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Como vimos, nesta escola, a coordenadora estimula a existência de um clima e uma cultura favoráveis e motivadores da criatividade e da inovação dos professores. Os dados recolhidos através das entrevistas demonstram que a actuação da coordenadora é preponderante na percepção que os diferentes elementos educativos têm do clima positivo da escola, o que vai de encontro às ideias de Matos (1997). O facto de promover uma liderança participativa, de apoiar os professores, de considerar e confiar na capacidade de trabalho das pessoas, motiva os professores e representa uma liderança aberta e democrática. Tal como Goleman et al (2002) salientaram, esta coordenadora exerce um “efeito de ressonância” nos outros, funcionando como “íman emocional” do grupo:

“Eu trabalhei em muitas escolas e estou farta de dizer que quando sair, para qualquer escola que eu vá, não me vou sentir como me sinto aqui porque aqui o trabalho que fazemos é valorizado. Seja a coisa mais pequenina dão-nos valor e isso parecendo que não, obriga-nos cada vez a puxar mais, mais por nós e, ao fim e ao cabo, damos mais mas também ficamos mais felizes porque o trabalho se torna muito melhor.” (P4)

“Ela tem sempre um bom conjunto de professores, que também aderem às propostas que ela faz. Não há aqui ninguém que vire as costas, portanto, as ideias dela são aceites, como ela também aceita as ideias dos outros, e ela também é flexível.” (P3)

“Quando acha, portanto, a C. não impõe as ideias, mas quando tem uma ideia que ela acha que vai resultar, ela explica aos colegas porque é que está a pensar assim, porque é que acha que vai resultar e porque é que devia ser assim e, normalmente, consegue cativar e consegue envolver as pessoas, fazer com que elas se envolvam e aglutiná-las, aglutiná-las ao trabalho e motivar. Eu acho que tem muito a ver também com a pessoa que está à frente.” (P1)

A coordenadora preocupa-se mais com os aspectos pedagógicos e a criação de um clima emocional positivo e de entreajuda entre docentes do que com aspectos burocráticos de gestão e administração da escola. Reconhecendo que o clima de escola depende também das condições com que se trabalha, procurou tornar a escola num lugar aprazível e com boas condições:

“Eu, quer dizer, tinha que salientar tudo. Comecei por dizer que esta escola era uma escola cinzenta e morta, não é... portanto, hoje é uma escola com vida e com cor, portanto, e com alegria para as crianças e com sucesso. (…)

esta escola tinha as parede nuas, se eram brancas, eram brancas, se eram cinzentas, eram cinzentas, como no polivalente era muito cinzento naquele tempo, por isso é que lhe chamam a escola cinzenta.” (P1)

“É diferente porque a escola que eu conheci quando a minha filha mais velha esteve cá, não tem nada a ver com esta escola. E não tem nada a ver com esta escola num conjunto de coisas, nomeadamente, na altura as instalações estavam piores do que estão, porque as janelas eram em madeira, estavam todas empenadas, imagino, não sei, que em algumas salas estava bastante frio, durante o Inverno.” (Pa4)

“Antes desta directora tive a experiência com o outro director, que era uma pessoa cumpridora das normativos, cumpria, fazia todo o seu papel, era uma tarefa que não era fácil, porque não tinha qualquer redução de horários e, portanto, há escolas que tinham um professor que só fazia o papel de director, mas esta escola não atingia as 11 turmas, acho que eram 11, portanto, ele tinha bastante trabalho. E era um ambiente bastante diferente porque nenhum professor se dispunha a apoiar o director, portanto, o director tinha que se desenrascar sozinho. Não havia qualquer participação dos professores nesse apoio ao director. Por sua vez, também era uma escola que eu posso chamar de cinzenta, portanto, esta escola tinha as parede nuas, se eram brancas, eram brancas, se eram cinzentas, eram cinzentas, como no polivalente era muito cinzento naquele tempo, por isso é que lhe chamam a escola cinzenta. Portanto, era uma escola onde não se via o trabalho dos alunos, se estava, estava dentro da sala de aula fechado. Não havia relação, pelo menos nesse ano em que eu cá estive, nenhum professor tinha nada a ver com o trabalho que se realizava nas outras salas de aula. Bem sei que também foi numa época diferente, foi em 1993, isto também é preciso situarmo-nos no tempo. Portanto, cada um tratava dos seus alunos, da sua sala, o melhor que sabia e podia, não havia partilha, nem experiências, nada. A única coisa que se fazia em conjunto era as célebres festas (o magusto, a festa de Natal, essas coisas...), cada um participava com o seu numerozinho e não havia mais nada, de facto. Não vou dizer que havia má relação entre os professores, porque não havia, quer dizer, humanamente os professores davam-se bem, eram amigos... “ (P1)

Tal como vimos no testemunho anterior e na perspectiva de Costa (1994), o clima desta escola é influenciado pela interacção e participação da comunidade educativa, o que gera um sentimento de pertença em relação à escola. Os professores trabalham em equipa, com base na colegialidade e na entreajuda, e em torno de um projecto comum, tendo todos responsabilidade em relação ao sucesso e à melhoria da escola e do processo de ensino e aprendizagem:

“Trabalham em equipa. São pessoas preocupadas, interessadas. Porque eu tenho tendência a comparar com os outros sítios onde estava. Parece-me tudo muito acima. Uma equipa boa de trabalho.” (P5)

“Trabalha... acho que tem uma boa equipa de trabalho. Esse mérito deve-se sem dúvida à directora. Porque todos os anos mudam os professores e, todos os anos, a equipa tem sido óptima. Portanto, é um trabalho que ela vem fazendo, não é, e que

logo no início do ano vem fazendo com os professores e que, realmente, se consegue trabalhar bem. Eu estou aqui há três anos, mudamos três anos de professores e eu não senti assim... diferença, não é...” (P2)

Nesta escola, a coordenadora estimula uma verdadeira cultura de colegialidade e cooperação, com uma equipa de docentes que, para além da relação profissional, cria laços de amizade que os unem num espírito de entreajuda constante. Para fomentar esta relação, a coordenadora organiza momentos de descontracção onde os professores interagem, dialogam e convivem fora do ambiente escolar:

“…depois esses laços de amizade eram extremamente favoráveis para a criação das equipas.(…)

Olha, muita conversa. Tentar brincar, brincar o mais que se pode, desde os lanches de recepção, quem faz anos tem que, tem que trazer, pôr um lanche bonito na mesa… (risos) E eu acho que esses momentos de descontracção, de estar à volta de uma mesa, de, que … que… ajudam a, a conquistar as pessoas, as pessoas abrem-se mais, falam mais, e às vezes até são momentos em que as pessoas partilham a sua vida pessoal. E, no momento em que eu sinto as pessoas a partilhar a sua vida particular, já está cá, já entrou. Porque enquanto as pessoas se distanciam, “Ah, eu tenho que fazer não sei quê, ah hoje tenho não sei quê…”, eu não sei o nome dos filhos, não sei onde moram, eu não sei nada… eu não posso obrigar ninguém a dizer não é? Nem se o filho tem…, se é doente, se anda nesta escola, se na outra… E quando as pessoas, por iniciativa, começam a falar e nos começamos a conhecer mais ou menos a vida particular das pessoas, dos professores é um dos maiores indicativos que eu tenho. Porque ninguém deixa que ninguém entre na sua vida particular à força. (…)

Se temos algum, alguma, se organizamos uma tarde divertida, se temos ido brincar e almoçar ao Porto, metemo-nos no comboio e os funcionários também vão connosco. (…) E eu acho que esses momentos de descontracção, de estar à volta de uma mesa, de, que … que… ajudam a, a conquistar as pessoas, as pessoas abrem-se mais, falam mais, e às vezes até são momentos em que as pessoas partilham a sua vida pessoal.” (C)

“É, de facto, uma coesão muito grande dentro dos docentes, quer em vontade, quer em quantidade de trabalho e participação, e até convívio, portanto, até no bem-estar entre os próprios professores.” (P1)

“(…) é um corpo tão simpático, que ajudamo-nos umas às outras, quer na nossa vida particular, quer na vida profissional, temos os dois lados. Portanto, ajudamo- nos quando uma vem mal disposta ou quando alguma coisa não está a correr bem, não faltam ajudas.” (P3)

“Porque todos os miúdos que passaram por aqui, durante estes três anos, com problemas, quer dizer, eu acho que eles quase que vinham parar às minhas mãos. Portanto, eu ajudei sempre os professores, não é, nesse sentido: ajudar a compreendê-los, porque não são miúdos fáceis, com problemas de comportamento, com problemas de aprendizagem. E é um trabalho que eu gosto de fazer.” (P2)

Para além da própria coordenadora proporcionar momentos de formação, nesta escola há uma cultura voltada para o desenvolvimento profissional contínuo dos professores, de tal forma que, quando sentem necessidade, não se inibem de pedir formação junto de entidades competentes para tal, não deixando de valorizar os contextos informais de aprendizagem proporcionados no local de trabalho. Neste sentido, a coordenadora estimula a formação de comunidades de aprendizagem na escola (Fullan, 2001b), através da troca de experiências e de diálogos reflexivos, para que os professores aprendam no seu contexto de trabalho, com sentido e relevância (Bentley, 2001; Day, 2001, 2004):

“A C. ensina mesmo a trabalhar, em projecto e essas coisas todas, quem quiser e, portanto, a gente é quase... envolvidas umas com as outras a trabalhar. Trabalhamos todos em conjunto, portanto, acho que se trabalha bem. (…)

Inclusive, pedimos-lhes o cursinho de primeiros socorros para actualizar, porque isto tudo vai mudando, não é, já não se lavam as feridas com água oxigenada...” (P2) “É uma das coisas que eu digo que tenho aprendido muito. Eu própria já fiz uma formação com ela há uns anos e aprendi muita coisa e este ano continuo a aprender.” (P5)

Desta forma, a escola ganhou muito boa reputação junto dos professores, pais e comunidade, sendo um local muito pretendido nos concursos de professores e nas matrículas de novos alunos, como aliás já referimos:

“Eu a informação que tenho é essa, é que é mais fácil para o corpo docente e é mais pretendida, a escola, pelos pais e pela comunidade em si. Portanto, como eu disse há bocado, há meninos que nunca viriam, que antigamente não vinham para esta escola.” (P1)

Nesta escola, os professores mostram-se apaixonados pelo ensino, têm consciência do seu papel e dos desafios da escola actual, estando comprometidos emocionalmente e dedicados ao seu trabalho. Demonstram gostar dos seus alunos e manifestam-se interessados por eles, acreditando que podem fazer a diferença na sua aprendizagem e aproveitamento escolar. Mais uma vez se realça que a cultura colaborativa, a aprendizagem contínua e a atenção e preocupação são características importantes do profissionalismo docente, que estão patentes na visão de ensino que estes professores revelam nos seus relatos (Flores et al, 2007).

Como vimos, a cultura e o clima desta escola baseia-se na colegialidade, o que tem também influência no comportamento e aproveitamento dos alunos.