Apenas dois expatriados da empresa Z e dois expatriados da amostra “V” relataram ter facilidade na comunicação com os locais. ZP12 já havia estudado português na Universidade e ZP5 aprendeu o português através das perguntas e interação no local de trabalho:
ZP12: ...e por último, na Universidade eu estudei português e por isso em relação à língua, mesmo não sendo hábil eu posso me comunicar e por isso viver normalmente...
ZP5: Eu não tenho muitas dificuldades, pois aprendi bastante o português. Na outra unidade da empresa em que estava eu contratei um professor de português, mas eu não tinha tempo Rs Rs e aí não aprendi, mas pouco a pouco eu perguntava coisas para os funcionários que falavam inglês e os Brasileiros me ensinaram muito. P1: Eu passo instruções em português, mesmo nas reuniões. Há muitos aqui que não falam Japonês...
Não obstante, houve várias citações por parte dos expatriados da empresa Z a respeito das dificuldades de comunicação com os locais. Houve doze (12) citações que foram identificadas na amostra de vinte e dois expatriados (V) relacionadas a esse código. As dificuldades de comunicação com os brasileiros têm como principal fator a falta de domínio da língua portuguesa por parte dos expatriados. Um dos expatriados cogitou a possibilidade de que a dificuldade de comunicação seja estressante não só para o lado dos expatriados japoneses, mas também para o lado dos funcionários brasileiros:
ZP1: Agora conseguir se relacionar com todos de maneira satisfatória é difícil, mesmo entre os japoneses, pois além da personalidade há a questão da língua, pois o meu português não é 100% e no meu caso consigo transmitir entre 30% ou 40% e entendo 70% e tenho dificuldades de me comunicar...
P7: Ah...a comunicação com os locais é o aspecto principal, eu tenho dificuldades com o português...
ZP8: Sim...bom eu me comunico basicamente em português, mas a língua é difícil e não consigo transmitir 100% então há um tipo de
gap na comunicação. Acho que entre os Brasileiros, talvez haja
também estresse por não entenderem os que os Japoneses querem dizer.
A comunicação com os locais em português ainda não é algo totalmente viável tanto na empresa Z como na amostra V. Alguns expatriados se comunicam em inglês, mas nem todos os locais sabem o inglês. Entre os expatriados há aqueles que desconhecem totalmente a língua portuguesa. Para as duas amostras a língua japonesa é utilizada em muitas ocasiões, com a ajuda dos nikkeys, nas quais se fazem necessárias explicações detalhadas e técnicas relacionadas ao trabalho. No entanto, para os locais, a comunicação somente em japonês pode soar como algo cansativo:
ZP13: Antes de mais nada... penso que.... Eh... bom... a língua...se não falarmos nada em português então... embora aqui haja muitos ambientes onde o japonês é compreendido e por isso o trabalho anda, mas do ponto de vista das relações humanas... se falarmos só em japonês pode parecer .... é interessante falar mais em português e mesmo em inglês, pois só em japonês pode ser meio irritante... também penso que ouvir bem a fala dos locais e delegar tarefas a eles, mas com o follow-up adequado...no meu caso há funcionários que trabalham comigo e são novos, com cerca de 20 anos e estão aqui há 3 anos e ainda falta conhecimento técnico e eles não entendem o jeito de fazer o trabalho.
ZP10: Basicamente em inglês. Quando o funcionário não sabe inglês eu me comunico em português, mas como não estudo a língua eu uso algumas palavras...bom há nikkeys aqui e também uso o Japonês e aí eles traduzem para o português.
P15: Em relação à comunicação no trabalho, procuro fazer todas as reuniões em português, mas como tenho dificuldades também falo em japonês e um funcionário Brasileiro da terceira geração nikkey traduz para mim.
cerca de 1000 funcionários e mais de 20 expatriados japoneses e existe uma parede de comunicação entre os expatriados e os locais. Há poucos expatriados que falam o português, então a comunicação é em inglês, muito embora o inglês seja uma língua estrangeira e nem todos os brasileiros dominem esta língua ou em japonês. Há nikkeis nesta empresa, isso se falarmos dos nisseis (segunda geração) que falam a língua, mas os nisseis e sanseis geralmente aprenderam a língua japonesa em casa e sinto que não conseguem muitas vezes ler e escrever em japonês e por isso a comunicação em japonês fica no meio termo.
Além da questão da língua, os expatriados também se defrontam com a dificuldade em transmitir com exatidão o que desejam, conforme afirma P14. Esta dificuldade sugere nas palavras de P14 uma “falha de comunicação”:
P14: Brasil e Japão são totalmente diferentes então é preciso esforço para se adaptar aqui. No meu caso eu não tinha necessidade de falar inglês quando estava no Japão e não falo inglês... A medida em que envelhecemos fica difícil aprender outra língua. A maioria dos expatriados que vêm para cá falam o inglês e assim tocam o negócio. Eu percebo que aqui ocorre um problema de falsa comunicação, é como se o significado daquilo que estou pedindo não fosse compreendido e sempre me defronto com isso...
Há também o expatriado que consegue uma alta compreensão da língua, mas que enfrenta dificuldades em vocabulários que transcendam a esfera do trabalho:
P2: Eu! ? só em português. Depois de um ano eu consegui, no começo eu sofri... Se for uma conversação de um para um eu entendo 80% pois tenho no meu background conhecimentos sobre os produtos, o relacionamento com os clientes, então é possível. Quando vou almoçar e o assunto é sobre futebol, por exemplo, aí é difícil de entender e se houver muitos brasileiros falando ao mesmo tempo então eu não consigo mais entender.
Portanto, em relação à categoria ajustamento interacional, dentre os entrevistados, a maioria relatou que tem pouco relacionamento com os locais, pois não haveria oportunidades de interação fora do local de trabalho. Um dos entrevistados (ZP13) ressaltou que, enquanto representante do Japão, aceitar convites de fornecedores e outros colegas de trabalho para festas ou interações sociais facilita as relações de trabalho e negociações. A interação com locais se restringe ao local de trabalho, muito embora todos reconheçam que haja uma facilidade em se relacionar no Brasil, devido à generosidade e ao clima amigável.
Dentre aqueles que relataram maior interação e facilidade de comunicação com locais, constituídos pela minoria, estão os que praticam esportes como capoeira e futebol.