Podemos sugerir uma promissora relação entre a cultura participativa em emergência na internet com as práticas teatrais participativas sugeridas por Augusto Boal no final do século passado. As propostas de Boal, experimentadas e teorizadas no livro de sua autoria, O
Teatro do Oprimido (2011), suscitam a expressão popular por meio da atuação dramática, oferecendo a qualquer pessoa a possibilidade de construir uma situação dramática reveladora de sua própria condição social e a partir dessa visão remodelar essa situação, também por intermédio da encenação. A proposta de Boal é intencionalmente instigar uma postura política. Todas as técnicas desenvolvidas têm como intenção a transformação de membros de uma platéia passiva em agentes ativos, participantes, atores de uma mudança social.
Numa das técnicas experimentadas Boal, os participantes são convidados a realizar alguns exercícios para libertar o corpo da gesticulação e movimentação habituais causadas pelo tipo de trabalho e função social que assumem diariamente. Passam então a exercícios de interferência na encenação, mas com os participantes ainda manifestando-se do lugar da platéia. Em seguida, a interferência passa a ser direta, pela atuação - há gradações de exercícios para que os grupos fiquem à vontade e a atuação seja cada vez mais expressiva. A atuação é então usada para revelar uma situação social e ensaiar reações frente à possibilidade de transformá-la, mostrando uma visão de todo esse processo para fomentar possíveis mudanças do cenário social real. Boal experimentou essa técnica e outras em diversos países, com diferentes grupos sociais, alcançando com essas experiências algumas mudanças no cenário social de algumas comunidades.
A internet e a cultura participativa nas redes virtuais também vêm causando transformações sociais nesse sentido. “O que muda [...] é o grau com que amadores conseguem inserir suas imagens e pensamentos no processo político – e, pelo menos em alguns casos, essas imagens podem ter circulação muito ampla e atingir um público vasto” (JENKINS, 2008, p.288). Está havendo cada vez mais um uso político das qualidades da cultura participativa, ensaiadas em jogos e narrativas artísticas criadas coletivamente entre comunidades virtuais.
Essa postura ativa e transformadora conquistada pelos participantes do método de Boal, de certo modo é a mesma que vem sendo conquistada por nós usuários da internet. Cada vez mais estamos nos habituando a uma postura ativa de participação em vários aspectos. Além das nossas próprias narrativas e recriações de filmes, temos as ações de crowdfunding e
crowdsorcing, os blogs de notícias com diferentes pontos de vista do mesmo fato, a invenção de produtos por processos virtuais colaborativos, etc..
A proposta de Boal alcança também o corpo, o movimento, e acima de tudo a postura social. Queremos provocar e experimentar essa atitude de participação ativa tanto pelo engajamento de um participante dedicado a uma comunidade virtual de criação, quanto pela atitude manifesta presencialmente, com a interação do corpo e consequentemente da teatralidade do corpo. A criação coletiva portanto também será gerada pela interação presencial, durante a encenação das cenas por um grupo. Um dos aspectos que motivaram a construção desse projeto é a possibilidade de juntar às interações virtuais a vitalidade das interações presenciais. Esse projeto apropria-se de certa forma da estética dos games, em que
agenciam-se personagens, ou os chamados avatares (como no game The Sims, em que coordena-se as rotinas de vários avatares numa cidade), porém temos por motivação a inserção da atuação dramática física na elaboração de um game ou de uma narrativa multilinear, colocando no drama criado pelo jogo gesticulações e expressões sutis da teatralidade corporal e da fala.
Queremos estimular a postura ativa virtual e presencial pela capacidade de invenção dos participantes em três aspectos da criação: a dramaturgia, a atuação e a montagem das cenas. Os participantes poderão criar o enredo de suas próprias cenas e também encenarem, e depois ainda montarem seus próprios filmes. Nessa proposição encontramos também ecos das experiências de Boal. Numa das etapas de seu método, ele convida os participantes a “escreverem” a cena, antecipadamente, por palavras ou por improvisação teatral, e posteriormente os participantes oferecem soluções possíveis a um conflito na cena, interpretando essas soluções ou dizendo as novas palavras propostas pelos espectadores (BOAL, 2011, p.199). Desse modo eles também participam da “escrita” dramatúrgica, seja ela expressa por palavras ou criada em improvisos.
Em relação à criação dramatúrgica, podemos citar um exemplo de grupo de teatro contemporâneo que adota para algumas de suas peças a criação coletiva da dramaturgia, o
Theatre du Soleil. Os atores dessa companhia têm “visões” de cenas, como prefere dizer a diretora Ariane Mnouchkine, ao invés de “idéias”, sobre um tema previamente escolhido por todos. Essas visões são compartilhadas entre eles e aos poucos vão formando-se as cenas, que não seguem um roteiro, mas pertencem a um universo íntimo partilhado em todas as cenas (MNOUCHKINE, 2010). Queremos transpor essa possibilidade para a criação coletiva por intermédio da internet. É necessária uma organização que extrapole as técnicas desenvolvidas para uma criação conjunta presencial, pois as sugestões e negociações serão feitas em boa
parte virtualmente.
Em relação ao ato de encenar e à livre criação de uma cena e da atuação, Peter Brook ressalta a potência do ato criativo do ator quando ele pode criar sem um roteiro específico condicionado pelo diretor. Destaca essa descoberta em sua experiência com o Teatro da
Crueldade, grupo que buscava experimentar novos métodos de criação teatral, entre eles a construção coletiva das cenas pelos próprios atores (BROOK, 2000). Brook defende inclusive a criação originada pela expressão corporal como manifestação imprescindível para a criação de modo geral. Ironiza o método de iniciar a criação de um espetáculo com o grupo sentado com papel e caneta ao redor de uma mesa. Apesar de sua experiência ter sido feita apenas com atores (vamos convidar atores e também não-atores), queremos destacar dela a teatralidade do corpo como potencial criativo e a descentralização da criação. Para que a invenção dramatúrgica e a atuação sejam realmente originárias de uma criação coletiva, em nossa proposta o papel da direção está mais focado na orientação e interligação das criações que na determinação dos enredos.
Podemos associar essa função de dirigir não o espetáculo, mas o cenário estrutural e abstrato ativador da criação, à função do dramaturg no teatro (não é o dramaturgo!). A dramaturg Fátima Saadi (1999, p.9) explicita a função desse profissional, a pessoa que cuida da memória de uma companhia teatral e dessa forma ajuda a companhia a ter uma personalidade e uma linha evolutiva que extrapola a produção de somente um espetáculo, observando uma construção contínua na história da companhia. Dessa forma, o dramaturg também orienta a produção de um novo espetáculo ao contextualizar a nova produção à história e à personalidade do grupo e às propostas de interação com o público que o grupo vem apresentando. O dramaturg apresenta o grupo a ele mesmo, ao diretor de uma produção e revela o lugar do grupo na sociedade.
No modelo de criação participativa virtual e presencial também existe uma função similar de orientação dos grupos, preparação conceitual da criação coletiva, além da estruturação prática e funcional do projeto. Porém essa estruturação é preparada e apresentada virtualmente, por uma plataforma de acesso geral ou por divulgação viral. Aqui existem também parâmetros balizadores e formadores de uma personalidade para o projeto, que deve atrair pelo meio virtual grupos culturais os mais diversos. Toda a preparação da ação coletiva deve ser executada por meio da internet, e lembrando, para uma forma de criação descentralizada.
O artista dos meios digitais ganha ares de um dramaturg das comunidades virtuais. E nas palavras da jornalista e pesquisadora de arte digital Pollyana Ferrari (2012), age como
mediador da criação participativa:
A arte digital é frequentemente transformada em um processo de estrutura aberta baseado no fluxo de informação e no engajamento do participante. O público se torna parte do trabalho ao remodelar componentes textuais e visuais de um projeto. (...) O artista vira um mediador ou facilitador da interação. (FERRARI, 2012, p.283) Surge uma evidência a ser observada: não há no modelo que propomos a função de um diretor tal como no cinema. Cada participante deve ser o diretor de sua própria montagem, partindo de sua própria cena, responsabilizando-se juntamente com os criadores de outras cenas com as narrativas ou associações que derivam de suas cenas, que chegam em suas cenas ou atravessam-na. Os participantes devem governar a significação das montagens que partem de suas cenas. Eles não terão total controle sobre uma sequência inteira de cenas, menos ainda sobre a atuação dos participantes de outras cenas - isso pode ser um empecilho à criação compartilhada ou então um incentivo, na medida em que pode gerar visões diferentes de uma mesma sequência e até mesmo conflitos que suscitem soluções dramáticas originais. De qualquer forma, sempre haverá uma direção compartilhada das significações das sequências. Temos portanto, poderíamos dizer, o diretor coletivo.
Por exemplo, o criador de uma cena assiste à evolução de uma sequência de cenas que se faz a partir da sua, ou cruzando sua cena, procurando captar conflitos, tensões, cadeias associativas entre as cenas, e administra essa evolução negociando alterações ou o fortalecimento de algumas percepções juntamente com os outros criadores, e eventualmente alterando sua própria cena ou filmando novas. Assim vão-se dirigindo as narrativas ou cadeias associativas cruzadas. Pode acontecer de revelar-se um sentido geral num universo de cenas, imprevisto, ressaltando uma sensibilidade e uma representação peculiar presente em todas as cenas ou na maior parte delas. Os participantes podem se aperceber disso e incentivar a evolução desse sentido central, do universo que compuseram sem perceber, e assim podem dialogar com a revelação de si próprios, dos universos que expressam com suas criações artísticas, passando a gerenciá-los lucidamente. Portanto os exercícios de direção podem ser feitos com a atenção dirigida somente às sequências relacionadas às cenas do próprio criador, ou intercedendo num universo maior que a rede de sequências suscita.
Essa direção compartilhada provavelmente obedecerá ao princípio de topologia observado por Lévy (1993, p.24). Na rede hipermidiática as associações são formadas por relações de proximidade (não necessariamente temporais ou espaciais, também por proximidades conceituais por exemplo). Os diretores da criação audiovisual multilinear cuidarão mais intensivamente das sequências próximas às suas cenas, expandindo-as para universos maiores à medida que as significações desses novos universos vão tocando as
significações emanadas de suas cenas. Lévy diz que a rede não está no espaço, ela é o espaço (ou seja, todos os elementos da rede devem se organizar considerando a estrutura espacial existente, o espaço se modifica baseando-se em sua própria estrutura, não existe o “fora do espaço”). Da mesma forma, os diretores coletivos não estão fora do espaço (pois não há outro espaço), eles se organizam alheios ao espaço, portanto, por relações de proximidade.
Diante de narrativas multilineares, alguns participantes podem negociar intensamente construções de enredos focados numa sequência única de cenas, governando os sentidos dessa sequência, ou a qualquer momento podem se interessar por um outro caminho que deriva dessa sequência e passar a negociar com outros grupos. Dessa maneira vão formando-se comunidades específicas dentro da comunidade do projeto, com afinidades mais bem trabalhadas para formar enredos específicos, mais fortemente coesos.