3.3 Discussion
4.2.3 Evaluation Proposal
A decisão está no cerne da atividade humana. Somos impelidos a decidir a cada momento de nossas vidas. Contudo, como caracterizar a decisão? A imagem do indivíduo escolhendo um curso de ação entre possibilidades de escolha costuma habitar o entendimento geral, porém o ato de decidir representa apenas o momento final de um processo maior, de reflexão, investigação e análise de variáveis que podem ou não influenciar a resolução de um determinado problema (SIMON, 1963). O tempo, a disponibilidade de informações, o ambiente, os recursos, as pessoas envolvidas, enfim... Há vários aspectos, tanto racionais quanto psicológicos, que podem ser considerados no processo decisório, que impactam no seu resultado direta ou indiretamente:
Acreditamos que sempre estamos melhor colhendo tantas informações quanto possível e gastando o máximo de tempo possível em deliberação. Na realidade, nós confiamos somente na tomada consciente de decisões. Mas há momentos, particularmente os de estresse, em que a pressa não gera desperdício, quando nossos julgamentos rápidos e nossas primeiras impressões podem oferecer um meio muito melhor para entender o mundo. [...] Decisões tomadas muito depressa podem ser tão boas quanto decisões tomadas de forma cautelosa e deliberada. (GLADWELL, 2005, p. 19).
Por outro lado, a definição da melhor escolha – e consequentemente, a melhor decisão (grifo do autor) – não pressupõe o indivíduo mais inteligente e capacitado. O desempenho de alguém como tomador de decisão, na verdade, depende também do grau de ajustamento entre a cultura da organização em que está (empresa, família, governo, etc.) e seu próprio estilo psicológico na tomada dessa atitude (GOMES, 2007).
O significado da palavra decisão, do ponto de vista etimológico, decorre do prefixo de (em Latim, significa parar, extrair, interromper) que se antepõe à palavra caedere (que significa cindir, cortar). Literalmente, a palavra decisão significa “parar de cortar” ou “deixar fluir” (PEREIRA e FONSECA, 1997, p. 173). Sob este ponto de vista, a decisão decorreria de eliminar eventuais entraves que ameaçassem deter, desviar ou prejudicar uma determinada linha de ação para solucionar um dado problema.
O estudo da tomada de decisão envolve uma série de conhecimentos de diversas áreas da Ciência, desde a Matemática, a Sociologia, a Filosofia, a Psicologia, a Economia e as Ciências Políticas (BUCHANAN e O’CONNELL, 2006), em que aspectos ligados ao risco e ao comportamento humano frente à decisão são considerados. A intenção comum às variantes desse campo do conhecimento passa pela busca em se obter melhores resultados nas decisões tomadas. Gomes (2007) salienta que uma decisão pode ser percebida sobre três dimensões: a) sua importância, sob o ponto de vista da satisfação dos valores individuais; b) a velocidade exigida para a decisão, que decorrem de um processo maior ou menor de detalhamento na sua avaliação de escolhas; e c) o grau de individualidade, como sendo uma decisão solitária ou que possa emergir da participação de outros membros de um grupo ou organização. A forma como essas dimensões se apresentam denotam a complexidade decisória.
Apesar disso, segundo Buchanan e O’Connell (2006), a história do processo decisório não decorre apenas do racionalismo puro. Ao longo do tempo, constatou-se a necessidade de se aceitar limitações ao processo decisório, por conta tanto do contexto em que eram tomadas quanto das próprias limitações psicológicas do tomador de decisão, quanto à capacidade de tomar a decisão ideal. De acordo com Simon (1955), circunstâncias complexas, tempo restrito e poder mental de computação inadequado reduzem o tomador de decisão a um estado de “racionalidade limitada”. Embora a sugestão aqui recaia sobre o fato de que o homem tomaria decisões economicamente racionais se pudesse reunir informações suficientes para isso, Tversky e Kahneman (1974) identificaram fatores, entre vieses e heurísticas no processo decisório, capazes de levar alguém a decisões contrárias ao seu próprio interesse econômico, mesmo que o tomador de decisão tenha ciência disso.
Neste sentido, surgiu a Teoria da Decisão, em que se estuda a forma como os seres humanos tomam suas decisões cotidianas. Sob as perspectivas da decisão dos indivíduos, no
âmbito dos grupos, nas organizações e na sociedade em geral, a Teoria da Decisão8 pode ser classificada em duas categorias: descritiva e prescritiva (KLEINDORFER, KUNREUTHER e SCHOEMAKER, 1993). A análise prescritiva versa sobre como as decisões poderiam ser tomadas mediante um conjunto de critérios bem definidos. Na sua estrutura, ela se vale da Economia e da Pesquisa Operacional para o desenvolvimento de modelagens otimizadas das decisões individuais e organizacionais, além dos Sistemas de Informação para a estruturação de modelos computacionais interativos e sistemas de suporte a situações de decisão complexas. A análise descritiva, por seu lado, se refere a investigar como as pessoas de fato tomam decisões. Isto envolve aspectos da Ciência Comportamental quanto à resolução de conflitos e geração de soluções entre tomadores de decisão com objetivos distintos, a Ciência Política nas decisões governamentais, a Sociologia sob o ponto de vista das normas sociais e a Psicologia quanto aos limites de habilidade cognitiva individual para processar informações. O Quadro 3 demonstra a forma como a Teoria da Decisão está organizada.
TEORIA DESCRITIVA TEORIA PRESCRITIVA
Indivíduo Psicologia Marketing Psiquiatria Literatura Teoria da Decisão Economia Pesquisa Operacional Filosofia / Lógica
Grupo Psicologia Social Comportamento Organizacional Antropologia
Sociologia
Teoria dos Jogos
Comportamento Organizacional Psicologia Clínica
Finanças / Economia
Organização Teoria Organizacional Sociologia Organização Industrial Ciência Política
Planejamento / Estratégia Cibernética (Teoria do Controle) Desenho Organizacional Economia / Teoria do Grupo
Sociedade Sociologia Antropologia Macro Economia Filosofia Legal Ciência Política Escolha Social Quadro 3 - As Disciplinas Base da Teoria da Decisão
Fonte: Kleindorfer et al. (1993, p. 4)
8 Originalmente, os autores adotam a denominação “ciência da decisão” (“decision science”; KLEINDORFER et al., 1993). Etimologicamente, o termo ciência designa “conjunto metódico de conhecimentos obtido mediante a observação e a experiência”; teoria é designada como “conjunto de princípios fundamentais duma arte ou duma ciência.” (FERREIRA, 2008). Segundo Chiavenato (1993, p. 537), a Teoria da Decisão teve sua gênese com o lançamento do livro “Administrative Behavior”, de Herbert Simon, e é parte da Teoria Comportamental da Administração. Por conta disto, será adotado o termo “Teoria da Decisão”, em consonância com grande parte da literatura utilizada neste trabalho.
Gomes (2001) salienta que há dois paradigmas dominantes na Teoria da Decisão, que antagonizam entre si: a Teoria da Utilidade Esperada (VON NEUMANN e MORGENSTERN, apud GOMES, 2001) e a Teoria dos Prospectos9 (KAHNEMAN e TVERSKY, 1979). Enquanto a primeira trata do aspecto normativo da decisão, isto é, de quanto o indivíduo, estritamente racional, busca maximizar a medida de utilidade por ele esperada10, a segunda estabelece que a racionalidade do tomador de decisão seja ponderada pela avaliação de ganhos e perdas frente ao risco11.
No que diz respeito aos estudos sobre a decisão organizacional, segundo Bataglia e Yamane (2004), estes estão dispostos em duas classes que podem ser denominadas de teorias normativas econômico-matemáticas e teorias descritivas comportamentais (ver Figura 8).
TEORIAS DE DECISÃO ORGANIZACIONAL Teorias Normativas Econômico- Matemáticas Análise das
Decisões Teoria dos Jogos
Administrativa Psicológica Teorias Descritivas Comportamentais Abordagem Administrativa Política
Organizacional Racionalidade Limitada
Abordagem Psicológica
Individual Grupo
Figura 8 - Teorias da Decisão Organizacional Adaptado de Bataglia e Yamane (2004)
As primeiras são subdivididas em duas vertentes: a Análise das Decisões, que trata das decisões estruturadas sob incerteza em situações não interativas e não competitivas (RAIFFA, apud BATAGLIA e YAMANE, 2004), e a Teoria dos Jogos, que se subdivide nas subáreas
9 A Teoria dos Prospectos foi desenvolvida pelos psicólogos Daniel Kahneman e Amos Tversky (1979). Esta teoria se constitui em um modelo descritivo de comportamento decisório e foi proposta como uma alternativa à teoria clássica normativa de tomada de decisão racional de Von Neumann e Morgenstern, de 1947 (apud HASTIE e DAWES, 2001).
10 Segundo Gomes (2001), Utilidade é uma medida da satisfação decorrente do consumo de um bem ou de um serviço, expressado através de uma função matemática. De acordo com a Teoria da Utilidade Esperada, o tomador de decisão racional procura escolher visando maximizar o valor esperado de sua função de utilidade. 11 Risco, genericamente, é a combinação da chance de ocorrer algo indesejável com alguma medida de gravidade das consequências desse evento, caso ele venha a ocorrer (GOMES, 2001, p. 18). Difere de incerteza, isto é, quando é impossível saber a probabilidade de um resultado (BUCHANAN e O’CONNELL, 2006).
psicológica e administrativa e, dentro de um modelo de ação racional, analisa as decisões em situações interativas e competitivas (VON NEUMANN e MORGENSTERN, apud BATAGLIA e YAMANE, 2004). Os estudos envolvidos nessas áreas, dadas as suas características, consideram as possíveis alternativas de solução dos problemas como versões simplificadas ou condensadas dos estados possíveis da natureza (SHIMIZU, 2006). Sob essas abordagens, o tomador de decisão é definido como alguém impecavelmente racional e onisciente, levando em consideração muito mais como se deveria agir do que como se decide de fato (RAIFFA, apud BATAGLIA e YAMANE, 2004). Shimizu (2006) acrescenta que, na vida real, nem sempre um problema é resolvido dessa maneira, uma vez que se deve levar em conta o comportamento do indivíduo ou da organização envolvida na decisão. Por esta razão, estas abordagens não são adequadas ao exame das decisões estratégicas, essencialmente não estruturadas.
Já as teorias descritivas comportamentais podem ser examinadas através dos campos da Psicologia e da Administração. Na área da Psicologia, os estudos têm sido desenvolvidos quanto à decisão individual e em grupos. Os estudos sobre a decisão individual avaliam o comportamento do indivíduo frente a situações não estruturadas, incertas e complexas pela fatoração em subdecisões sistemáticas, tais como a capacidade individual de processamento de informações, heurísticas e esquemas mentais e concepção de problemas. Com relação à decisão em grupos, os estudos são focados em preferências cognitivas e afetivas dos indivíduos, considerando as relações entre os membros do grupo, envolvendo, por exemplo, aspectos de negociação, estilos psicológicos e cognitivos, superconfiança, coesão grupal, liderança, estresse, isolamento e pressões de opiniões contrárias (BATAGLIA e YAMANE, 2004).
No que tange à abordagem que envolve as teorias descritivas do processo decisório na Administração, tem sido consenso nas pesquisas sobre o tema haver, basicamente, dois grandes paradigmas: a racionalidade e o comportamento político (EISENHARDT e ZBARACKI, 1992; DEAN e SHARFMAN, 1993b; SCHWENK, 1995). Por conta disso, a seguir será apresentado o arcabouço teórico oriundo desses dois paradigmas que permite examinar as diferentes variáveis que compõe o processo decisório.