O caminho escolhido para responder às indagações apontadas anteriormente foi buscar um instrumento que pudesse, de maneira objetiva, elucidar os talentos de cada aluno. O instrumento escolhido, denominado questionário perceptivo das inteligências, tem como objetivo explicitar quais os potenciais mais desenvolvidos por cada aluno sob a ótica de sua percepção individual. Conseqüentemente, pode-se, através dos resultados, delinear os melhores caminhos a serem seguidos para desenvolver os outros talentos que porventura estejam menos desenvolvidos; pois, como afirma Gardner (2000, p. 14):
“Os indivíduos podem não só vir a entender suas inteligências como também desenvolvê-las de formas altamente flexíveis e produtivas dentro dos papéis humanos criados por várias sociedades.”
Para tanto, se fez necessário uma seleção criteriosa das ações propostas pelo instrumento, dando ênfase àquelas nas quais o adolescente pudesse sentir maior afinidade, facilitando sua identificação, bem como sua percepção individual. O instrumento propõe identificar, através da percepção individual, a relação de facilidade que poderá existir entre o aluno e a ação proposta.
Nem sempre a relação de facilidade apresentada por um aluno diante de uma determinada ação é um fator que lhe garante prazer. O inverso também é válido, pois ele pode gostar de executar determinada ação sem apresentar habilidade para realizá-la. Assim, um aluno pode gostar muito de cantar, mas não ter facilidade para perceber os ritmos musicais ou as entonações. Esse despreparo, entretanto, não lhe invalida o gosto ou o prazer de realizar a ação.
Às vezes, há facilidade, mas a tarefa não inspira prazer. Como exemplo, pode-se citar a habilidade que algumas crianças pequenas apresentam para o desenho. Mas, algumas vezes, sobretudo quando solicitadas, muitas se recusam a fazê-lo, pois não
encontram uma relação positiva com tal ação, o que desestimula a sua permanência nessa tarefa. Não obstante, essa aversão diante da ação não invalida a facilidade da criança para produzir desenhos.
O instrumento foi empregado individualmente, a fim de que os alunos pudessem respondê-lo da forma mais fidedigna possível. Este procedimento se deve ao fato de, por se tratar de questões muito pessoais explicitadas através das percepções individuais, qualquer interferência externa ou do grupo de colegas poder invalidar a sinceridade das respostas.
Para tanto, foi necessário consagrar um tempo individual, sem limite rígido, para cada preenchimento. A intervenção do pesquisador para elucidar possíveis dúvidas ocorreu em todas as aplicações.
Houve mais questionamentos sobre a praticidade e a eficácia do instrumento por parte dos alunos do último ano, havendo um decréscimo proporcional à idade do aluno. No entanto, as classes de 3º ano tiveram muito mais interesse na devolução do que as classes de 1º ano. Em quase todas as ações, os alunos do 3º ano comentavam e faziam relações com as carreiras profissionais que pretendiam seguir. Houve interesse em saber se os talentos mais desenvolvidos e explicitados relacionavam-se à carreira e ao curso superior por qual optariam. Todas as dúvidas foram sanadas pelo pesquisador após o término do preenchimento.
As classes do 1º ano, em média, além de preencheram o questionário num tempo menor do que as outras, evidenciaram um caráter competitivo. Cada aluno teve interesse em saber como fora o seu resultado em relação ao grupo, pois supunha que o questionário poderia diferenciar e explicitar qual deles seria mais ou menos inteligente. Essa dúvida foi de pronto esclarecida, visto que o instrumento, diferente dos testes de Q.I., não teve a finalidade de quantificar a inteligência, e sim explicitar os talentos mais desenvolvidos.
Em relação ao 2º ano, houve apenas casos isolados de alunos que tiveram interesse em entender os mecanismos e as respostas que o questionário apresentava. A grande maioria teve apenas dúvidas quanto às especificidades das ações propostas.
Percebeu-se ainda que o grupo de alunas, no geral, demonstrou maior interesse nas respostas que o instrumento forneceu.
Outro fato importante que merece ser destacado é o da convivência, praticamente diária, do pesquisador com os alunos da pesquisa. Tal convívio ocorreu não só nos momentos de aula regular de Educação Física, mas também nos intervalos, em estudos do meio e em diversos eventos. Esse fator possibilita ao pesquisador conhecer as atitudes de cada aluno em diferentes situações de ensino, bem como fornece subsídios para evitar discrepâncias na análise das respostas discentes. Ratifica-se que não houve qualquer discrepância que pudesse invalidar os dados.
Nesse sentido, Piaget (1988) destaca a importância do professor como pesquisador na escola, produzindo continuamente conhecimento sobre o desenvolvimento dos trabalhos escolares. Esse comportamento científico deve estar sempre presente nas atuações docentes; pois, segundo o autor, trata-se de um fator decisivo para impedir o fracasso escolar.
Outros cuidados também foram tomados, a fim de que se pudesse eliminar possíveis interferências nas respostas. Assim:
a- a aplicação foi feita no mesmo local para todos os alunos;
b- o tempo não era estipulado de forma rígida, a fim de respeitar o ritmo do aluno;
c- as dúvidas relativas às interpretações das ações expostas eram imediatamente respondidas, visto que o pesquisador encontrava-se presente em todas as aplicações;
d- a soma dos resultados foi feita em conjunto, entre o pesquisador e o aluno, evitando possíveis erros de cálculo;
e- A devolução da pesquisa foi feita individualmente, a fim de que o pesquisador apontasse os principais talentos que o instrumento explicitou.
Nenhum aluno discordou do resultado final. Pelo contrário, a grande maioria concordou enfaticamente com os resultados, ratificando os índices obtidos e sentindo muita satisfação ao ver oficializada a percepção que possuía de si mesmo.
Acredita-se que esse instrumento é de grande valia no âmbito escolar, pois pode, de maneira direta, explicitar os potenciais de cada aluno. Por meio de alterações e adaptações para as diferentes faixas de idade ou instituições, esse instrumento poderá também ser útil em outros setores.
Através dos dados fornecidos pelo instrumento selecionado para esta pesquisa, realizou-se uma análise das possíveis relações ocorridas entre as diversas inteligências desenvolvidas dentro da escola. Foram analisadas também as possíveis interferências da escola no desenvolvimento de cada inteligência.