1. INTRODUCTION
1.4 N EURAL PLASTICITY AFTER STROKE
Apesar de grande parte dos pesquisados compartilharem experiências positivas e alegres com os jogos cooperativos, alguns tiveram momentos em que vivenciaram situações desagradáveis entre si, uma vez que certos participantes estavam atrapalhando as jogadas dos outros e até mesmo machucando o parceiro, como se pode visualizar nos seguintes comentários abaixo:
Aluna A: Eu não gostei quando o Juscelino estava batendo nos dois colegas (jogo “Cubra seu dinheiro”).
Alunos A, J, K, NA, P, M. E: Não foi legal o colega ter empurrado na hora da fila (jogo “Cubra seu dinheiro”).
Aluno M. E: O Fernando me empurrou e aí... não... o Marcos M. empurrou o Filipe (jogo “Cubra seu dinheiro”).
Aluno P: Não gostei do jogo porque ninguém ajudou (jogo “Lista de compras”).
Aluno K: Não gostei que as meninas participavam da brincadeira, porque elas estavam machucando (jogo “Abraço musical”).
Aluna A: Eu não gostei. Porque ninguém me ajudou. Só eu que ajudei. Ninguém me ajudou (jogo “Eco-nome”).
Aluna A: Não gostei do jogo da coruja. Porque ninguém estava me ajudando (jogo “Hoot owl hoot”).
Alunos A, J, K, NA, P, M. E: Não foi legal o colega ter empurrado na hora da dança (jogo “Cubra seu dinheiro”).
Aluno J: Não gostei do jogo que deixaram o ratinho morrer (jogo “Max”). Fica evidente, nas falas apresentadas, que certos educandos manifestaram a sua insatisfação pelos incidentes em determinados jogos cooperativos e acabaram fazendo uma associação dessas experiências negativas com o fato de o jogo ter sido chato ou não ter gostado dele em virtude de ações realizadas pelos outros. Assim, a boa ou má aceitação do jogo cooperativo ficou condicionada aos fatores que interferiram nas suas vivências lúdicas.
É imprescindível dizer que esses jogadores não estavam acostumados a participar de jogos cooperativos e determinadas ações realizadas por eles durante os jogos eram reflexo de práticas competitivas. Essas práticas já são trabalhadas e abordadas há vários anos nos espaços escolares e na própria sociedade com a modalidade de jogos competitivos, como, por exemplo, o futebol, vôlei, corrida etc. Esses tipos de jogos objetivam o sucesso de um ou de poucas pessoas e o outro jogador é visto como adversário, sendo necessário vencê-lo a qualquer custo (BROTTO, 1999, 2003, 2013). Dessa forma, essas atitudes individualistas se tornam mais fáceis de serem executadas do que as cooperativas que exigem mais trabalho dos indivíduos.
Um jogo cooperativo que evidenciou esse sentimento de tristeza e frustação foi o jogo “Duas pessoas, uma bexiga”, já relatado anteriormente, contudo precisa ser retomado pelas ações de alguns jogadores. Esses integrantes eram alunos especiais e os seus balões haviam estourado ao longo da dança. E, como eles apresentaram dificuldades de aceitar e compreender algumas regras do momento lúdico cooperativo, começaram a pegar os balões dos colegas e acabavam estourando pela força com a qual eram retirados. Após esse incidente, paralisou-se o jogo, conversou-se sobre o ocorrido, foram repostos os balões dos jogadores e reiniciaram-se novamente as rodadas. Todavia, o fato de ter o balão estourado pelo colega acabou gerando uma frustação entre alguns participantes que ficou marcada nas seguintes porções textuais:
Aluno P: Achei triste o jogo, porque o Fernando estourou o meu balão (jogo “Duas pessoas, uma bexiga”).
Aluna ME: Achei triste o jogo, porque o balão estourou (jogo “Duas pessoas, uma bexiga”).
Aluna NO: Eu também achei triste, porque o Fernando estava estourando balão de todo mundo (jogo “Duas pessoas, uma bexiga”).
Aluno A: Também achei triste o jogo, porque o Fernando estava estourando o balão e quase estourou o da Amanda (jogo “Duas pessoas, uma bexiga”). Alunos A, ME, NA e NO: Não achamos a brincadeira chata, mas ficamos tristes que tinha gente atrapalhando (jogo “Duas pessoas, uma bexiga”). Aluno P: Fiquei triste no jogo e não teve nenhum momento feliz (jogo “Duas pessoas, uma bexiga”).
Aluna ME: Eu não fiquei feliz. Porque os balões da Noemia, do Alex e de nós duas estouraram (jogo “Duas pessoas, uma bexiga).
Aluna L: Achei triste o jogo porque o Marcos M. e o Fernando tava atrapalhando. Não gostei desse jogo. Por causa que eles pisaram no meu pé. Se não tivessem pisado no seu pé, eu tinha gostado (jogo “Duas pessoas, uma bexiga”).
Outra situação de descontentamento no grupo também ocorreu quando esses alunos especiais na vivência do jogo “Dança das cadeiras cooperativas” não deixavam os colegas sentarem na mesma cadeira em que eles estavam sentados e não queriam levantar após todos saírem para a retirada da cadeira. Assim, os participantes começaram a reclamar dessa situação, porém essas crianças permaneceram com essas atitudes. Dessa forma, foi necessária a intervenção da pesquisadora para que eles colaborassem e deixassem continuar o jogo.
No jogo do abraço musical, houve um momento de frustação, porque o jogo foi encerrado devido a um integrante ter se machucado após um desentendimento entre colegas, que será mais detalhado na categoria adiante.
Não se pode esquecer de mencionar os jogos “Dado bola” e os “Tênis boliche” em que os jogadores diziam verbalizações negativas aos colegas, deixando-os tristes e desanimados nas rodadas, mesmo que no momento da roda de conversa não tenham sido mencionadas essas questões. Todavia, era só olhar a expressão corporal de quem recebia o comentário negativo para perceber que ele se desmotivava naquele momento no jogo. Toda essa tensão gera um sentimento de inferioridade, de baixa autoestima e o próprio desrespeito a quem está participando do jogo cooperativo, que são característicos de ações de jogadores na modalidade de jogos competitivos (ORLICK, 1989; BROTTO, 2003). Assim, essas atitudes e esses sentimentos não representaram os objetivos nem as características dos jogos cooperativos, levando a uma imprevisibilidade no aspecto da cooperação nesse tipo de jogar e na questão do prazer e da alegria de estar participando desse jogo. Isso nos remete à característica peculiar do jogo que, segundo Caillois (1990), se refere à incerteza dos procedimentos e resultados que pode ser confirmada nos relatos de experiência de Correia (2006) sobre os pesquisados que não
aceitaram prontamente os jogos cooperativos, entretanto foi relevante para se discutir relações e questões sociais diante desse impasse.
Na sequência, passa-se à exposição da terceira categoria desse trabalho sobre os limites e as dificuldades encontradas na aplicação dos jogos cooperativos com o grupo pesquisado.
7.2.3 Limites e dificuldades apresentados pelos pesquisados a partir da prática dos jogos