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Numa sociedade, os sujeitos não têm em geral a noção de quais leis estão seguindo ou infligindo. Conhecem algumas legislações e buscam conhece-las quando se faz necessário. Mas sabem, porém, que há um agente de poder (policiamento) que é responsável por vigiar e punir (ou premiar) suas ações. Não sabe qual lei orçamentária foi instituída para que ele tenha acesso ou não aos serviços de saúde, ou quanto falta de recursos para que ele seja atendido satisfatoriamente (ou seja, que ele tenha apoio físico e psicológico para voltar a um estado médio de saúde).

Nesse sentido, as leis corporificam regramentos coletivos, formas amplas de aceitar ou negar as interações permitidas e aceitáveis para um grupamento humano. As leis

tem uma extensão delimitada e possuiem várias esferas, desde os regramentos locais e institucionais ou municipais até os acordos internacionais. Possuem uma certa coerência quando observadas no contexto mundial. Ademais exista diferenças fundantes entre as sociedades, alguns valores e regras de convivência precisam ser seguidas. Sobretudo quando precisam interagir economicamente, culturas muito diferentes, com leis bastante dispares, procuram um mediador legal nas instituições responsáveis pela distribuição e pela organização internacional do trabalho.

O cotidiano das populações segue um conjunto de regramentos que estão para além das leis escritas e existe sempre uma certa discrepância entre o vivido e o legislado. A interdependência entre estes dois momentos e os mecanismos de transformas o vivido em legislado e o que é legislado em vivido são disputados entre certos segmentos do grupamento humano em que se manifestam. Para usar noções mais concretas, pode-se dizer que numa sociedade existe uma luta de classes pelo poder de tornar o vivido em legislado e o legislado em vivido. Ambos os processos se assemelham pois seu resultado é a generalização de certas vivencias particulares e particularização de certos regramentos coletivos.

Quando, por um período de tempo amplo, apenas um grupo se apodera desses mecanismos, ideias, políticas públicas e tecnologias, instauram-se relações assimétricas de poder. Caracterizadas pela subsunção de certas características particulares como se elas fossem gerais, tal exercício de poder implica em resistências que modificam os próprios direcionamentos e característica

No Brasil o esteado de exceção só é sentido quando se encontra em crise, quando do seu acirramento e do incremento dos efeitos. No entanto, ele se manifesta cotidiana e progressivamente nos pontos em que as resistências se configuram como ameaças à continuidade da tradição social, econômica e cultural aqui enxertada pelo processo de colonização. O estado de exceção, em seus acirramentos e momentos de crise, instaura alterações no ordenamento das sociedades, mesmo na democracia.

O conceito de democracia abordado por Ranciere (2014) se refere justamente à uma forma contemporânea e ambivalente de perceber tal forma de governo que envolve a participação das massas nas decisões do estado. O problema e o fim da Democracia são a

ampliação do número de pessoas que irá decidir sobre o governo da vida social, econômica e cultural de um grupamento humano específico.

O ódio político à democracia acontece em paralelo aos seus críticos teóricos. Destacam-se os legisladores aristocratas e doutos que submergem na formalidade as linhas mestras de um governo da maioria sobre a minoria, independente das forças materiais e econômicas por estes acumuladas. A República não é outra coisa senão o remodelar desse governo da maioria, que passando a ser representada pela minoria, pode neutralizar a ampliação da liberdade democrática.

Num certo sentido, o problema que precisa ser enfrentado é o exercício da liberdade democrática e não as instituições fundadas pelos Estados democráticos. O ódio à democracia é um ódio à sociabilidade e à quaisquer agires, sentires e saberes que tenham como fim último de seus movimentos conceituais e políticos a modificação das relações sociais, econômicas e culturais. Qualquer alteração da atual civilização individualista, totalitária, atomizada, afeita ao totalitarismo e à formulação de instituições com suas lógicas, estéticas e éticas que visam manter a civilização do capital; qualquer dessas alterações, precisa ser eliminada ou preterida.

O advento de uma democracia formal, totalitária e que inculca relações repressivas, convoca o sujeito a não apenas aderir ao discurso, mas a produzi-lo e diversificá-lo. Talvez as últimas formas totalitárias explicitamente colocadas tenham sido a do mundo da segunda guerra e a nova colonização/descolonização.

Nesse sentido, é preciso ter cuidado com os argumentos que falam dos problemas referentes ao aumento da liberdade e do medo que se chegue ao ponto de liberar nos sujeitos suas tendências mais obscuras, a inclinação ao ilícito e obtenção do prazer e do poder a qualquer preço. As justificativas à disseminação da morte do outro, da guerra e da destruição são várias e formuladas muito logicamente, as vezes com suas estéticas e éticas próprias. Passam por diversos crivos intelectuais e redefinem a democracia como o governo de si de um povo formado por seres mais semelhantes a bandos de animais afeitos à selvageria e à subversão de suas leis de sociabilidade em vista à sobrevivência.

Ocorre na atualidade uma desfiguração da Democracia: fazê-la caracterizar-se como um governo das massas, desordem e fechamento das possibilidades individuais de desenvolvimento e satisfação.

Nas relações mercantis nunca poderá ser generalizado o acesso aos mesmos direitos a todos os cidadãos. A vida democrática legitima as figuras que desestabilizam a ordem, uma vida ordeira, na qual cada um possa se satisfazer. Logo, existe no próprio ser humano um medo da liberdade que advém de sua capacidade racional de estar ciente de muito sobre sua vida, mas não de tudo. Sua incompletude tensiona a incomensurabilidade de suas capacidades e desestabiliza suas relações comunitárias, sem as quais ele não sobrevive, mas com as quais está sempre se confrontando.

A democracia precisa ser governada externamente pois é formada de indivíduos e estes são burgueses, capitalistas, naturalmente consumidores ávidos. Ranciere (2014) vai mostrando como a democracia entendida como o governo do povo por si mesmo se converte numa democracia entendida como a organização de burgueses capitalistas na transformação da vida em capital. As políticas públicas e as críticas sociais especializadas mas interessadas vão sedimentando esse processo. O autor evidência os meandros lógicos da conversão da democracia radical em democracia formal e a qualificação indiscriminada da noção de democracia para os interesses geopolíticos do capital.

É um círculo vicioso: liberam-se as liberdades individuais resumindo-as á liberdade de ingresso no mercado de consumo e da força de trabalho. Assim liberado, porém, chega-se a um nível de liberdade que demanda instâncias repressivas para a manutenção dessa identificação forçada, problematiza-se não o sujeito capitalista e suas pulsões e compulsões, mas o sujeito democrático e o que resta de democracia precisa ser sacrificado em nome da manutenção das instituições democráticas, contra a inclinação do homem à ser um sujeito capitalista.

A civilização do capital, normalizada e naturalizada dessa forma, acoberta sua tendência ao totalitarismo e funda um outro momento na história da democracia. O capital não pode esperar pela cultura e pela sociedade, muito menos pela natureza.

Enquanto exercício de poder, a democracia encontra seu problema fundamental. Conquanto seja a expressão dos conflitos e do exercício do poder, mesmo as resistências só podem se apropriar da verdade e de seus adornos e manifestações (irracionais que sejam) através da subversão e da violência. Isso é uma dificuldade inerente à metafísica da liberdade, pois esta precisa incluir sua negação para estabelecer da realidade

sua verdade mais profunda. Ou seja, a livre expressão da dominação precisa continuar no mundo da vida para que a liberdade se desenvolva e floresça.

Se a democracia, porém, tem um lugar histórico de florescimento enquanto prática política, as tensões que ela sobre enquanto experiência vivida pelos sujeitos remontam à processos muito anteriores.