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“Se alguém falar que é do Serviluz as pessoas se benzem, algumas pessoas não querem dá emprego. Se a pessoa é preto, pobre e mora no Serviluz é marginalizado total”. “Uns foram pro cemitério e outros foram pra cadeia e quem ficou vivo serviu de exemplo”.

“Eu já cheguei a ver o seguinte: um colega nosso na época tava cursando a faculdade e o cobrador do ônibus queria tomar a carteirinha dele, porque não acreditava que aqui no nosso bairro tinha gente fazendo faculdade (...) uma amiga minha também ela sofria muito assim porque ela era classe média e vinha pra cá, a mãe dela só faltava... batia nela, ela saía escondida pra vim surfar, porque a mãe dela dizia que ela vinha pra cá e ia se envolver com drogas e ia se envolver com mil e uma loucuras, aqui só tinha o que não prestava (...)” 138.

Por todas as transformações econômicas e sociais pelas quais passou historicamente o Serviluz, o bairro passou a ser tido na cidade como espaço de miséria, medo e violência. A delinqüência juvenil urbana no Serviluz e suas múltiplas facetas constituem importante capítulo nesta pesquisa.

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Com o passar dos anos, a marginalidade se transformou numa dura realidade que afetou a convivência entre os moradores. O medo expulsou muitos dos antigos vizinhos e passou a provocar acirrados isolamentos na comunidade. Tinha acabado a época em que se podia dormir com a porta aberta, findara o tempo dos meninos que faziam as coisas “direitinhas” e dos garotos “bem confiantes”.

A marginalidade que passa a caracterizar o lugar também suscitou a necessidade de encontrar pequenas estratégias para enfrentar a rejeição, o descaso e, sobretudo, o perigo iminente da morte. A população sentia na pele os vários efeitos da situação violenta do bairro.

“Muita gente quando vai procurar emprego não bota nem Serviluz no bairro que mora, bota Vicente Pinzón (...) Era muito triste a gente ir atrás de um emprego pra trabalhar, por a gente morar nesse bairro aqui as pessoas já de antemão já diziam que num tinha vaga pra gente”139.

O reconhecimento da “origem violenta” dos habitantes impedia o ingresso deles inclusive nas empresas localizadas nas proximidades e as pessoas passaram a sentir vergonha do bairro em que moravam. Em entrevistas de emprego, os jovens eram instruídos a mentir sobre sua origem, impulsionados a dizer que moravam em regiões adjacentes, como Praia do Futuro, ou a utilizar outros nomes pelos quais o bairro é conhecido, como Vicente Pinzón e Cais do Porto, para não correrem o risco de ser eliminado antecipadamente.

A construção dessa memória negativa do bairro se reforçava em grande medida nos programas policiais da mídia, onde passaram a ser freqüentes a presença de garotos locais, e não foi uma criação realizada somente in loco. Na imprensa havia, de modo geral, um conjunto de imagens depreciativas em que esse espaço aparecia marcado pelo preconceito e pelo estigma.

Não somente os departamentos pessoais das empresas insistiam em renegar a população. A rejeição por vezes beirava a totalidade. Um entrevistado afirmou revoltado que bancos como a Caixa Econômica Federal e outros órgãos de crédito passaram a não mais conceder empréstimos para reformas domiciliares a moradores da área. Uma das alegações era a de que o bairro tinha a fama de fraudulento, pois era grande a quantidade de moradores inadimplentes. O pior era que as pessoas não se importavam em ter o nome “sujo” no sistema de crédito, por isso “morador do Serviluz não tinha mais empréstimo!”140.

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Entrevista concedida por Mauro Sérgio Domingues ao autor em 18/05/2005.

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Entrevista concedida por José Carlos da Silva ao autor em 08/03/2005.

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“O pessoal já sabe que aqui aconteceu muita coisa”141. Há, na maior parte dos depoimentos, a certeza de que os moradores do lugar precisam provar em dobro a sua capacidade. No espaço do trabalho, por exemplo, foi necessária uma versátil mudança de postura com vistas à adaptação ao sistema de competição industrial; foi preciso forçar as empresas a valorizarem a experiência e a seriedade de pessoas simples e que, infelizmente, estavam envoltas num universo considerado degradado do ponto de vista.

“Essa violência destruiu bastante o ramo de turismo, a rede de turismo aqui foi bastante destruída. Por quê? Por causa da violência! Nós temos aqui uma praia bastante bonita, temos um lindo pôr-do-sol, uma praia linda. Cadê turismo? Aqui não existe turismo. Por quê? Por causa da violência. Os vagabundos botaram os turista pra correr, queriam robar os turista (...)”142.

Entre os lamentos decorrentes da criminalidade, estava a perda do poder de atração que o bairro tinha. Numa região a ser destinada ao turismo, o Serviluz se tornou um espaço muito pouco visitado. Sendo uma praia contígua à badalada Praia do Futuro, a preferida pelos visitantes, a praia dessa favela, no entanto, tornou-se um lugar desaconselhável, os que nela se aventurassem possivelmente seriam assaltados. No porto, o viajante que antes tinha o Farol como destino certo agora era avisado, pela própria Capitania dos Portos, dos perigos existentes na vizinhança. Os turistas foram desviados para outros pontos da cidade, afastados da convivência junto à população pobre da periferia.

Para grande parte dos moradores, porém, a violência é, antes de tudo, um fato real e mortal, que incomoda e assusta. Nesse meio, onde a importância da família para os indivíduos é algo basilar e onde os filhos são quase sempre a coisas mais importantes da vida, os “tesouros” que o pobre tem, famílias inteiras estavam sendo drasticamente reduzidas.

“(...) Uma coisa que me deixa bastante angustiada é eu ver essa juventude, porque eu já tôu com vinte anos aqui, quer dizer é uma vida né? Tem pessoas aqui que eu vi crescer, que eu acompanhei e hoje eu vejo se acabando ai no crack, e eu sem puder fazer nada, isso me dá uma angústia tão grande (...) uma boa parte da juventude não tem uma perspectiva de futuro, é uma juventude que não sonha, que não tem vontade própria de crescer, de ser alguém na vida, mas eu acho que isso depende muito dos pais, da família”143.

A marginalidade entre os jovens de repente se entranhou com força e aquele núcleo populacional, onde os meninos cresciam voltados para o trabalho e o lar, virou “lugar de bandido”. Garotos começaram a partir cada vez mais cedo rumo à marginalidade, cresciam praticando pequenos furtos e gerando o “terror” no bairro. Muitos morriam antes mesmo da

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Entrevista concedida por Francisco Herton Lima Rodrigues ao autor em 30/02/2002.

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maioridade e nas ruas as imagens da morte se tornaram cenas cotidianas. Rotineiramente crianças amanheciam e anoiteciam junto a corpos ensangüentados ou escutando notícias de assassinatos.

“(...) Ele era um garotinho e tal, um menino simples e tudo, gente fina, surfava conosco. Esse garoto ele partiu pra marginalidade, né? O cara ficou assim o ‘terror’ (grifo nosso) do bairro (...) ficou, coitado, ficou sem cara porque atiraram por trás da cabeça dele e fizeram uns rombos na cara (...)”144.

A violência no bairro na verdade não é uma regularidade, mas tem seus períodos de recrudescimento. Funciona como uma espécie de onda; em alguns momentos, aumenta assustadoramente. Em certas épocas, a situação se torna mais inflamada e os nervos ficam à flor da pele. Quando uma gangue rival invade o bairro ou quando morre algum criminoso renomado, por exemplo, provavelmente revides sistemáticos acontecerão. Esses são momentos de tensão que incomodam a todos, exigem certos cuidados especiais para circular na área e produzem um prolongado estado de alerta. Nessas circunstâncias, tanto a polícia quanto os que por ela são procurados passaram a impor constantes “toques de recolher” à comunidade.

Nessa esteira, nas ruas e nos becos, aumentou a venda e o consumo de drogas; adolescentes pediam ou tomavam dinheiro de quem passava, roubando e intimidando a população. Em meio a esse clima, atravessar espaços pouco visíveis, como os becos estreitos ou a beira da praia à noite, podia significar o fim trágico da vida. “Eu entrei no beco, se eu fosse um rival, se tivessem me confundido, eu tinha morrido”145.

No bairro, corria-se agora o sério de risco de ser “confundido” e morto por uma gangue. Em alguns lugares, era nítido o domínio de jovens encapuzados, desmascarando uma triste realidade que amedrontava e envergonhava os moradores.

Ao som da música funk, bailes e festas agrupavam nuvens de jovens armados que tomavam conta das ruas, promovendo “arrastões” por onde passavam. Nas noites de sábado, os jovens do Serviluz se destacava facilmente entre as gangues de adolescentes da periferia de Fortaleza, levando o nome do bairro ao topo desse circuito.

Para se ter uma idéia da situação, em alguns pontos de encontro ou passagem das gangues, contavam-se inúmeros furtos, agressões e assassinatos, acontecidos em poucas horas. No Serviluz não há, por exemplo, quem não se lembre do antigo Forró da Bala. Em menos de quatro anos de funcionamento, o pequeno bar acumulava a incrível estatística de

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Entrevista concedida por João Carlos Sobrinho ao autor em 27/02/2003.

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dezoito mortes ocorridas nele ou no seu entorno146. Um detalhe importante: localizava-se ao lado da Delegacia de Polícia do Farol. A delegacia havia sido instalada no Farol a pedido dos próprios moradores, quando o meretrício se deslocou para o bairro. Como observado, foi precisamente na zona de prostituição que os jovens, juntamente com as mulheres, começaram a realizar os primeiros furtos; o roubo, em princípio crime, de certa forma, tornou-se uma prática local e passou a ser desenvolvida nos mais variados espaços da localidade.

A polícia assume nesse contexto um caráter bastante dúbio no seio da comunidade. Tanto se solicita a sua intervenção nas contendas internas, quanto a sua presença pode indicar a entrada de um corpo estranho, alheio aos membros desse organismo. O crescimento da marginalidade, no entanto, ao mesmo tempo em que produziu a contradição e polarizou as opiniões sobre a autoridade policial, fez emergirem múltiplas relações de negociação entre essas partes.

Há, de modo geral, um temor das pessoas em relação ao uso da forca policial, do poder da violência usado de forma legal: “Eu tenho mais medo dos policiais do que dos vagabundos que moram aqui”, é uma afirmação recorrente entre os moradores. Para muitos, é preferível encontrar numa madrugada um criminoso conhecido do que a proteção oferecida pela polícia, já que são muitos os casos de policiais corruptos que extorquem e agridem indiscriminadamente. Quando ninguém vê, são eles que mandam e desmandam, classificam todos de bandido e agem indistintamente sobre os moradores.

Vale ressaltar que, nessa briga de mocinhos e bandidos, muitos policiais também perderam a vida. Os membros da comunidade conhecem aqueles casos mais célebres, os relatos das façanhas grandiosas do mundo do crime ecoam por gerações. É o caso do finado Cabo Sérgio, temido policial do bairro, que foi misteriosamente assassinado e que ainda hoje tem sua história passada de boca em boca. Após colecionar vários inimigos, o cabo foi brutalmente atropelado por um veículo, o automóvel passou sobre seu corpo várias vezes quando o policial saía de uma churrascaria da rua principal do bairro.

O mundo do crime se tornou um elemento tanto real quanto simbólico de exercício de poder. Nas falas, esse universo assusta, mas também fascina. Se parecia complicado seguir sem se perder nas drogas e no submundo do tráfico ou não acompanhar a tendência dos pais

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A pesar da violência, os bares e os clubes dançantes do Serviluz são bastante freqüentados. Além dos antigos cabarés do Farol e das barracas de praia, alguns comerciantes locais também promoviam festas. O Bar do Surfe, o Forró do Joãozinho, O Som do Seu Pedro, o Pagode do Luiz, o Flórida Drinks, o Clube Jamaica e outros, de duração mais efêmera, se destacaram.

alcoólatras e das mães prostituídas, a adesão a esse mundo parece seduzir. Se difícil era evitar o amargar da vida nos presídios da cidade ou afastar a morte que ronda diariamente os habitantes da periferia, a participação nesses espaços ditos violentos produz uma espécie de reconhecimento às avessas que encoraja e dá poder. Depois de alguns malefícios, deixa-se de ser apenas mais um anônimo na multidão para ser um conhecido bandido da favela.

Parece existir aí, a exemplo do Farol, tanto uma triagem quanto uma mistura complexa entre esses universos e a comunidade, de modo que a divisão simplória dentro e fora não consegue abarcar. No dia-a-dia surgem pequenas interações, desenvolvidas em nível microssocial, que precisam ser consideradas, pois estão na base da conformação das relações de poder e solidariedade.

Quando se pensa, por exemplo, no turismo destruído pela marginalidade, percebe-se que a visitação ao bairro não acabou. A não inclusão do bairro nos roteiros oficiais da cidade turística indica não o fim, mas a criação de novos fluxos de visitação. A eliminação da presença de pessoas endinheiradas não acabou com essa prática, mas renovou a permanência da antiga tradição da boa acolhida voltada para “os iguais”. As territorialidades147 que o bairro passou a abrigar criam novas formas de pensar a hospitalidade. Assumir ser do Serviluz com orgulho é uma opção ainda hoje dúbia mesmo internamente, a imagem do medo ecoa e a produção de uma postura valorativa desse espaço guarda sempre suas ressalvas. Mesmo declarando o amor pelo lugar, um entrevistado lamentou que “pra vergonha nossa... assim umas cinco a dez laranjas podres aqui do bairro tentam, insiste, em sujar a imagem do nosso bairro”148.

Para muitas pessoas, o fim do circuito de visitação podia indicar o fim do sonho de sobreviver dessa atividade no próprio bairro e o início de um processo de mudança que revertesse a situação marginalizada.

“Porque chega! A gente tá fazendo o máximo pra que a área seja bem... sabe... bem vista por aí, pra que as pessoas possam vir pra comer um pouco pouquinho de areia conosco, fazer o surfe conosco, aí tem algumas pessoas que querem estragar (...)”149.

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A noção de território pode ser compartilhada com Raquel Rolnik: “(...) território como uma idéia de espaço vivido; não só um espaço geográfico delimitado, mas um espaço apropriado e constituído por relações sociais, por relações culturais”. Cf.: ROLNIK, Raquel. Lei e política: a construção dos territórios urbanos. In: Op. cit.

Projeto História, nº. 18. p. 137.

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Entrevista concedida por João Carlos Sobrinho ao autor em 27/02/2003.

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No contexto de criminalidade, os presídios e as penitenciárias da cidade acabaram tornando-se lugares cujos meandros são conhecidos pelos moradores do Serviluz. Suas informações circulam entre as ruas, os parentes fazem visitas aos domingos e recebem cartas; sabe-se quando um preso do local vai ser solto e quem está marcado com vingança neste retorno. Em algumas rodas de conversa, reproduzem-se as gírias, os jargões e mesmo alguns valores típicos da cadeia. O mundo do crime e o cotidiano das celas, de certa forma, também são revividos dentro da comunidade. Entre os jovens, as penitenciárias nem sempre significam a má sorte do sujeito; em alguns casos, estar preso indica exatamente o contrário, significa estar guardado, ter alimentação gratuita e satisfatória paga pelo Estado. Diferentes inclusive de muitos dos jovens que gozam a liberdade, os presidiários retornam por vezes mais nutridos e fortes, mas, sobretudo, muito mais temidos e valentes devido a essa experiência.

Em meio a essa atmosfera, a morte tende a se tornar um fato cotidiano, um acontecimento que pode ocorrer várias vezes em um só dia. Se a morte é fato, o enterro dos mortos passa a ser um ritual comum, uma cerimônia relativamente corriqueira. Nos funerais mais célebres, geralmente bem freqüentados, esse se torna também um momento de revolta e indignação com a pouca valorização da vida humana dentro da comunidade. Há a certeza de que a morte precoce pode acontecer a qualquer pessoa, de que é preciso estar atento. Sintomaticamente a morte guarda traços com a origem interiorana da população, a morte não é exatamente uma estrangeira, mas uma parte ativa da vida. Anjinhos, finados, defuntos, bem cedo se habitua a esses termos, porque a sabedoria popular indica que termos como estes podem fazer compreender melhor a importância da vida.

É preciso pensar como a comunidade convive com esse cotidiano violento. Como em certos momentos os próprios moradores do bairro utilizam-se dessa imagem amedrontadora que paira sobre o lugar, para evitar que ele seja ainda mais invadido ou tomado pela especulação imobiliária. Os moradores desenvolvem também mecanismos de autoproteção, por vezes alheia à ação da polícia, regulação sem a qual seria impensável a vida social no bairro. É o que se observa quando se impõe ou se cultiva a prática de não agressão dentro da área.

Nesse contexto, a construção de novas imagens e a emergência de novas práticas sociais no bairro se tornaram uma necessidade, passaram a fazer parte dos componentes da identidade e da cultura local. Há nas entrevistas a certeza de que não é possível somente admitir as definições da comunidade feitas do alheio. Do ponto de vista do pesquisador, seria demasiado injusto perceber como se dá a vivência nesse espaço apenas do ponto de vista

socioeconômico. A cultura popular tem uma riqueza e uma racionalidade próprias, que não podem ser alcançadas quando se olha para o bairro com a mesma lupa da cidade que o recrimina.