9.2 Systematic uncertainties
9.2.1 Evaluation of systematic uncertainties
Como atuante nos projetos da Economia Solidária, tive, desde o início do meu trabalho nos grupos, dois pressupostos em relação aos projetos nos quais atuei: a democratização das relações; e a divisão eqüitativa dos ganhos entre os membros. A partir de várias experiências de inserção nos trabalhos com os grupos da Economia Solidária, vivi momentos de euforia e idealização da proposta, e também de desencantamento e angústias. A perda de crenças e ideais projetados na Economia Solidária se tornou um processo de sofrimento e de aprendizagem.
A minha trajetória de participação no âmbito da Economia Solidária iniciou em 1999, a partir do processo de formação de grupos em cooperativismo.92 Entre 1999 e 2000 atuei como
formadora em Cooperativismo e Economia Solidária em mais de 10 grupos em uma Incubadora de Cooperativas Populares. Foram dois anos de trabalho buscando constituir cooperativas de trabalho e de produção no espaço urbano, com uma metodologia participativa que compreendia encontros teórico-metodológicos da equipe envolvida e reuniões periódicas nas comunidades participantes do projeto.
O interesse por este tema surgiu a partir de uma pesquisa sobre o processo de construção da identidade grupal nesta mesma cooperativa popular, realizada pela autora em 2003.93 Na
pesquisa do mestrado foi analisado como os membros de uma cooperativa popular de produção construíram sua identidade de grupo na experiência de autogestão. A partir das entrevistas foi percebido que os conflitos e as diferenças no grupo se manifestavam na forma de ambigüidade no discurso dos membros da cooperativa. Naquela pesquisa inicial, acerca da construção da identidade nas práticas discursivas do grupo, foi sugerido também que a ambigüidade pode refletir
91 PECHEUX, M. O discurso: estrutura ou acontecimento. 2. ed. São Paulo: Pontes, 1997. p. 57.
92 A Cooperativa CES, pesquisada neste trabalho, participou deste processo de incubação, sendo um dos grupos que acompanhei por cerca de 10 meses, no ano de 2000, como técnica-formadora da Incubadora IES, em Cooperativismo e Economia Solidária.
93 LISNIOWSKI, S. A. Identidade de grupo na formação de uma cooperativa popular. 2004. Dissertação (Mestrado em Direito)- Universidade Federal do Paraná, Curitiba, 2004.
a dinâmica interna de diferenças e conflitos, tanto como reprodução quanto como uma forma de transformação nas relações grupais. A partir dessa observação, foram levantados alguns questionamentos sobre as causas para esse fenômeno ter se manifestado de forma tão reiterada no discurso, levando a problematização do presente estudo.
Assim, a ambigüidade havia surgido nas entrevistas, sempre presente no discurso, mas não valorizada como fenômeno na análise pois investigar a identidade compreendia outro enfoque de estudo. A necessidade de reconhecimento da diferença nos discursos se tornou ainda mais evidente após a construção do projeto de pesquisa do doutorado.
Após o término do mestrado, em 2006, atuei durante dois meses em uma outra Incubadora que se propunha a formar grupos na perspectiva da Economia Solidária. Infelizmente a perspectiva de pensar a metodologia da Incubadora de forma participativa não foi bem recebida pelo então coordenador do projeto, após vários conflitos, o coordenador informou meu desligamento do projeto.
Há mais de quatro anos não atuo como militante da Economia Solidária, este tempo de distanciamento me possibilitou refletir sobre as experiências vividas nos grupos nos quais trabalhei, buscando compreender meu papel em relação aos projetos e em relação à pesquisa no campo interdisciplinar; me reconhecendo enquanto sujeito do meu próprio desejo no processo de construção dos ideais em torno da Economia Solidária. As reflexões sobre minha experiência na Economia Solidária reforçaram ainda mais a importância do estudo da ambigüidade e da indiferenciação, com suas homogeneidades e reproduções ideológicas, para a compreensão do impacto deste fenômeno na dinâmica grupal.
Falar do meu percurso nos projetos nos quais trabalhei com Economia Solidária significa analisar neles também as ambigüidades que experienciei na interação com outros integrantes, que defendem diferentes posicionamentos em relação à proposta. As diferenças negadas nos projetos de Economia Solidária podem se explicitar de forma muito violenta quando são vistas como uma ameaça pelo grupo que ganha hegemonia em relação a outros sujeitos, com outros discursos, ideais, crenças ou expectativas. A partir desta experiência de desligamento no projeto em que atuei por dois meses, pude refletir sobre as diferenças que também neguei enquanto idealizadora de uma proposta que não era compartilhada por outros membros do projeto, e talvez por este motivo passei a analisar a ambigüidade como uma forma de organizar e dar sustentação para as práticas diversificadas dentro da Proposta da Economia Solidária, sem a explicitação daquelas diferenças que criam tensões nos grupos. Uma das conseqüências da ambigüidade é quando a convivência entre diferentes sentidos, ao mesmo tempo em que inclui os diferentes, também exige destes que não se expressem nas suas diferenças e permaneçam apoiados no ideal do “líder”, pois caso contrário podem ser excluídos do grupo.
Os conceitos compartilhados nos discursos pareceram a mim cada vez mais ambíguos: o que quer dizer respeitar as diferenças? Quais são os parâmetros do que chamamos ou não Economia Solidária? O que significa, para cada um, ter um espaço aberto de fala dentro dos
grupos que visam concretizar a proposta da Economia Solidária? Como conciliar os diferentes ideais, os diferentes sentidos, concepções e metodologias?
Os discursos e as ideologias presentes nos projetos de Economia Solidária estiveram presentes nas minhas reflexões como questões amplas acerca da experiência humana, das condições sociais e econômicas que são imputadas a cada um de nós, das questões éticas e de intencionalidade das nossas ações e das condições materiais, sociais e culturais na sociedade. Nestes quatro anos no Programa de Pós-graduação em Sociologia, li e conheci autores na busca de refletir sobre meu problema de pesquisa, buscando encontrar as pistas que pudessem tornar este fenômeno mais compreensível.
Como pesquisadora fiz um caminho bastante interdisciplinar entre o direito, a sociologia, a economia, a educação, a filosofia, a psicanálise, e finalmente, a lingüística por meio dos estudos em análise do discurso. Lendo e buscando construir meu caminho teórico, ao mesmo tempo diferenciando epistemologicamente as áreas e aproximando-as das minhas reflexões acerca dos fenômenos que se evidenciavam na minha prática, sempre buscando compreender a Economia Solidária no contexto da sociedade atual.
Acredito que este trabalho de reflexão foi possível porque durante o processo de realização da pesquisa houve uma busca de elaboração interna acerca do sentido que tinha e tem a Economia Solidária para mim e do reconhecimento das diferentes interpretações que convergem e divergem no campo de trabalho, colocada pelos seus participantes acerca da proposta. São ideais e objetivos que se mesclam a diferentes discursos, que geram conflitos e ambigüidades. Estas ambigüidades, ao mesmo tempo em que possibilitam a convivência entre os diferentes por meio de um abrandamento das diferenças, elas também podem gerar formas diversas de sofrimento diante das dificuldades enfrentadas pelos grupos e pelos formadores quando estas diferenças não encontram espaço de negociação no projeto. Não foi fácil também, para mim, elaborar o reconhecimento destas diferenças de concepções, e buscar uma análise que possibilitasse compreender essa nova perspectiva que se formava a partir da minha saída, de forma abrupta, de um projeto que buscava se concretizar.
Foi por meio de um trabalho de distanciamento como pesquisadora que se tornou possível analisar minha trajetória e os diferentes discursos que se faziam presentes acerca deste processo. Foi o reconhecimento destas diferenças que me levaram a um processo de auto-análise, de busca de compreensão dos ideais e expectativas envolvidas na minha trajetória nos projetos da Economia Solidária, de busca de diferenciação entre a multiplicidade de experiências no campo de atuação da Economia Solidária, e das emoções, sentimentos, identificações e frustrações experienciadas. O investimento feito por mim em torno do ideal da proposta da Economia Solidária tornou-se, com a minha exclusão do grupo, uma perda, e conseqüentemente, um luto, processo no qual elaborei o significado desta perda na minha trajetória, com toda a carga subjetiva que significa perder parte do investimento psíquico, uma parte de si mesmo, projetada no outro.
O reconhecimento de que todo sentido projetado para fora de mim precisava ser elaborado e compreendido na sua dimensão subjetiva de idealização desencadeou um processo
de distanciamento em relação ao meu ideal anterior. A partir deste movimento foi possível refletir sobre minha pesquisa não do ponto de vista da perda do ideal ou da busca do ideal, mas do infinito de possibilidades da experiência humana, suas possibilidades de transformação, das diferentes articulações de sentidos e de investimento individual de cada um de nós no grupo, o reconhecimento dos diferentes discursos dos participantes desta pesquisa, suas ambigüidades, conflitos, contradições, a busca por criar um novo sentido.
E só foi possível criar esse novo sentido porque muito gradualmente venho me reconhecendo como sujeito faltante, que na sua condição, reconhece que pode assumir ou não seu sentido como sendo seu, ou projetá-lo no mundo como ideal, como universal. Um novo sentido, assumido na sua dimensão, tanto cria novas possibilidades de olhar para as questões que envolvem a prática e as experiências, quanto implica em limitações, escolhas, riscos. Esse processo de construção de um novo sentido foi cheio de idas e vindas, e que resultou na realização deste trabalho investigativo.
Minha trajetória neste campo não tem sido fácil, repetidamente, e logo, contratransferencialmente, são movidos novos ideais em mim, e removidos, e ao aprofundar este processo vivo, venho buscando me reconhecer como sujeito deste processo, reconhecendo também o outro nas suas buscas. Reconhecendo algo de um desejo de mudança, de maior autonomia, de igualdade, de justiça, de reconhecimento. Uma mudança que oscila mas não cai, um enfrentamento comigo mesma, com as limitações, expectativas, frustrações e crenças que se tornam cada vez menos limitadoras para mim. Posso dizer que este processo analítico foi fruto de uma verdade, que anda me rondando, de que eu fiz minha própria história a partir do que fizeram comigo, pois eu estava lá, fazendo meu sentido, meus laços, meus embaraços.
Apesar de toda reflexão e busca de distanciamento, reconheço que permanecem em mim os ideais em torno da Economia Solidária, que tenho como expectativa que se concretizem nas práticas dos grupos que assumem esse objetivo. Durante a análise pude perceber que minha posição em relação ao projeto é de defender estes ideais no horizonte dos objetivos que a Economia Solidária também visa atender. Negar que estes ideais se fazem presente nas minhas reflexões seria negar meu próprio investimento psíquico no projeto da Economia Solidária, e pretender, “idealisticamente”, uma neutralidade em relação à prática da pesquisa.
Esta pesquisa assume uma abordagem sociológica, que considero arriscada, pois é um campo de pesquisa que não tem a ambigüidade como categoria central de análise, e que implica em uma escolha de investigação, pois a análise do discurso dos relatos possibilitava diferentes enfoques, abordagens e recortes. Percebi que a ambigüidade é um tema pouco abordado na sociologia, é mais abrangente na lingüística, principalmente na perspectiva estruturalista, com um estudo da ambigüidade semântica no discurso e com um estudo da análise do discurso. Presente também na filosofia, principalmente na perspectiva fenomenológica que tem um enfoque mais amplo acerca da ambigüidade, como sendo um processo próprio da percepção, ou seja, uma percepção fundamentalmente ambígua pelo sujeito construtor da realidade. E também na psicanálise, com um enfoque de Bleger na constituição da personalidade em interação com o
outro. Como o foco é o estudo da ambigüidade nas interações entre os indivíduos e seu impacto dinâmico grupal, a partir da análise do discurso de seus sujeitos, encontrei na Sociologia da Simmel e na Sociologia Clínica uma delimitação deste enfoque analítico sociológico, que possibilita a compreensão da ambigüidade como um fenômeno de organização grupal.
Acredito que a ambigüidade, tanto no desenvolvimento dos projetos da Economia