O pensamento de Paulo Freire, em sua trajetória na segunda metade do século XX, contribuiu para a formulação de um modelo de comunicação horizontal e democrático mesmo não sendo considerado um teórico da área da comunicação, mas um professor pensador que refletiu em sua prática as ideias de filósofos e teóricos de diferentes campos.
Em seu livro Extensão e Comunicação?, Freire (1983) faz uma crítica ao modelo “extensionista” que ele entendia como um modelo de persuasão por meio da propaganda para dominar os trabalhadores rurais. “Não vemos como se possa conciliar a persuasão para a aceitação da propaganda com a educação, que só é verdadeira quando encarna a busca permanente que fazem os homens, uns com os outros, ser mais” (p.14). Para Freire, a persuasão e a extensão, no sentido de dominação do outro, de negação da autonomia do outro, são termos que jamais poderão ser conciliáveis com o termo educação, entendida como prática da Liberdade.
Em um contexto de luta pela reforma agrária, em um país de dimensões continentais e com um povo a quem foi negado o direito de ter terra para plantar, colher e viver, Freire denuncia programas que se utilizam da comunicação e da educação para enganar o ser humano. Denuncia a distorção conceitual de comunicação e educação e busca o sentido etimológico, semântico e mesmo ontológico dos termos. Para ele “Nem aos camponeses, nem a ninguém, se persuade ou se submete à força mítica da propaganda, quando se tem uma opção libertadora”, pois, o “educador se recusa à ‘domesticação’ dos homens, sua tarefa corresponde ao conceito de comunicação, não ao de extensão” (FREIRE, 1983, p. 14).
As propostas de Freire partem do princípio de que a comunicação transforma os seres humanos em sujeitos. Assim, a educação é construção compartilhada de conhecimentos, um processo de comunicação através de relações dialéticas e paradoxalmente dialógicas. A educação, como prática da liberdade é, sobretudo, uma situação de conhecimento que não termina no objeto estudado, já que ela se dá na processualidade do diálogo com outros sujeitos também abertos ao conhecimento.
Só se comunica o inteligível na medida em que este é comunicável. Esta é a razão pela qual, enquanto a significação não for compreensível para um dos sujeitos, não é possível a compreensão do significado à qual um deles já chegou e que, não obstante, não foi apreendida pelo outro na expressão do primeiro. Vê-se assim que a busca do conhecimento que se reduz à pura relação do sujeito cognoscente - objeto cognoscível, rompendo a “estrutura dialógica” do conhecimento, está equivocada, por maior que seja sua tradição. Equivocada também está a concepção de que o fazer educativo é um ato de transmissão ou se extensão sistemática de um saber. [...] A educação é comunicação, é diálogo, na medida em que não é transferência de saber, mas um encontro de sujeitos interlocutores que buscam a significação dos significados (FREIRE, 1983, p. 46)
Esse entendimento dá-se em um espaço contextualizado no cotidiano da vida, das relações concretas do mundo do trabalho e da cultura, mundo entendido como produção humana. É neste espaço que Freire aplica a dialética na história concreta, buscando alfabetizar a partir do imaginário trabalhadores encerrados em situações de opressão, dialogando com os mesmos e possibilitando a eles o diálogo entre si e com o mundo.
Da percepção crítica e da dialética, Freire, como educador cristão, busca um processo interativo de criação entre sujeitos. Em seu pensamento, essa ação
necessita estar baseada numa relação de diálogo que, como processo significativo, compartilhado, constitui a estrutura fundamental e o campo da educação que é a criação da cultura como produto humano.
No entendimento da educação como processo dialético e dialógico, Freire percebe a comunicação em uma dimensão política, geradora de reflexão, de consciência crítica e de transformação da realidade que possui o diálogo. Para ele, o diálogo não é possível sem um compromisso com seu processo, ou seja, o diálogo faz-se dialogando, desenvolvendo a capacidade de ouvir e de falar, garantindo principalmente, por uma atitude ética, o direito de vez e de voz a todas as pessoas.
O caráter problematizador do diálogo em torno das situações ou conteúdos concretos, existenciais, implica um retorno crítico à ação transformadora, a um constante repensar a prática, transformada em práxis, em reflexão-ação, duas dimensões necessárias da essência da comunicação, mediadas pela palavra ou linguagem-pensamento.
Com relação ao campo cultural, a proposta freiriana de “ação cultural libertadora” é o desafio fundamental para os oprimidos da América Latina. Essa ação consiste em lutar pela garantia do direito à voz no contexto global, direito de pronunciar sua palavra, direito de autoexpressão e expressão do mundo, de participar do processo histórico da sociedade, no compromisso em associações de bairros, comunidades eclesiais de base, sindicatos e outras instituições que assumem a luta dos menos favorecidos.
Ainda hoje, muitos educadores buscam pautar-se em suas ideias para construir uma sociedade mais justa e igualitária na consideração das diferenças e na construção de uma pedagogia da liberdade e libertadora, na perspectiva de construção da autonomia.
Paulo Freire (1983), quando propõe o conceito de Comunicação como diálogo e não como mera transmissão de informações, reconhece que o processo comunicacional e educacional só se dá por meio do diálogo. Para o pensador brasileiro que teoriza a partir da visão dos oprimidos em sua dialética com o opressor, a dialética pode levar à dialogicidade quando se reconhecem as diferenças e se busca a superação das desigualdades por meio da construção da educação, comunicação, cultura e histórica em dimensão dinâmica e processual, no conceber e fazer conhecimento.
Comunicação [é] a coparticipação dos Sujeitos no ato de conhecer [...], [ela] implica numa reciprocidade que não pode ser rompida [...], comunicação é dialogo na medida em que não é transferência de saber, mas um encontro de Sujeitos interlocutores que buscam a significação dos significados. (1983, p.46-47).
A partir das ideias de Paulo Freire, há possibilidade da relação e interconexão de saberes que fazem com que comunicação, cultura e educação sejam compreendidas como dimensões fundamentais da construção do conhecimento, em contextos em que dialética e dialogicidade também se distinguem, mas se encontram e se complementam.