Kapittel 6 Ettervirkningene av krisen
6.3 Evaluering, læring og endring
O volume de informações e o grau de penetração do modelo urbano de existência e a pontualidade dos processos gerais da globalização podem ser mais sentidos nas pequenas cidades, especialmente, da região centro-sul, pois em outras regiões do Brasil tal fato é ainda incipiente47
. Residir no campo, na maioria dos casos, é apenas uma noção locacional, visto que os lugares estabelecem prioridades urbanas em detrimento do antigo modo de vida rural. Com isso, o modo de vida rural ou mesmo a “vida rural” permanece como arquétipo do que realmente representa. As necessidades do mundo contemporâneo chegam ao campo com as antenas parabólicas e o rádio digital; e as relações mais explícitas e diretas do campo/rural se transformam e se “urbanizam”.
A dicotomia campo/cidade presente nas fases anteriores do capitalismo é dissolvida e não existe em determinadas regiões do Brasil, como nos casos exemplificados pelos municípios de Estrela do Sul, Grupiara e Cascalho Rico. Tal processo de dissolução, além de rápido é complexo. Estabelece então uma crise psico-ideológica tanto nos residentes do campo modificado como também na maioria da população das pequenas cidades. A sensação de não
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pertencimento, de vagar no campo existencial é algo presente e sentido pelos “forasteiros”. O deslocamento temporal em que parte das pessoas vagam somente não é maior que o sentimento de pertencer à situação de pessoas de “segunda categoria”, imposta pela maneira na qual a modernidade se instala nesses espaços. Estas pessoas não pertencem ou não se vêem pertencer ao mundo representado nas telas da televisão e nas páginas dos jornais e revistas.
A fusão campo/cidade realizada pelo modo de vida urbano cria a confusão da alienação, do sentimento de rejeição e impotência, o sentimento da exclusão total de um mundo dicotômico, porém “organizado”, cartesiano, concreto. Parte da população da pequena cidade é refém de um mundo em transição em que o urbano é o real, mas inatingível em muitos casos. É um mundo necessário e correto, inacessível na maioria das vezes, daí o sentimento de impotência. Diante desses fatos podemos entender o alto grau de isolamento de alguns, do alcoolismo e do suicídio de outros.
A modernidade chega difusa (e confusa) nestes rincões urbanos exemplificados pelas pequenas cidades de Estrela do Sul, Grupiara e Cascalho Rico. Essa forma de modernidade é “assimilada” de maneira tangencial pela administração pública da pequena idade. Os ranços históricos ibéricos que impregnam a administração pública contemporânea da pequena cidade absorvem somente aquilo que lhe é satisfatório ou que lhe é forçado pela lei. No mais, o gerenciamento público ainda é à moda tradicional e assim torna-se caótico. Em verdade é uma camisa de força que “oprime” a administração pública, arraigada no modo de fazer política como no período do Brasil colônia e na velha república.
O modo de fazer o urbano, calcado na ótica lusitana, sem muito apreço ao planejamento, no comum apadrinhamento político, nas noções de compadrio, nas relações de amizade, nos laços familiares que levam ao máximo a lógica do nepotismo, na relação direta com o patrimonialismo e nas relações difusas de poder, são resquícios mais que suficientes para a compreensão de que, nas pequenas cidades o modo de se fazer política e de administração pública choca-se com a modernidade (aqui vista como sinônimo de globalização).
Fazer política e administrar o bem público na modernidade passa pelos conceitos contemporâneos de administração do Estado como se administra empresas. Tal modernidade é, assim, fundamentalmente calcada nos conceitos de administração pública definidos sob a ótica anglo-saxã. A globalização anglo-saxã denota a “vitória” não somente do modo de produção capitalista, mas também do modo de administração inferido por ela. Os desdobramentos das reformas propostas na década de 1980 na Inglaterra e nos EUA podem ser vistos claramente nos países do terceiro mundo na década de 1990 e neste início de século e milênio. São propostas primidas no modelo do Estado mínimo que consolida as teses neoliberais preconizadas pela ótica da globalização anglo-saxã48
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Tais propostas têm como resultado uma tempestade de incoerências e de choques na administração da pequena cidade. Estas são obrigadas pelas leis e regulamentações do Estado, a Constituição Federal, principalmente, a qual se fundamenta essencialmente nas bases da globalização dominante, produzindo um redemoinho de situações anacrônicas. É a crise das pequenas cidades. Estas estão numa verdadeira ciranda de transições. O confronto entre o moderno (modo de administração pública) e o usual, calcado em relações históricas de se fazer o político e o administrativo arraigado na herança, ainda muito presente, do modo lusitano do fazer urbano.
A gênese do trauma ou conflito acontece a partir da década de 1970 no bojo de profundas transformações representadas pela Terceira Revolução Industrial ou também denominado período técnico cientifico informacional. As transformações globais imprimem, invariavelmente, críticas ao papel e tamanho do Estado, que nestes tempos de globalização/modernidade elegem tais críticas e alguns oráculos acadêmicos como porta-voz dessas contestações ou mesmo de pregação de mundo capitalista com tendências neoliberais. Contudo, tais rumos podem não ser onipresenças nos vários segmentos sociais que são “bombardeados” por esta “nova” lógica. Dos vários conflitos estabelecidos a partir do momento singular da máxima mundialização das relações humanas, uma nos é seriamente própria: a maneira de administrar a cidade.
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As várias maneiras de se fazer a espacialidade e o social urbano através da administração pública sofreram e sofrem diversas críticas e óticas, porém as que mais chamam a atenção são aquelas que entendem o urbano como prolongamento das empresas e assim a cidade e o Estado, como agente organizador e controlador da administração direta, são encarados como prolongamento de um empreendimento gerencialmente possível a partir dos desígnios do capital. Não mais como o capital de maneira implícita e indireta. Agora, o capital é o vencedor e como tal deve ser o modelo de organização da administração pública, a cidade deve dar lucro!49
E para tanto sua administração deve ser racional e produtivista, maximizando o espaço urbano para o capital. Segundo Oliveira (1999, p. 147):
De acordo com David Harvey (1996), o amplo consenso entre os governos locais de diferentes orientações políticas de que as cidades devem ter uma gestão empresarial teria se firmado definitivamente no início da década de 1980. Essa mudança na administração pública seria relacionada à recessão de 1973 e à desindustrialização, desemprego e crise fiscal, aos quais Harvey acrescenta uma forte onda de neoconservadorismo, em que os investimentos tornariam ”cada vez mais a forma de uma negociação entre capital financeiro internacional e os poderes locais, os quais fazem o melhor possível para maximizar a atratividade local para o desenvolvimento capitalista”.
Ainda assim, a cidade contemporânea, moderna e capitalista, deve ser o produto cartesiano/lugar da reprodução do capital. Ordenada e ordeira. Regular e atrativa. Cosmopolita e, acima de tudo, competitiva. É este processo último que faz a diferença nestes tempos de modernidade capitalista anglo-saxão: competitividade. As cidades são coisificadas como pessoas, como sujeito. A coisificação50
opõe a cidade X contra todas as outras Y´s. A coisificação torna a cidade da modernidade um ser, quase humano, ao opor umas às outras em suas potencialidades (atratividades), elevando as conotações das cidades estado do renascimento a meros coadjuvantes históricos. Na atualidade moderna e contemporânea todas as cidades capitalistas têm que ser obrigatoriamente competitivas entre si, e assim em certa medida algumas são
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Sobre este assunto Souza (2003, p. 164-165) estabelece uma interessante discussão. 50
A criação desta ilusão é um produto de marketing capitalista de certa forma eficiente do ponto de vista ideológico e financeiro. Contudo, as cidades parecem ter vida própria o que Marx (Vol. I do Capital) denomina de fetichização. As cidades não podem ser coisificadas como pessoas já que o processo é de impessoalização, estas deixam de ser sujeitos, porém na racionalização capitalista estas se tornam fetiche em que coisas parecem pessoas, processo análogo ao fetiche da mercadoria (Vol. I do Capital). Sobre este assunto consultar Hussain et al (1980).
cidades-estado, representando apenas modelos inacabados para esta nova ótica do capitalismo anglo-saxão num sentido antiquado em suas contendas, lembrando cidades-estado renascentistas.
Para as disputas do hoje moderno urbano anglo-saxão as disputas são totais e globais. Todas contra todas. E como estas cidades se preparam para este mundo “competitivo” e moderno? Especialmente transferindo o mundo das empresas para a administração pública e também transferindo a ótica do capitalismo gerencial para as organizações públicas. São antes de qualquer coisa visões que se transformam em “inevitáveis” para a nova realidade do capital e do mundo moderno e da modernidade urbana anglo-saxã. Segundo Oliveira (1999, p. 146):
Essa tendência de renovação da gestão local, chamada de empreendedorismo competitivo, empresariamento urbano, urbanismo de resultados ou outro rótulo que identifique uma gestão em que uma variante de algum modelo de planejamento estratégico de empresas é traduzido e adaptado para a administração pública, costuma enfatizar um “novo papel” das cidades (“protagonistas” da nossa época, segundo Jordi Borja e Manuel de Forn, 1996) e a competição interurbana, qualificada não exatamente como necessária, antes como inevitável para a sobrevivência das grandes cidades.
O mundo da “nova ordem” da administração pública capitalista fez também, além do ideário neoconservador um modelo, um verdadeiro index daquilo que seria não grato no novo mundo: a politização das relações urbanas especialmente no modo de administração (ou gerenciamento) das cidades do mundo da modernidade e do urbano contemporâneo. E, para tanto, a literatura de administração de empresas é postulado nestes tempos como bíblias para a nova ordem do urbano contemporâneo. Segundo Oliveira (1999, p. 146):
Essa representação da cidade contemporânea trouxe a literatura de administração de empresas para o centro da discussão da questão urbana, provocando uma revisão de conceitos e uma alteração nas práticas dos planejadores operacionais. Se, por um lado, a emergência de “gerentes urbanos” especialistas na aplicação de metodologias de planejamento estratégico empresarial traduzidas para as cidades possa ter tido a oposição de alguns planejadores que recusavam os novos métodos, por outro, o planejamento estratégico parece ter reavivado o planejamento urbano. Criticado seja pela imposição autoritária de modelos abrangentes seja em nome da liberdade de manifestação da eficiência do mercado, o planejamento urbano é recuperado com uma nova roupagem e torna-se pragmático e “realista”.
Dessa citação podemos retirar três importantes constatações: as diversas novas fórmulas de administração da cidade, da, quais a do
planejamento estratégico é apenas uma, versam quase todas, sobre um denominador comum: a tentativa de despolitização da administração publica51
e a maneira de encarar o planejamento urbano; a revigorada e reformulada geografia do planejamento urbano; a resistência ou oposição a estas novas metodologias de administração pública.
2.3 – AS CRISES INTERNAS DO PROCESSO CAPITALISTA NA DÉCADA