A exposição por longos períodos a fontes emissoras de ruído pode provocar efeitos auditivos e extra-auditivos no corpo humano (SALIBA, 2011; CHANG et al., 2012; CHAO et al., 2013; MIGUEL, 2014). A identificação destes efeitos não é recente e desde o período da Revolução Industrial são relatados casos de patologias auditivas em trabalhadores de indústrias a vapor, que a princípio eram chamadas de “doença dos caldeiros” (AREZES, 2002). A percepção individual desses efeitos também é importante, pois a partir desta é possível administrar melhor os programas de reconhecimento de riscos e injúrias nas atividades laborais (AREZES E MIGUEL, 2008).
De acordo com a World Health Organization pelo menos 16% dos casos de perda auditiva são decorrentes da exposição ao ruído (COLLE et al., 2011). A relação de percepção individual e o acesso aos tratamentos ainda não é um recurso muito utilizado por aqueles que são expostos diariamente a ambientes ruidosos (HEAR-IT, 2013).
Atualmente, o risco de perda auditiva não está relacionado apenas com a exposição direta ao ruído, mas também com o uso de medicamentos, doenças degenerativas e congênitas, fumo, inflamações nos ouvidos, excesso de cerume, perfurações e bloqueios por corpos estranhos, entre outros (BISTAFA, 2011; HEAR- IT, 2013). Além de processos naturais de envelhecimento das células ciliadas com o passar da idade (SALIBA, 2011; MIGUEL, 2014).
O risco de perda auditiva em geral, associado a atividades laborais, também pode ter fonte não ocupacional como em atividades recreativas e ambientais. Estas perdas auditivas são denominadas de “socioacusia” e trazem sérios riscos à saúde por não haver uma legislação mais firme que imponha limites nos níveis de pressão
sonora (AREZES, 2002; MENDES b, 2013).
Os efeitos auditivos podem ser classificados de acordo com sua intensidade; estas lesões podem ser caráter reversível ou irreversível dependendo da duração, frequência e da intensidade do som (METIDIERI, 2013). Estas são denominadas de trauma acústico, mudança temporária de limiar auditivo e perda auditiva induzida pelo ruído (PAIR), de acordo com a Tab. 9.
Tabela 9 - Tipologias de lesões auditivas
LESÃO DEFINIÇÃO CAUSAS E SINTOMAS
TRAUMA
ACÚSTICO Ferimento timpânica causada pelo excesso na membrana de energia sonora;
Exposição a ruídos de impacto sem proteção; longos períodos de exposição sem respeito ao tempo de descanso auditivo, de 11 a 14 horas.
MUDANÇA TEMPORÁRIA DE LIMIAR AUDITIVO
Efeito de elevação do limiar auditivo por um curto prazo que ocorre com a exposição ao ruído e à mudança de pressão acústica.
Excesso de exposição auditiva. Perda da percepção de perda auditiva. As alterações se normalizam com o descanso auditivo.
PAIR Semelhante ao trauma acústico, o
PAIR, ocorre em exposições de altos ou baixos níveis de ruído ao longo do tempo.
Exposição à ruídos sem proteção por longos períodos. O PAIR pode acontecer de forma bilateral ou unilateral
Fonte: AREZES, 2002; LOPES, 2009; BISTAFA; MELO JUNIOR; SALIBA, 2011; METIDIERI et al.; YANKASKAS; MENDES b, 2013; SAYAPATHI, SU e KOH, 2014.
O trauma acústico está sempre associado às mudanças nos limiares de 3.000 a 6.000Hz, e no caso de ocupações militares está diretamente relacionado com a exposição a ruídos de impacto, muito comuns nas atividades de treinamento de tiro (HEUPA, GONÇALVES E COIFMAN, 2011). A literatura retrata como os seus principais sintomas a perda auditiva e o zumbido. Este último, também é associado com outra patologia auditiva, o Tinido, este consiste em sensações sonoras associadas com perturbações na orelha média e que causam sensações de assobios, sinos ou qualquer outro tipo de som “dentro do ouvido” (HEAR IT; YANKASKAS, 2013).
Além dos zumbidos, o prurido (coceiras e irritação na orelha externa, especialmente no canal auditivo) e a otalgia (dor nas orelhas interna, média e externa; em geral mais associada ao trauma acústico) também podem indicar a presença de algum distúrbio auditivo que pode alterar a capacidade de audição. Sendo desta maneira, investigados durante a anamnese ocupacional e os exames audiométricos (MELO JUNIOR, 2011; MENDES, 2013).
classificados em 4 zonas. Segundo Lehmann apud Miguel (2014, p. 311) esta classificação leva em consideração os efeitos auditivos e extra-auditivos, sendo as reações psicológicas começam a surgir desde os valores de 30 dB(A) até limiar da dor, 170 dB(A) (Fig. 10).
Os efeitos extra-auditivos gerados pela exposição ao ruído se manifestam de acordo com suas características fisiológicas; alterações em sistemas e órgãos do corpo humano, psicológicas e de ordem comportamental. Os sintomas fisiológicos são citados como alterações nos sistemas cardiovasculares (CHANG et al., 2012; BABISCH et al., 2013) e gastro-intestinais (especialmente atribuídas a longos períodos de exposição à ruídos de baixa frequência, menores que 500 Hz), alterações de pupila, cefaleia (SALIBA, 2011; HEAR-IT, 2013; MIGUEL, 2014).
Figura 10 – Efeitos do ruído no ser humano (Segundo Lehmann).
Legenda: Zona I – Efeitos psíquicos e alguns efeitos fisiológicos; Zona II – Efeitos psíquicos e fisiológicos, sobretudo no sistema neurovegetativo; Zona III – Danos irreversíveis ao sistema auditivo; Zona IV – Danos irreversíveis ao sistema auditivo e destruição das células nervosas à superfície da pele. Fonte - Adaptado de MIGUEL (2014, p. 311).
De acordo com Chao et al. (2013), câimbras e espasmos musculares causados pela fadiga, também podem ser associados a exposição ao ruído. Além disso, o ruído fora dos limites de tolerância pode causar quadros de sensibilidade à luz: artificial ou natural.
As alterações psicológicas atuam nos estados gerais do indivíduo, tais como aumento de fadiga, geração de quadros de ansiedade, aborrecimento e agressividade, perturbações no sono, e ainda está fortemente associado ao estresse
REAÇÕES PSÍQUICAS REAÇÕES FISIOLÓGICAS TRAUMA ACÚSTICO DANOS MECÂNICOS 0 30 170 dB(A) 120 65 90 I II III IV
(KANAWADA, 2011; NASSIRI et al., 2013).
De acordo com Lazlo et al. (2012), o aborrecimento causado pela exposição ao ruído é o ponto mais estudado pela literatura, e também o mais difícil de ser mensurado em pesquisas, por também ser associado a outros fatores extra-ruídos. E este fator está mais associado a ruídos de alta frequência como provenientes de turbinas de avião ou ainda ruídos de impacto.
O ruído também pode afetar a vida social, gerando dificuldade de relacionamento e isolamento progressivo do circulo familiar, devido ao efeito psicológico associado às lesões auditivas especialmente quando a lesão se encontra nas baixas frequências (SALIBA, 2011). O ruído afeta também a performance do trabalhador e o desempenho de atividades psicomotoras, as relacionadas com a comunicação sofrem um efeito negativo (AREZES, 2002; LASZLO et al., 2012). No caso de realização de atividades cognitivas o efeito ainda é pior, especialmente quando o ruído é derivado de uma conversa e amplificado pela reverberação do ambiente (SZALMA E HANCOCK, 2011).
De acordo com Matos, Santos e Barbosa (2013) outros fatores também podem ser consequência dos problemas auditivos causados pela exposição ao ruído: aumento dos custos com tratamentos, pois a perda auditiva sempre está associada com outros sintomas auditivos perturbadores; o custo total da perda auditiva pode ser fixado em torno de 10% dos custos totais com doenças ocupacionais; a maioria dos casos é registrada nas faixas etárias de 40 a 54 anos e 55 a 60 anos, e tem como causa a exposição ao ruído por anos;