Basicamente, as premissas estruturais dizem respeito à maneira como os agentes interagem e como tais interações são coordenadas. Comecemos pelas interações. A abordagem tradicional trata as estruturas de interação de forma muito simples e sempre de maneira extrema: ou os agentes não interagem diretamente entre si, ou todos interagem com todos. As interações em uma abordagem de equilíbrio geral são totalmente indiretas: os agentes não interagem diretamente, e sim através de estruturas impessoais - que são os
mercados47. Já em uma abordagem através da teoria dos jogos, a interação é direta, com
resultados previstos através de matrizes de pay-offs. De maneira oposta, a estrutura de interação é muito importante na abordagem complexa, já que toda ação econômica envolve interações entre agentes. Como observado empiricamente, a maior parte das interações humanas, incluindo aquelas que ocorrem em contextos econômicos, tem um caráter primariamente social: conversar com amigos, trabalhar com colegas, pedir conselhos, viver perto de vizinhos, entre outras. Padrões recorrentes destas interações sociais fazem com que os agentes se relacionem em redes (networks). As interações são limitadas e incentivadas por tais redes de relacionamento, que podem, na maior parte das vezes, ser caracterizadas por laços relativamente fracos. Isto é, ao contrário das interações extremas
47 Isto fica claro na abordagem através do equilíbrio geral: os vetores de preços e quantidades são entregues
observadas na abordagem tradicional, a estrutura interativa na abordagem complexa tem um caráter intermediário, limitada e incentivada pelas redes de relacionamento.
Além das interações, outra modificação significativa nas premissas estruturais da economia complexa diz respeito à coordenação. A abordagem tradicional considera que a coordenação das ações dos agentes é realizada de forma centralizada e que os mercados são completos e não seqüenciais. Opta por uma concepção atomista de sociedade, em que as interações sociais ocorrem de modo mecânico e são inerentemente reversíveis. Já a abordagem complexa, ao incorporar explicitamente noções de incerteza endógena e de processo de mercado, considera a economia como um sistema de ações que ocorrem de modo descentralizado, as quais são influenciadas e retro-alimentadas mutuamente (dependendo sempre de um meio de comunicação adequado). O fato de a economia complexa apresentar interações limitadas e coordenação descentralizada resulta na existência de diversos níveis de coordenação. Observe que a falta de coordenação juntamente com uma estrutura interativa limitada proporciona a possibilidade de ausência de arbitragem completa na economia.
De maneira simplificada, podemos afirmar que a economia complexa apresenta diferenças em relação à recursividade entre os agentes econômicos. Isto é, suas ações influenciam os outros agentes e a recíproca é verdadeira. Não existe uma estrutura formalmente hierárquica entre os entes econômicos, fazendo com que, em muitas vezes, cada agente possa fazer parte de diversos níveis de entidades. Isto é, a reciprocidade causal atua nos diversos níveis organizacionais de maneira recíproca. Enquanto um padrão de comportamento pode ser visto como autônomo em um determinado nível organizacional, este mesmo padrão pode ser restrito pela ação ou estrutura de um determinado ente econômico em outro nível. Na visão complexa, o princípio fundamental da organização é a idéia que cada unidade em determinado nível produz outras unidades em um nível mais elevado.
2.1.3.3. Instituições
Finalmente, tratemos das instituições. Em grande parte dos modelos econômicos desenvolvidos através da abordagem tradicional, as instituições e construções sociais são exógenas, estáticas (não evoluem) e sujeitas a otimização. Em função disto, na maior parte das vezes não são sequer mencionadas nos modelos já que, por serem exógenas e constantes, são eliminadas no processo de otimização. Quando consideramos o estatuto
ontológico e a estrutura sistêmica da economia complexa, as instituições se tornam endógenas, adaptativas e evolucionárias. Arthur et al. (1997a) argumentam que, em um contexto complexo, a definição de “instituição” abrange pelo menos três dimensões: (i) regras que regulamentam o fato sócio-econômico (como a lei das falências, por exemplo); (ii) entidades com poder social e político de criar regras (como o governo); e (iii) construções sociais que criam regras com as quais os agentes econômicos interagem (como os mercados). Em qualquer uma destas dimensões, as instituições não poderiam ser adequadamente compreendidas se analisadas isoladamente, pois tais dimensões interagiriam com as ações econômicas, políticas e sociais. Isto é, as instituições determinariam e seriam determinadas pelo ambiente econômico, assumindo uma dimensão cognitiva em nível agregado, adquirindo a dimensão de “regras do jogo”. Conforme definido por North (1997):
“Institutions are the rules of the game – both formal rules and informal constraints (conventions, norms of behavior, and self-imposed codes of conduct) – and their enforcement characteristics. Together they define the way the game is played”.
(North, 1997, p. 225).
Vemos que a importância das instituições na abordagem complexa é muito relevante. North (1997) destaca que o desenvolvimento econômico dependeria crucialmente de instituições estáveis para que as transações ocorressem em um ambiente impessoal e com o menor nível de custos de transação. Como as instituições seriam justamente as “regras do jogo”, tais regras determinariam o desenvolvimento dos entes do ambiente onde o “jogo” ocorre que, em última análise, determinariam o desenvolvimento das instituições. Isto é, o desenvolvimento e a evolução das instituições seria conseqüência do desenvolvimento econômico de um determinado ambiente e das interações entre os entes e as instituições. Como os agentes econômicos coexistem em um ambiente de escassez de recursos, é natural que a estrutura de pay-off dos mercados também impacte as instituições. Vemos que existe uma recursividade natural entre instituições e entes. Além disto, as instituições também interagiriam com as ações econômicas, políticas e sociais.
O conceito de instituições como “regras do jogo” abre espaço para considerar um determinado paradigma econômico como instituição. Com isto, existe a possibilidade de que um mesmo problema econômico possa ter diferentes soluções dependendo do momento histórico e do paradigma econômico em que um determinado país esteja
passando. Vemos que o conceito de instituição em uma abordagem complexa é totalmente compatível com a dependência e irreversibilidade temporal do fenômeno econômico.
2.1.3.4. Modificação dos problemas
A verificação das significativas diferenças nas premissas estruturais e cognitivas na economia complexa em relação ao pensamento tradicional é suficiente para percebermos que os problemas com os quais os economistas se deparam mudam significativamente quando a abordagem complexa é adotada. Na abordagem tradicional, o problema de interesse é derivar, partindo das escolhas racionais individuais de agentes otimizadores, níveis agregados de “estados da economia” (como nível de preços numa análise de equilíbrio geral ou um conjunto de estratégias e pay-offs em teoria dos jogos) que satisfaçam alguma condição em nível agregado (como equilíbrio de mercado em uma análise de equilíbrio geral ou o equilíbrio de Nash em teoria dos jogos) e estudar as propriedades destes estados agregados da economia. O processo é similar quando o objeto de estudo são sistemas dinâmicos, com os estados da economia representados por um conjunto de variáveis, e um conjunto de equações em diferenças ou diferenciais que descreveriam como tais variáveis seriam modificadas ao longo do tempo. O problema de interesse em uma abordagem através de sistemas dinâmicos seria examinar as trajetórias obtidas. Porém, a abordagem através do equilíbrio não descreve os mecanismos através dos quais os estados da economia são modificados no decorrer do tempo, e tão pouco como o equilíbrio ocorre. Já a abordagem através de sistemas dinâmicos não distingue os níveis gerais e individuais, necessitando de agentes representativos. Além disso, não consegue incluir a evolução e o surgimento de novos tipos de variáveis de estado, novos padrões, instituições e novas estruturas.
Na abordagem complexa não é coerente encarar os problemas econômicos como um exercício de otimização entre os múltiplos agentes. O foco dos problemas passa a ser nos processos, e não no resultado. A pergunta passa a ser como as novas estruturas, novos fenômenos e novos paradigmas surgem endogenamente (da mesma forma que nas estruturas físicas e/ou biológicas). Mais ainda, é claro que, em um mundo com perpétuo desenvolvimento, os resultados nunca podem ser vistos como um equilíbrio estacionário, walrasiano ou um equilíbrio de Nash. A única problematização que faz sentido nesta nova visão é sobre o fenômeno de transição, sobre os processos e sobre a emergência de novas estruturas. Vemos que inúmeros problemas reais (como inovações, desenvolvimento
tecnológico, precificação de ativos, persistência de desigualdades sociais e econômicas, entre outros) podem ser vistos sob tal perspectiva.
Como último ponto, ressaltamos que, para a formulação de modelos e desenvolvimento de teorias utilizando o enfoque complexo, foi necessário o desenvolvimento de novos métodos e ferramentas, já que as características citadas e os tipos de problemas a serem tratados com esta abordagem não podem ser capturados com o instrumental matemático utilizado pela abordagem tradicional. Devido a semelhança com os problemas observados na biologia e na física, “tomou-se emprestado” destas ciências boa parte do instrumental necessário. Para tanto, são necessários processos estocásticos, matemática combinatória, algoritmos genéticos, conjuntamente com modelos computacionais.