüências, que separam o interesse e o dever, sendo o idealismo ligado ao caráter e ao puramente “interno”, e o utilitarismo ligado à conduta e ao “externo”.
Para Dewey (1959b, p.383), Kant teria defendido que apenas a boa vontade, o caráter interior completo em si, pode ser um bem moral. Ele não teria percebido que a vontade nada faz, se não acontecer na conduta. Por outro lado, os utilitaristas afirmaram que a consciência do homem nada vale, em termos de moral. O importante é aquilo que se faz. Em ambos os casos, o dualismo incorre em prejuízo moral, pois ele impede que o caráter e a conduta sejam tencionados.
Sem a liberdade para fazer conexões estéticas, morais e intelectuais, a partir das próprias existências, necessidades e desejos, em relação expressiva com a natureza e outros indivíduos, atemo-nos simplesmente ao que está estabelecido, fechando-nos intelectualmente.
O caráter instrumental em Dewey, portanto, repousa no fato de que desde o desejo sobre algo até a escolha e a ação, os hábitos de ação e de pensar são acontecimentos que podem ser instrumentalizados pela especulação filosófica enquanto uma lógica da conversação que pretende um melhor viver em sociedade, pretende uma sociedade democrática, e que, para tanto, deve se atentar aos desejos individuais e as questões morais que emergem da relação do indivíduo com a sociedade. Nesse caso, a verdade pretende estabelecer unidade dentro da diversidade e a lógica da verdade de que fala Horkheimer é substituída não pela lógica da probabilidade, mas por uma lógica da conversação. A verdade é uma verdade relacional, pois está relacionada entre o indivíduo e a sociedade, entre as demandas do presente e a tradição, entre o sujeito e o ambiente objetivo.
A conclusão a que chegamos, após essa retomada do pensamento deweyano frente à crítica horkheimeriana, é a de que restaria o empobrecimento da experiência como problema a ser enfrentado pelo pragmatismo. Dentro desse intuito, o que interessaria, dentro do espírito de pensar com a filosofia da educação de Dewey os problemas sociais de nossos dias, não é propriamente a teoria crítica de Horkheimer, mas a tradição de onde emerge o seu pensamento. Isto é, a tradição da Escola de Frankfurt com Walter Benjamin, Theodor Adorno e o pesquisador contemporâneo Giorgio Agamben. Parece-nos que frente a essa linha crítica de diagnóstico do empobrecimento da experiência que o pragmatismo deweyano está sendo retomado atualmente como instrumento para se encontrar uma nova maneira de se fazer experiência diante do instrumentalismo da razão.