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Os Intérpretes de Língua de Sinais da área educacional, como participantes ativos nesse contexto tão complexo e diverso, têm vivido diariamente experiências ímpares quando se trata de inclusão escolar de surdos. Por estarem inseridos e envolvidos nas escolas, podem

falar com propriedade sobre essa realidade que tem se configurado em todo Brasil e que, como afirma Dorziat (2009, p. 72), “tem promovido discussões e polêmicas que têm gerado várias pesquisas na área”. Permitir que esses profissionais compartilhem suas concepções e experiências é de fundamental importância, por se tratar de alguém que está realmente inserido nesse espaço singular.

Ao solicitarmos que expressassem suas concepções, os/as ILS apresentaram as seguintes considerações:

[...] de fachada. Eu vejo dessa forma. Na maioria das vezes o que eu vejo é que só aceitam porque tem de aceitar. É lei. É obrigatório ter eles dentro da escola, que não pode ser tirado, mas que não funciona de verdade (Isis). [...] ela deixa assim um pouco a desejar justamente porque não foi preparado [...] os professores não tiveram essa preparação para receber o surdo. No começo da inclusão, quando começou esse processo, o professor chegou na sala ai teve aquele susto, aquela surpresa pra ele... acredito que a inclusão ela é válida até porque vai facilitar a sociabilização do surdo, ele vai ter aquela interação junto com os ouvintes, acredito até que na aprendizagem, assim, eles junto com os ouvintes, eles vão desenvolver melhor. Eu acredito na interação. Eu acredito que é importante, verdade, é ter essa inclusão (Iolanda).

[...] como uma farsa. Mas é uma opinião pessoal. Dizem que ela existe, ok, ela tá ai, ok, mas, na minha opinião, é uma farsa. Eu quero mudar, quem sabe essa daí, mas continua uma farsa (Ingrid).

[...] ainda precisa melhorar, ainda está em andamento (Iane).

[...] a educação é um tanto quanto precária, deixa a desejar, e a inclusão ela não é diferente (Ivete).

Difícil... Tem sido uma adaptação muito difícil. Na sala de aula, eles se tornam excluídos na sala, é como se fosse duas turmas, entendeu? Numa sala de aula de um lado ficam os surdos e do outro ficam os ouvintes... (Iara).

[...] a inclusão do surdo é só no papel, quando vier acontecer, pode ser que melhore muita coisa (Ines).

[...] ainda falta muita coisa. Agora a inclusão que tem aqui é a inclusão social somente (Iranilda).

Eu não sou a favor. Nunca fui... Eu não acho que seja benéfica pra os surdos. Eu não acho que numa escola com inclusão eles tenham tanto rendimento como se tivesse uma escola específica pra eles (Inacia).

[...] as escolas estão tentando de uma maneira, não 100%, ou então, não boa, mas está conseguindo fazer uma inclusão pra os surdos de uma forma que eles se sintam acolhidos no ambiente escolar. Eu vejo que as escolas, as instituições, estão lutando pra que a inclusão venha acontecer de verdade (Iris).

Eu vejo como um desafio... porque eles estão nas salas de aula mas, infelizmente, não há é... uma total inclusão. É muito desafiador para os alunos surdos e para os intérpretes também que trabalham com eles (Irene). Ótimo. Tem uma aceitação, bem aceitos, é trabalhado, como os alunos ditos normais, ouvintes, eles também são avaliados do jeito, claro que tem avaliação diferente, mas que aqui é assim, você quis essa inclusão, bem (Isolda).

Eu percebo que ele tá muito feliz por estar numa escola junto com os ouvintes, que é inclusiva. Eu vejo eles muito contentes, felizes, até porque foi uma luta própria deles mesmos de querer ser incluídos (Ivan).

Ao discorrerem sobre a inclusão de alunos surdos, os ILS, como sujeitos que têm estado diariamente inseridos nesse espaço de interação, apresentaram depoimentos bem diferentes. A maioria dos/as entrevistados/as (nove) afirmaram que a inclusão na verdade é uma farsa, que é uma inclusão de fachada, que tem ocorrido por uma imposição legal, que tem se configurado um desafio pela falta de preparação do espaço e dos profissionais que estão nas escolas e não sabem como desenvolver as atividades com os alunos surdos e que, em muitos aspectos, tem deixado a desejar. Autores como Dorziat, Skliar, Quadros, Lacerda, Perlin, têm, em suas produções e discussões em torno da Inclusão de alunos surdos, questionado todo esse movimento de inclusão que tem se estabelecido nas escolas brasileiras, discutindo todas as especificidades, insucessos e aspectos da cultura, língua, forma de ser e construir conhecimento que os surdos possuem, e que não são considerados e respeitados nesse espaço que se diz inclusivo. Também teve um ILS que se posicionou totalmente contra a inclusão.

A partir das afirmações dos/as ILS, podemos inferir que os autores, citados anteriormente, são coerentes com seus argumentos, quando questionam esse movimento e esse espaço que tem se intitulado inclusivo, a partir dos discursos oficiais e das políticas educacionais, e, em contrapartida, defendem um espaço real de aprendizagem, que possibilite o pleno desenvolvimento dos alunos surdos.

Também surgiu nos depoimentos de dois ILS a afirmação de que viram os surdos felizes na escola inclusiva, que a inclusão escolar era ótima, sendo uma conquista, a partir das lutas dos próprios surdos. Outra intérprete se colocou de forma contraditória, quando, a

princípio, afirma que a inclusão deixa a desejar e, logo em seguida, afirma que a inclusão é valida por promover a socialização dos surdos. Esses depoimentos podem refletir o desconhecimento, por parte de alguns ILS, em relação às lutas históricas dos surdos pelo direito a uma educação de qualidade, que considerasse suas especificidades lingüísticas. Essa concepção pode ser reflexo do não conhecimento destes profissionais sobre as discussões desenvolvidas por muitos estudiosos da área da educação, que apresentam dados mostrando uma inclusão que não contempla as reais necessidades dos estudantes surdos.

Dorziat (2009) afirma que é primordial que a escola seja um ambiente lingüístico onde a comunicação aconteça de forma natural e fluente, através da Língua de Sinais entre os participantes do processo educacional. A escola precisa se configurar num espaço que venha a suprir as limitações existentes no meio familiar dos sujeitos surdos, que, em sua maioria, são filhos de pais ouvintes que não dominam a Língua de Sinais, contribuindo assim, para que a educação das pessoas surdas ocorra de fato. Os critérios para que se dê uma educação de surdos, elencados pela autora, como por exemplo, a utilização da Língua de Sinais desde cedo, o respeito e a consolidação de uma forma particular de ver o mundo a partir das informações visuais e da emergência de reconhecer as diferenças dentro da diferença não estão presentes nos espaços escolares pesquisados,mas foram, de certa forma,denunciados pela maioria dos entrevistados, ao afirmarem que a inclusão é uma farsa.

A relevância das considerações acerca da inclusão, apresentadas pela maioria dos ILS, nos preocupa e em muitos momentos angustiam, por percebermos que estes profissionais que diariamente convivem nos ambientes considerados inclusivos, apesar de terem consciência do caos que tem se configurado nestes espaços, pouco podem fazer para dirimir ou amenizar o resultado das ações pensadas para grupos tão diversos sem considerar suas peculiaridades. O número considerável de intérpretes que afirmam categoricamente ser uma farsa essa inclusão estabelecida em muitas escolas, nos impulsiona a problematizar e divulgar o resultado deste estudo. Nossas convicções ancoradas em estudiosos que se colocam de forma cautelosa e reflexiva sobre a inclusão de surdos e as reais relações presentes no espaço escolar, apresentadas pelos ILS, sujeitos que vivenciam toda essa realidade, revelam que muito há para se fazer, apontam que não podemos apenas reproduzir o que estão afirmando como a melhor alternativa em termos de escolarização, principalmente em relação aos alunos surdos que tem seus familiares cada dia mais seduzidos por um discurso de sucesso e que muitas vezes não compreendem a complexidade e o caos que tem se estabelecido nas escolas.